Pré-leitura do livro IRACEMA, de José de Alencar

O AUTOR

Jornalista e político cearense, José de Alencar (1829-1877) escreveu vinte romances, sete peças para teatro e uma autobiografia. Era filho do padre José Martiniano de Alencar, neto de Bárbara de Alencar e sobrinho de Tristão Gonçalves. Deputado e ministro no Segundo Império, defendeu a escravidão.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Iracema”, de José de Alencar, foi lançado em 1865, com 170 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

José de Alencar planejou escrever Iracema em forma de poema e, num posfácio, explica que mudou pensando no leitor (temia não ser entendido e apreciado ). A trama envolve a paixão de uma virgem nativa da nação Tabajara por um guerreiro estrangeiro. O Ceará é o palco natural desta relação de dois representantes de culturas diferentes, de duas civilizações em estágios diferentes. Ao lado de toda beleza, pureza e espontaneidade, também trata a obra do drama da solidão e da dor da guerra.

José de Alencar é reconhecido, entre outros méritos, por ser o “fundador do romance de temática nacional”.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Um ano depois que Iracema foi publicado, o escritor Machado de Assis, no Rio de Janeiro, então capital do Império, fez a crítica literária. Leia os trechos especialmente favoráveis:
“…A fundação do Ceará, os amores de Iracema e Martim, o ódio de duas nações adversárias, eis o assunto do livro. Há um argumento histórico, sacado das crônicas, mas esse é apenas a tela que serve ao poeta; o resto é obra da imaginação…Tal é o livro do Sr. José de Alencar, fruto do estudo, e da meditação, escrito com sentimento e consciência. Quem o ler uma vez, voltará muitas mais a ele, para ouvir em linguagem animada e sentida, a história melancólica da virgem dos lábios de mel…feliz nas criações femininas, as mulheres dos seus livros trazem sempre um cunho de originalidade, de delicadeza, e de graça …Que o autor de Iracema não esmoreça, mesmo a despeito da indiferença pública…Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se é antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe-á obra-prima.”

Machado aponta que Alencar excedeu-se na quantidade de imagens, sem dar importância à imperfeição, já que o próprio autor a reconheceu e facilmente a corrigiria numa segunda edição.

O LIVRO

O livro mostra o amor da bela nativa indígena Iracema e o guerreiro Martim, estrangeiro que aportou nas praias. Canta a beleza natural do Ceará (mar, rios, serras, árvores, flores, pássaros…) e desdobra toda a trama no ambiente de duas tribos de índios em guerra. O texto percorre a geografia cearense e, como se usasse uma câmera panorâmica, fotografa Mecejana, Parangaba, Ipu, Maranguape, Baturité, Ibiapaba…

Os tabajaras e os pitiguaras estão em guerra. Nos momentos de trégua, o autor descreve alguns hábitos e crenças dos povos originários.

O livro aponta para uma valorização excessiva do que é estrangeiro, que a realidade, século e meio depois, confirma.

INSIGHTS

“Bem-vindo sejas. O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos obedecerão.

“Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã.

“O gavião paira nos aires. Quando o nambu levanta, ele cai das nuvens e rasga as entranhas da vítima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.

“A raiva de Irapuã só ouve agora o grito de vingança. O estrangeiro vai morrer.

“— O amor de Iracema é como o vento dos areais; mata a flor das árvores, suspirou a virgem.

“A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ela a grande noite.

“O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?

BONS MOMENTOS

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.
Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor da água.

“Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a viragem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

“— A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n’alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam opressos.

“— Ouve seu trovão e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza.
Araquém, proferindo essa palavra terrível, avançou até o meio da cabana; ali ergueu a grande pedra e calcou o pé com força no chão: súbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo. Irapuã não tremeu…

“Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.
Já o estrangeiro a preme ao seio e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse ádito d’alma, o himeneu do amor.

“Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; mas quando a machucam, azeda. Tua esposa quer que seu amor encha teu coração das doçuras do mel.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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