Pré-leitura do livro ´Ingmar Bergman – estratégias narrativas´, de Alder Teixeira – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Alder Teixeira é mestre em Letras e doutor em Artes. Professor universitário e escritor, autor dos livros ‘Do amor e Outras Crônicas’, ‘Componentes Dramáticos da Poética de Drumond’ e ‘Guia da Prosa de Ficção Brasileira’, entre outros.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘Ingmar Bergman – estratégias narrativas’, de autoria de Alder Teixeira, foi lançado em 2018, pela Editora Premius, com 350 páginas (ilustrado com 14 fotografias). Prefácio de Auto Filho, apresentação de Dimas Macedo e posfácio de Régis Frota Araújo.

CIRCUNSTÂNCIAS

Em sua tese de doutoramento, defendida em 2014, na Universidade Federal de Minas Gerais, estudioso do cinema, professor universitário (História da Arte, Estética do Cinema, Filosofia da Arte, Comunicação e Linguagem em Artes Visuais, Análise de Texto Dramático e Teoria da Literatura), Alder Teixeira faz uma reflexão sobre a obra do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), tomando como ângulo de sua análise as estratégias narrativas do aclamado diretor em dez filmes. Quatro anos depois, no momento em que se comemorava o centenário de nascimento de Bergman (em 2018), o autor faz uma adaptação do texto acadêmico e lança o livro.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

No posfácio, o cineasta e presidente da Academia de Cinema diz que o livro de Alder Teixeira “já nasce um clássico”. No prefácio, na apresentação e orelhas , renomados críticos de arte classificam a obra como ousada, inteligente e elegante, além de vigorosa. Alder Teixeira examina a obra de Ingmar Bergman não pelo conteúdo de caráter social (campo já vastamente explorado), mas pelas escolhas dos recursos técnicos empregados na produção de uma amostra representativa da filmografia do sueco, um caminho original.

O LIVRO

O autor seleciona oito obras de Ingmar Bergman e as enquadra em quatro grandes fases da trajetória bergmaniana, cobrindo todo o período produtivo do diretor sueco (que vai de 1946 a 2003). Depois inclui nos comentários finais duas outras obras marcantes, ‘Fanny e Alexander’ (de 1982) e ‘Sarabanda’ (seu último trabalho, de 2003), e examina-as todas, em sequência cronológica, acompanhando e analisando a evolução das estratégias narrativas usadas pelo cineasta. Explica o autor que “analisar uma narrativa é como buscar descobrir como a história foi narrada, reconhecendo seus estágios, suas articulações, seus encaminhamentos horizontais…”. Apesar de ser este o foco do livro, o conteúdo social (sondagem psicológica, investigação da alma humana) da obra do sueco é permanentemente lembrado ao longo do livro. Evidentemente, conhecer os filmes contribui para a melhor compreensão da obra e máximo deleite da leitura.

INSIGHTS (Curtas)

“A análise da obra de Bergman, pois, comumente assentada em escolhas de abordagem conteudística, de caráter ético-psico-religioso, ressente-se de um exame dos elementos estruturais que é mesmo aquilo que a diferencia entre a dos maiores do nomes do cinema em todos os tempos.”

“Por mais que sejam inseparáveis em sua razão de ser, forma e conteúdo são elementos distintos de uma mesma matéria e, como tanto, oferecem-se a possibilidades de exame distintas.”

“Ingmar Bergman foi um artista da imagem, acima de tudo.”

“Artista extraordinário, Ingmar Bergman é um investigador inquieto da alma humana.”

“Poucos realizadores terão, como ele, alcançado níveis tão elevados de qualidade estética, e, talvez, nenhum outro tenha completo domínio da linguagem do cinema quanto Ingmar Bergman.”

“Não raro, o cineasta condena um artista que se contenta com sua mera função lúdica, a arte como entretenimento, muito embora, como já dito, a obtusidade de uma parte da grande crítica não tenha poupado o artista de acusações em contrário.”

IDEIAS CENTRAIS (Bons Momentos)

“Parte-se do princípio de que o filme, como objeto de linguagem, como espaço de representação e como unidade de sentido, portanto, de comunicação, constitui um tipo de texto. Analisar uma narrativa é muito mais do que esvaziar o seu enredo, mas buscar descobrir como a história foi narrada, reconhecendo seus estágios, suas articulações, seus encadeamentos horizontais, enfim, como o significante (os procedimentos de linguagem) transmite os diversos sentidos fílmicos.”

“A carpintaria fílmica, em Bergman, sobremaneira a partir dos anos 1950, vai gravitar em torno dos elementos formais que parecem antecipar conceitos caros aos franceses, como os de autoria, de escrita e de textualidade. Entre os muitos aspectos estilísticos por que orienta o cineasta sueco a sua obra encontra-se a forte vocação literária dos seus textos fílmicos.”

“Um jogo de memória, de busca de uma identidade perdida. O olhar do cineasta expressa-se pelas escolhas formais com que constrói a narrativa. O conflito familiar, tantas vezes referido pelo cineasta em suas memórias, despersonaliza-se, estende-se ao espectador, através da forma como o artista tece, com o aparato artístico absolutamente moderno de que lança mão, a teia de desencontros em que se acham entranhados marido e mulher, pai e filho, mãe e filhas, avô e netas.”

“Outro aspecto, não menos relevante, é a forma como Bergman joga com a noção de roteiro, que, no seu caso, não encontra correspondente no cinema clássico. Melhor seria falar-se de roteirização, uma vez que o diretor, a essa altura de sua trajetória artística, parece optar pela improvisação a partir de esboços de roteiro. O próprio Bergman mais de uma vez se referiu a isto de maneira clara: “Hoje eu não escrevo mais um diálogo. Escrevo um projeto de diálogo. O roteiro se limita a uma lista de ideias, de temas, de assuntos que elaboro com os atores durante as filmagens.”

“Mesmo não sendo um dos momentos altos da filmografia do sueco, O Rito notabiliza-se pela direção segura e, sobremodo, pelo rigor das escolhas de enquadramento. O filme é sistematicamente gravado em planos próximos. Os ‘closes’, reconhecidos como marca estilística de Bergman, predominam. Além disto, sobressaem os ambientes fechados, o que confere um ar soturno ao entrecho dramático.”

“O elemento autobiográfico, recorrente em sua obra, notadamente em filmes que tratam dos temas reiterados – amor, velhice, morte, solidão, falência dos relacionamentos amorosos, crise da fé religiosa –, salta do pessoal para o universal, constituindo uma estética marcante em meio a outras do gênero.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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