Pré-leitura do livro “Impeachment- ascensão e queda de um presidente”, de Arnaldo Santos

O AUTOR

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciência Política, publicou vários livros sobre política e economia.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Impeachment: ascensão e queda de um presidente”, de autoria de Arnaldo Santos, foi publicado pela editora Cia. dos Livros, no ano de 2010, com 367 páginas, prefácio do jornalista Carlos Eduardo Lins e Silva.

CIRCUNSTÂNCIAS

O impeachment do presidente Fernando Collor em 1992 é o tema específico da tese de doutorado em Ciência Política de Arnaldo Santos, que virou livro. Sua eleição em 1989 parecia consolidar a redemocratização, depois das “Diretas Já” em 1984, da posse de um presidente civil em 1985, eleições para governadores e constituintes em 1986, da Constituição Cidadã de 1988. Em vez de consolidar-se, o país tropeça de novo, e cai, ou seja, afasta-se da estabilidade de suas instituições e do fortalecimento de sua democracia.

Arnaldo Santos, com uma pesquisa séria, apoiado na experiência profissional em jornalismo político, faz uma análise honesta dos eventos históricos, seus personagens centrais e suas reais circunstâncias.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

A eleição presidencial de 1989 foi a mais desejada e esperada da história do Brasil. E seus efeitos foram anulados com o impeachment do vitorioso. Tragédia ou farsa? Arnaldo Santos, ao fazer equilibrada discussão do marcante episódio, expõe verdades inconvenientes.

Este livro (ou esta tese) atende a todos os rigores da Academia, mas usa uma linguagem acessível e objetiva, típica do Jornalismo. A leitura flui e oferece também prazer. E a inteligência do leitor é respeitada. O autor entrega informação e contexto, não os esconde, não os escolhe, não os manipula. Mostra os muitos lados de cada questão. E enfrenta com simplicidade e bom senso as divergências, as controvérsias e as contradições inerentes à política.

O que está presente no livro em matéria de critérios muito faltou no controvertido acontecimento político e na enviesada cobertura jornalística da época, para falar apenas de duas manipulações mais evidentes.

O LIVRO

Basicamente o autor estrutura o livro em três partes principais — a campanha, o governo e o impeachment de Fernando Collor.

Para interessados, o autor apresenta rapidamente a base teórica de sua pesquisa e logo penetra na realidade brasileira. E dela não sai mais. Lista os sete tipos mais atuantes nesta audaciosa articulação, expõe as cinco forças anti-Collor e mostra os bastidores da trama.

A virada dos anos 1980 para os anos 1990, pedaço decisivo e dramático da história do Brasil, os fatos e as figuras públicas que os marcaram (com alguns esclarecedores flash backs) compõem o cenário por trás do Brasil que manda, que decide, que faz chover, quando quer.

O impeachment pode até ficar em segundo plano, na medida em que a leitura avança e o leitor mais atento vai compreendendo melhor o jogo político brasileiro, que segue ora tragédia, ora farsa.

INSIGHTS

“O presidente Fernando Collor de Melo queria simplesmente reformar ou introduzir modificações em vinte e três artigos da Constituição Federal.

“As forças com que se defrontou, no exercício da Presidência, eram muito mais poderosas do que aquelas que desafiou quando prefeito e governador, no seu estado de origem.

“O impeachment representou muito mais a sociedade civil organizada do que a desorganizada.

“A sociedade, de certo modo, é controlada, mas tal controle requer habilidade, não é mera imposição; e está condicionado ao sucesso da manipulação e tal manipulação não é fácil, na escala do episódio do impeachment.

“O quarto poder já não é tão poderoso. O próprio exercício da faculdade de influenciar o curso da História desgasta.

“O predador é forte quando a presa é fraca. As presas fracas constituem uma tentação irresistível para os predadores.

“Não significa que os militares o tenham destituído ou colaborado para isso. Apenas não fizeram nada para salvá-lo…Agiram acertadamente.

“Collor: não devo nada a ninguém, e com dr. Roberto Marinho eu já paguei a conta evitando que Brizola fosse eleito. E quanto à FIESP, também já paguei a conta, evitando que Lula fosse eleito…

BONS MOMENTOS

“O controle da opinião pública, o predomínio de versões sobre fatos e a prevalência de setores poderosos e organizados é que contrasta com a prevalência da vontade das ruas. As ruas queriam o afastamento do Presidente. O que levou expressivas parcelas da sociedade a esta discussão é que pode não ser democrático o clamor de uma sociedade de rebanho, manipulada por forças organizadas e poderosas.

“A indignação é uma aparência de virtude, pelo menos para o grande público, que muitos intelectuais reputam ingênuo. Seria assim a indignação um esforço para aparentar virtude? Ou para desencadear, como que por contágio, a indignação das massas, facilitando a tão sonhada revolução que os jornalistas em geral aguardavam com ansiedade incontida…

“No primeiro momento do governo, houve um ministério, mas os acontecimentos políticos levaram às substituições de ministros. As nomeações que tiveram lugar ao longo do governo sugerem maior sensibilidade às considerações de ordem partidária, mas não pessoais. A nomeação de um desafeto pessoal, como o senador Jorge Bornhausen, do PFL, porque era de um grande partido da sua base de sustentação política, sugere que o presidente Collor levou o princípio da impessoalidade no exercício da política até o limite da temeridade.

“Enumeranado-se as forças anti-Collor, contam-se: a) a social democracia, que talvez seja o rótulo adequado aos seus adversários do PSDB; b) o socialismo ou algo assemelhado, no PDT de Leonel Brizola, no PSB de Miguel Arraes e no PT dos intelectuais, dos sindicalistas, dos servidores públicos e do clero; c) no comunismo, no PC do B, com alguma presença no PT e em vários agrupamentos pequenos das numerosas organizações partidárias e da sociedade civil; d) algo de liberalismo em certos círculos do PMDB, onde havia um pouco de tudo; e e) um relativo conservadorismo entre os militares, insatisfeitos com o sucateamento das forças armadas…

“Os principais tópicos e teses do discurso do senador Fernando Collor: 1)houve abuso do instituto do impeachment; 2) faltou uma acusação direta à pessoa do presidente; 3) houve violação da imunidade do presidente; 4)as supostas provas eram descabidas; 5)o impeachment enseja abusos em pessoas interessadas em notoriedade; 6)o presidente tinha plena consciência de ser minoria; 7) perseguição pessoal de alguns líderes do Congresso; 8) o presidente agiu com isenção e rigor mandando apurar todas as denúncias.

“As personagens foram agrupadas sob a forma de tipos ideais, nos termos da compreensão weberiana: o empresário-cliente, um comensal do Estado desenvolvimentista; o tecnocrata, habitante do Estado patrimonial; o político tradicional, despachante de interesses; o revolucionário fervoroso, cruzado incansável; o político teórico, com atributos de pureza revolucionária; o empresário moderno, portador de ambiguidades próprias do palco político; finalmente, o homem comum, sem voz, sem trunfos, a minoria silenciosa.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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