Pré-leitura do livro ‘História da Solidão e dos Solitários’, de GEORGE MINOIS – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Georges Minois, Professor de História e historiador francês nascido em 1946, é membro do Centre International de Recherches et d’Études Transdisciplinaires (CIRET). Pesquisador conhecido e prestigiado publicou vários livros, entre eles História dos Infernos, História do Riso e do Escárnio, História do Futuro, História do SuicídioHistória da Velhice no Ocidente, História do Ateísmo, As Origens do Mal.

A PUBLICAÇÃO

O livro “História da Solidão e dos Solitários”, de autoria de Georges Minois, foi lançado pela editora Unesp no Brasil em 2019 (seis anos depois da estreia na França), com 504 páginas.

CIRCUNSTÂNCIAS

A solidão é assunto de sempre – ela começa com Adão e Eva. Muda e adapta-se, evolui com as circunstâncias do ambiente e do tempo, impõe-se ao ser humano e pode ser entendida de muitas formas, analisada a partir das mais diversas perspectivas. Todos os olhares, científicos ou não, perscrutam a solidão e focam os solitários. O tema nunca se esgota. Georges Minois, pesuisador minucioso e experiente, habituado a temas delicados (como velhice, ateísmo e suicídio) reúne vasta informação para valorizar o debate.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Georges Minois faz uma abordagem dupla, ao tratar como se fossem dois temas a solidão e a pessoa que a ela adere. O autor escolhe mostrar uma evolução do assunto de forma cronológica, do passado para o presente, colando a solidão, capítulo por capítulo, aos grandes movimentos e mudanças de rumo que marcaram a história do pensamento e da sociedade. A religião, a filosofia, a psicologia, a sociologia, Minois sempre faz as vinculações necessárias à boa compreensão. Além disso, o autor seleciona com felicidade as pessoas que usará (por toda a obra) como referências objetivas das ideias. Calendário, circunstâncias, ideias, pessoas, eventos, tudo vai se encaixando e oferecendo uma leitura atraente, completa e de qualidade.

O LIVRO

O livro está estruturado em 11 densos e minuciosos capítulos. Georges Minois abre com Platão e Aristóteles, passa por Cícerio, Sêneca, Horácio e Plínio – a solidão como ideia, a solidão para a pura reflexão, a busca do saber. Os dois capítulos seguintes fazem a cobertura dos muitos séculos onde prevaleceu o sentimento religioso e a presença marcante da Igreja. Os eremitas, os padres do deserto, os anacoretas, os cenobitas, alguns deles transformando-se em santos. O livro segue com a chegada da Renascença, da Reforma, do Liberalismo, mostrando como a questão da solidão e o perfil dos solitários vai moldando e sendo moldado pelo momento e por suas circunstâncias. Filósofos, poetas, romamncistas, pintores, todos aqueles que trataram do assunto compõem a pesquisa. O autor vai costurando tudo com habilidade até chegar aos solitários conectados de hoje.

CURTAS

A solidão é um luxo que apareceu tardiamente na história”.

Não se tem outra escolha neste mundo a não ser entre a solidão e a vulgaridade”

Sofrer a solidão, mau sinal; nunca s sofri a não ser com a multidão”.

Aquele com quem Deus se encontra nunca estará menos só do que quando está só”.

Aquele que vive como solitário é um monstro ou um deus, não é um homem”

Para muitos, escrita e leitura são fatores de evasão, logo, de isolamento num mundo imaginário que lhes permite escapar a um cotidiano deprimente”.

Essa solidão humanista vai seduzir muitos intelectuais do seeculo XIV ao XVI”.

BONS MOMENTOS

Descobri que toda a infelicidade dos homens vem de uma única coisa, que é não saber permanecer em repouso num quarto. Nada é tão insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem o que fazer, sem divertimento, sem dedicação. Ele sente então seu nada, seu abandono, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Imediatamente surgirão no fundo de sua alma o tédio, a amargura, a tristeza, o sofrimento, o despeito, o desespero.”

Com o humanismo, a Renascença e a Reforma, a noção de solidão passa a ser considerada do ponto de vista positivo. O aspecto penitencial, ascético, forçado, se apagou, substituído por uma visão reconfortante, apaziguadora e voluntária. A ascensão do individualismo e a busca da autonomia fazem da solidão um momento privilegiado que favorece a reflexão, a meditação, a contemplação, o estudo, tão apreciados pelos humanistas. Isolar-se não é mais desaparecer, é, ao contrário, afirmar-se, numa autossuficiência que procura libertar-se das coerções sociais.”

Após o século da sociabilidade, o século do individualismo, após o das luzes, o das revoluções, que rompem com as solidariedades tanto quanto rompem com as correntes. O indivíduo, liberado, afirma sa autonomia, assume suas responsabilidades e, ao mesmo tempo, se encontra só. Livre em teoria, sozinho na realidade. Ao corporativismo opressivo do Antigo Regime sucede o liberalismo do cada um por si. A sociedade hierárquica unanimista é substituida pela selva da afirmação de egos. O solitário, que era um enigma antissocial, torna-se um herói da liberdade individual.”

A característica principal da socidade contemporânea é a confusão. Confusão dos gêneros, dos papéis, dos domínios, dos sexos, da linguagem, apagamento dos limites entre o verdadeiro e o falso, entre o real e o virtual, entre o bom e o mau. Tudo é possível, tudo é respeitável, tudo é verossímel. Ao mesmo tempo sociedade do consenso – fágil de preferência – das ideias aceitas, das falsas evidências, do politicamente correto, o todo mantido por autoridades e interesses tanto mais poderosos quanto são anônimos, e portanto intocáveis…Para tal sociedade, a solidão é uma peste a ser eliminada, um bacilo dissidente que arriscaria destruir o consenso.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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