PRÉ-LEITURA DO LIVRO “GALILÉIA”, DE RONALDO CORREIA DE BRITO

O AUTOR

Ronaldo Correia de Brito, nascido em 1951, é escritor com mais de seis livros publicados, traduzido em pelo menos quatro línguas. Também escreveu peças de teatro e obras dirigidas ao público infanto-juvenil. Tem formação superior em Medicina. 

A PUBLICAÇÃO 

O livro “Galileia “, de autoria de Ronaldo Correia de Brito, foi lançado em 2019, pela editora Alfaguara, com 240 páginas. Recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura e já foi traduzido em pelo menos quatro línguas.

CIRCUNSTÂNCIAS 

O autor escolhe ambientar seu primeiro romance no sertão nordestino, onde nasceu. Os três personagens centrais são netos do patriarca de uma família tradicional poderosa e decadente, que, doente terminal, recusa-se a ir ao hospital. Os primos voltam juntos de longas temporadas fora, esperando chegar a tempo de  despedir-se do avô. E sabem que vão ter de enfrentar todos os dramas, traumas e violência de que fugiram e que os que ficaram também não enfrentaram. 

A  IMPORTÂNCIA DO LIVRO 

Ronaldo Correia de Brito produz uma obra literária robusta, densa e inquietante. Três gerações de uma imensa família acumulam memórias vivas de experiências que jogaram marido contra mulher, pai contra filho, irmão contra irmão… a habilidade excepcional do autor é contar esses eventos em toda sua extensão e profundidade, surpreendendo e encantando ou chocando o leitor ou a leitora, sem tirar-lhes o fôlego, mas em ritmo de aventura, deixando o passado e o presente em carne viva. 

O LIVRO 

O autor estrutura o livro em capítulos breves, dedicados a personagens específicos e aos eventos delicados que marcaram profundamente essas pessoas ainda na infância ou já adultas. 

Os primeiros capítulos são destinados aos três primos que, depois de estudar e trabalhar fora, retornam de grandes metrópoles. Eles viajam juntos e vão se aproximando da grande fazenda chamada Galiléia. Uma metáfora que sugere a modernidade avançando sobre o conservadorismo. Ou o presente desafiando o passado. 

As mulheres da família são figuras importantes da trama. Entretanto, seu protagonismo é evidentemente menor que o dos homens. Elas estão todas sempre presentes, mas falam menos, decidem menos, agem menos. As prostitutas da pequena cidade, entretanto, são alegres, ativas e falantes. Talvez seja o jeito do autor dizer mais sobre elas, sobre eles e sobre os costumes da época. 

Tudo que mobiliza as pessoas na Galiléia é profundamente humano, entretanto acontecem, em paralelo, situações absolutamente sobre-humanas, fantásticas. E a violência, sutil ou explícita, não ficou restrita ao passado. 

A literatura de Ronaldo Correia de Brito consegue ser o tempo todo imprevisível, surpreendente, não há tédio, da primeira à última página. 

CURTAS 

“O calor me enfada. Ele vem das pedras que afloram por todos os lados, como planta rasteira. Nada lembra mais o silêncio do que a pedra, matéria-prima do sertão… “

“O sertão continua na minha frente, nos lados, atrás de mim. O asfalto fede.

“… No máximo, um bando de cangaceiros aparecia e estuprava as mulheres da casa, roubava, matava e dançava até o dia amanhecer.

“De noite, nosso povo deitava no chão e olhava as estrelas.

“Os primeiros fazendeiros matavam os índios, derrubavam árvores e pagavam aos caçadores por cada mil periquitos ou papagaios que eles caçassem.

“… No começo, uma rês era mais importante do que um filho. Se uma vaca morria, fazia falta ao rebanho. Um menino, não. 

“Eles construíram uma fortaleza de sabedoria maior que as lições decoradas nas universidades, a convicção de que era um homem livre no pensamento e na fé.

“… Enxertamos aventuras na vida insignificante dos antepassados, na louca esperança de nos engrandecermos. Que mal havia nisso?

“… Pense em quanto lucramos com essa mentira. Onde não existe esse esplendor, inventa-se.

BONS MOMENTOS 

“… Dentro do mar existe uma pedra, dentro da pedra uma gaiola, na gaiola uma pomba, nas entranhas da pomba um ovo, no ovo uma vela acesa. Se a vela for apagada! Basta um sopro. O que é um sopro? Quase nada. O rapaz socorre-se dos peixes. Eles acham a pedra e a levam até à praia. Depois ele se vale dos carneiros. Eles quebram a pedra dando cabeçadas. Quando o rapaz abre a gaiola, a pomba voa. Os gaviões perseguem a pomba, e a trazem prisioneira. Com a vida ameaçada, o gigante geme e estrebucha.A pomba se agita entre as mãos do rapaz. Ele corta a cabeça do pássaro, abre suas entranhas e retira o ovo. A vela é pequenininha…

“Cidades pobres, iguais em tudo: nas igrejas, nas praças, num boteco aberto às moscas. No posto rodoviário, um guarda federal espera oportunidade de arrancar dinheiro de um motorista infrator. Mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tange três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante dos meus olhos, num só instante: o vaqueiro macho, encourado, e o cavalo das histórias de heróis, quando se puxavam bois pelo rabo.

“Vivíamos nus pelos açudes, nadando, pescando, atravessando os riachos em balsas de troncos, bandos de meninos nus, rapazes nus, homens nus, velhos nus, sem qualquer vergonha. Agora, quando o Ismael me abraçava, chorando como se desejasse recuperar os anos de exílio na Noruega, eu compreendia a ternura que nos unia.

“Tio Josáfa nos revelou, o que aumentava as chances de tratar-se de mais uma lenda familiar, que Tobias possuía dons advinhatórios, que chorou na barriga da mãe, e mal nasceu disse algumas palavras, registradas por nossa avó num pedaço de papel, guardado dentro de um livro.

“… As camas peregrinavam de casa em casa, emprestadas, para que as mulheres parissem — as que preferiam ter os rebentos deitadas, porque a maioria delas não desaprendera o costume dos antepassados jucás, parindo de cócoras. 

“Sempre rezava um terço ao acordar, mas também oferecia fumo à Caipora, quando caçava. Protegia a casa dos maus-olhados atirando sal grosso nos seus quatro cantos. Os umbigos dos nove filhos legítimos foram enterrados na porteira do curral, para que nenhum abandonasse a terra, e todos se tornassem fazendeiros criadores de gado. O feitiço pegou em apenas três deles, que fixaram moradia na fazenda.

“… Como é austero o mobiliário sertanejo. Não existem curvas nos móveis, apenas ângulos retos. Tudo é feito com madeira, tiras de sola e couro cru. Nenhum estofado ou almofada que nos acaricie. Somente as redes envolvem e aconchegam. As casas e seus objetos provocam aspereza e tensão. O poder masculino dita as normas do desconforto, ninguém relaxa nem se entrega à preguiça. Sentamos empalados em cadeiras eretas. Por que as mulheres permitiram essa tirania?

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