Pré-leitura do livro ´Diálogos Transdisciplinares´, de RUI MARTINHO – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Rui Martinho Rodrigues é doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco, mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará e graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza – Unifor. É professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Faculdade de Educação da UFC. Trata-se de um respeitado acadêmico que partilha com a sociedade o seu vasto saber, publicando e participando de maneira equilibrada, mas sempre com brilho, do debate público também no jornal, no rádio, na televisão e blogs.

A PUBLICAÇÃO

O livro “Diálogos Transdisciplinares”, de autoria de Rui Martinho, foi lançado em 2017, pela EdUece (editora da Universidade Estadual do Ceará), com 142 páginas e prefácio do professor doutor João Batista de Andrade Filho.

CIRCUNSTÂNCIAS

O prefaciador refere-se à obra como uma ‘coletânea de textos’ em que o autor coloca a importância da história e da educação para poder compreendê-las em sua atualidade, com todas as suas particularidades e possibilidades, e propõe que o livro é especialmente destinado a pesquisadores e a professores em formação. A formação (Direito, Sociologia, História) e a erudição do autor apontam para a qualidade da obra e o leitor (especialmente aqueles que transitam no espaço acadêmico da pós-graduação) não se frustrará.

A IMPORTÂNCIA DA OBRA

Além de estar cada vez mais acessível, a pós-graduação é cada dia mais cobrada tanto dos profissionais do mercado, quanto dos professores. Isso, todavia, não faz menor o desafio a ser enfrentado por professores e alunos desse nível, que exige dedicação muito mais ampla e pesquisa mais focada, entre outras características. O livro ‘Diálogos Transdisciplinares’ joga luz em várias das questões inerentes à pesquisa e à pós-graduação, sobretudo a partir da perspectiva da História.

O LIVRO

A coletânea de textos está estruturada em sete grandes partes, todas elas divididas em seis a oito temas, praticamente todos com elos com a História. Assim, pesquisadores, alunos e professores encontrarão informação teórica e elementos reais da atualidade e do passado sob a forma de informação, reflexão ou orientação. Por exemplo, o livro começa abordando ‘Biografia e Gênero’ na primeira parte, e na segunda parte (Fideralina e a Educacão Sertaneja) entra no caso real da biografia de Fideralina Augusto, que exerceu forte liderança política no Cariri e no Ceará (a partir da cidade de Lavras da Mangabeira) do final do século dezenove, entrando pelo século vinte.

Quase vinte importantes autores são citados no livro, o que por si já pode ser uma grande fonte de informação ou de inspiração para os que adentram o mundo da pesquisa, da pós-graduação, o estágio mais alto da vida acadêmica.

INSIGHTS

“As biografias nem sempre são a expressão da história personalista. O estudo da trajetória de um personagem permite o estudo dos costumes, da organização social e da cultura de uma sociedade, conforme palavras de Barbara Tuchman.”

“Hoje é preciso justificar o estudo da vida de personagens socialmente importantes, para que não se pense que a história das elites não seja uma história elitista.”

“Muitos concebem a educação como um processo de tomada de consciência das lutas políticas e sociais, travados em torno de interesses de segmentos da sociedade, conforme a educação centrada no projeto político, geralmente de caráter libertário.”

“História, educação e literatura podem e devem dar as mãos. Não existe entre elas nenhum fosso intransponível, não obstante as diferenças devem ser reconhecidas.”

“A História nos convida a estudar a aventura humana sob os múltiplos enfoques, ao modo multidisciplinar e transdisciplinar..”

“Para Pierre Nora, a memória é um monumento politicamente construído e está viva nos grupos sociais, flutuando nos movimentos de lembranças e esquecimentos.”

BONS MOMENTOS

“A História também atenta para a ação social dos protagonistas e as estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais dos espaços em que se desenrolam os fatos e são protagonizados os atos, inclusive pelos protagonistas anônimos da História. Mas, afinal, a História é mestra? Ou apenas narrativas? Ou uma grande narrativa geral? O que é História, afinal?”

“A educação já foi considerada um processo de transmissão da herança cultural, nos termos da educação centrada na cultura. Nesta perspectiva, a História e a literatura desempenham um papel saliente na educação. A transmissão da herança cultural encontra na historiografia e nas letras artísticas os mais destacados veículos a serviço do seu desiderato. A narrativa da vivência humana, com suas tragédias, epopeias, sátiras, comédias, veiculando-as em verso ou em prosa, seja como conto, crônica, novela, romance ou ensaios e tratados dos mais diversos gêneros, constitui formas de exposição do patrimônio cultural acumulado pela humanidade em sua caminhada.”

“A esquematização tríplice, todavia, não subordina a natureza indomável dos fatos nem do modo como eles interagem entre si, apenas facilita a comunicação da compreensão que o autor elaborou no presente estudo, na forma de três avenidas abertas ao exame do objeto em sua etapa analítica. A síntese posterior evitará o fracionamento típico dos saberes especializados que aqui se pretende evitar. As relações entre a Geografia e a História; entre a Geografia e a Educação; e entre a Educação e a História constituem as ditas avenidas.

“Conclui-se que a nova historiografia traz para a sociedade atual – problemática, dialética, globalizada e informacional – as características da abordagem científica adequadas para fazer frentes às necessidades de de registrar a história através de uma perspectiva multidisciplinar – sociológica, antropológica, econômica, arqueológica, geográfica e filosófica – e de um olhar problematizador, dinâmico e totalizante.

“A busca das universalidades amparou a tese da igualdade entre os homens, o voto universal, a impessoalidade no trato da ‘res publica’ e a legitimidade política como consentimento dos governados. A autoridade, seja a eclesiástica ou mesmo a científica, perdeu muito do valor que lhe era atribuído, pelo menos no campo das considerações formais, como proposições acadêmicas.”

Fideralina é disputada na memória dos lavrenses. A heroína, a mulher forte e líder segura, habitante da memória de alguns, ainda trava combates nas lembranças, interpretações e lendas, defrontando-se com outra Fideralina, cruel, transgressora, calculista, ambiciosa, dominadora, violenta e impiedosa. O combate aludido enriquece a pesquisa biográfica, evitando a catilinária e o panegírico, perigos que rondam os estudos do gênero.”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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