PRÉ-LEITURA DO LIVRO “CAPITALISMO E LIBERDADE”, DE MILTON FRIEDMAN

O AUTOR

Milton Friedman (1912-2006), economista, professor e escritor norte-americano, Prêmio Nobel de Economia em 1976, um dos mais importantes pensadores do liberalismo, referência da Escola de Chicago (departamento de economia da Universidade de Chicago).

A PUBLICAÇÃO

O livro “Capitalismo e Liberdade”, de autoria de Milton Friedman, originalmente lançado nos EUA em 1962, teve edição recente da Intrínseca, com 320 páginas. A obra vendeu milhões de exemplares no mundo, traduzida em 19 idiomas.

CIRCUNSTÂNCIAS

No virada dos anos 1950 para os anos 1960, o mundo estava vivendo as “três décadas de ouro” (aproximadamente 1945-1975): crescimento econômico, prosperidade empresarial e incremento do emprego, da renda e dos direitos do trabalhador. Na Europa, era o estado do bem-estar social (welfare state) e enormes investimentos na rápida reconstrução pós guerra. As ideias de John Maynard Keynes prevaleciam desde o New Deal. Até o Brasil cresceu neste período como nunca e como poucos países. Havia também a Guerra Fria (disputa de hegemonia EUA x Rússia). Milton Friedman fez uma série de conferências em 1956, acompanhando de sua mulher, criticando o planejamento central da economia e a intervenção estatal, que viram alvos dos que se identificam como liberais. Esse conteúdo das palestras vai compor o livro que se tornará peça obrigatória na biblioteca do liberalismo.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Juntamente com Frederick Hayek e Ludwig von Mises (da Escola Austríaca), Milton Friedman (Escola de Chicago) e outros construirão a argumentação que dará base e discurso ao pensamento liberal no mundo inteiro, na esteira dos clássicos (Adam Smith, David Ricardo…). Friedman escreve sempre em defesa da liberdade individual e da economia de mercado o mais livre possível. E ataca os regimes socialistas, que ameaçam a liberdade através do planejamento central e da intervenção do Estado. O livro foi bem recebido e influenciou a concessão do Prêmio Nobel para o autor em 1976.

O LIVRO

A obra se estrutura em 13 capítulos. Nos dois primeiros o autor coloca duas questões de princípios e nos demais aplica estes princípios para tratar de temas mais práticos da sociedade.

A ideia central do livro é que os regimes socialistas se definem pelo planejamento central da economia e pela intervenção do Estado. Friedman define e defende que essa interferência avança contra a liberdade individual (valor central do liberalismo) e conduz ao autoritarismo. Este é o tema do primeiro capítulo.

No segundo capítulo o autor formula claramente como os liberais esperam que se comportem os governos, fixando limites e funções bem específicas.

Ao longo das outras páginas, os temas variam entre elementos da teoria econômica (como politica fiscal, politica monetária) e questões sociais que demandam ação do poder público (educação, pobreza e outros).

Claramente, Friedman considera que a caridade é o recurso mais adequado para enfrentar a pobreza. Embora admita abrir o debate sobre um imposto de renda negativo.

O freio liberal ao Estado é tal que até a medicina deveria ser exercida sem necessidade de autorização pública. Da mesma forma critica as ideias de salário mínimo e programas de habitação popular.

IDEIAS CENTRAIS

“… Há uma convicção generalizada de que a politica e a economia são questões distintas e têm pouca relação entre si, de que a liberdade individual é um problema político, e o bem-estar material, um problema econômico; e de que qualquer tipo de organização politica pode ser combinado com qualquer tipo de organização econômica. A principal manifestação contemporânea dessa ideia é a defesa do “socialismo democrático” por muitos que condenam as restrições à liberdade individual impostas pelo “socialismo totalitário” na Rússia…A tese deste capítulo é a de que essa visão é ilusória, pois há uma relação íntima entre economia e política…uma sociedade socialista não pode ser também democrática, no sentido de garantidora da liberdade individual.

“… São estes, portanto, os papéis fundamentais do governo em uma sociedade livre: prover os meios pelos quais possamos modificar as regras, arbitrar as diferenças que surjam quanto ao significado das regras e garantir seu cumprimento por parte daqueles poucos que, de outra forma não se submeteriam.

“… O extraordinário crescimento econômico desfrutado pelos países ocidentais nos últimos dois séculos e a ampla distribuição dos benefícios da livre iniciativa reduziram enormemente a extensão da pobreza em qualquer sentido absoluto nos países capitalistas do Ocidente. Mas a pobreza é, em parte, uma questão relativa…um recurso, e em muitos aspectos o mais desejável, é a caridade privada.

“… O efeito do salário mínimo é, portanto, o aumento do desemprego em comparação com a situação anterior. Levando-se em conta que os baixos salários são de fato um sinal de pobreza, as pessoas que ficam desempregadas são exatamente aquelas que menos se podem dar ao luxo de desistir da renda que estavam recebendo, por menor que pareça para as pessoas que votam a favor do salário mínimo.

“… Os serviços educacionais poderiam ser prestados por empresas privadas com fins lucrativos ou por instituições sem fins lucrativos. O papel do governo seria limitado a garantir que as escolas atendessem a certos padrões mínimos, como a inclusão de um conteúdo básico comum no programa, assim como inspecionar restaurantes para assegurar que mantenham padrões sanitários mínimos.

“… Concordo que o argumento para a permissão para o exercício da medicina é mais forte do que para a maioria dos outros campos. No entanto, as conclusões a que chegarei são que os princípios liberais não justificam a necessidade de autorização nem mesmo para a medicina e que, na prática, os resultados da chancela estatal nessa área têm sido indesejáveis.

INSIGHTS

“… A liberdade econômica também é um meio indispensável para a conquista da liberdade politica.

“… Por vivermos em uma sociedade majoritariamente livre, tendemos a esquecer como são restritos o intervalo de tempo e a parte do globo em que sempre existiu algo parecido com a liberdade política; o estado típico da humanidade é tirania, servidão e miséria.

“… Essa tendência ao coletivismo foi muito acelerada pelas duas Guerras Mundiais, tanto na Inglaterra como em outros lugares. No lugar da liberdade, foi o assistencialismo que dominou os países democráticos.

“… O planejamento econômico coletivista interferiu, de fato, na liberdade individual. No entanto, ao menos em alguns países, o resultado não foi a supressão da liberdade, mas a reversão da política econômica.

“… Talvez tenha sido mera coincidência que a expansão da liberdade tenha ocorrido ao mesmo tempo que o desenvolvimento das instituições capitalistas e de mercado.

“… O programa habitacional destinado a melhorar as condições de moradia dos pobres, reduzir a delinquência juvenil e contribuir para a remoção das favelas urbanas piorou as condições de moradia dos pobres, contribuiu para a delinquência juvenil e disseminou a degradação urbana.

“… Por mais atraente que possa ser como filosofia, a anarquia não é viável em um mundo de homens imperfeitos.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.