A AUTORA
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora. Tem formação superior em Comunicação Social, é pós-graduada em Literatura, Artes e Filosofia e Mestre em Políticas Públicas. É consultora em Comunicação. Publicou cinco livros.
A PUBLICAÇÃO
O livro “Buraco de Dentro”, de autoria de Ana Márcia Diógenes, foi publicado em 2024, pela Editora Patuá, com 190 páginas. Prefácio de Demitri Túlio e posfácio de Well Renault. Orelha de Milena Maria Testa.
CIRCUNSTÂNCIAS
A história breve de duas gerações de uma família, contada com linguagem direta, no ritmo do fluxo de consciência, esta é a essência do livro. A autora coloca fervura na trama ao fazer essa gente pobre demais viver num bueiro da cidade, qualquer cidade, para ter onde morar, para fugir da violência. O buraco de dentro fica abaixo da dignidade, a pouco mais de sete palmos.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
A literatura de Ana Márcia Diógenes tem a força do teatro e a dinâmica do cinema. A experiência da leitura se situa entre o impactante e o contundente, o texto salta do livro e invade o leitor e a leitora. Em outras palavras: com escrita de qualidade no mais alto nível, a pobreza aguda pode ser finalmente compreendida em larga dimensão nas páginas deste ‘buraco de dentro’.
O LIVRO
O livro se estrutura em oito capítulos curtos. Nenhum deles provoca momentos de tédio. Estranhamente, por artifícios da trama concebida pela autora, por seus méritos de contadora de histórias, a vida de sufoco de cada personagem se desdobra em ritmo de aventura, pelo menos para quem lê, mesmo que instantes de doída emoção possam acontecer.
A pobreza tem muitos rostos. Buraco de Dentro penetra muitas dessas expressões. O efeito das carências extremas varia conforme o gênero, homens e mulheres reagem com especificidades próprias. O estrago vai mudando também com a idade, a devastação começa cedo.
E as pessoas absolutamente pobres seguem vivendo suas vidas, só Deus sabe como conseguem. Leitura recomendada. Sem reservas.
CURTAS
“… Moleque pode até ser parecido, mas na comunidade a gente sabe quem é filho de quem, principalmente da mãe, porque pai nem todo mundo tem……
“… entendi que é fácil virar velho quando se é pobre…
“… As história de quando era pequeno parece programa de televisão. Tudo cheio de violência, briga e palavrão…
“… beber resto das latinha nos lixo sem o pai ver, parece com o tempo que raspava escondido as paredes da escola para colocar as lasquinha de tinta na boca e enganar a fome…
“ A cidade era grande e todo dia não faltava novo morador na rua…
“… ele não queria me escutar. O olhar desviava do meu, parecia não querer que eu tivesse ali ou que fosse logo embora — fora cara, tu vacilou e tá marcado, vocês já era…
BONS MOMENTOS
“… A fome não assustava. Nunca tivemos muito o que comer em casa, além do que encontrava nos tambor de lixo. Esmola pedi a vida toda. Ganhava mais quando era pequeno. Quase nunca mais ganhei depois que cresci. De vez em quando conseguia uns trocado, carregando sacola e caixa das pessoa, quando elas não achava que ia sair correndo com as compra.
“Daquele tempo, a coincidência era comida encontrada no lixo. Pensando nisso de dento do desse bueiro sinto falta da rua, das brigas pelo lixo, e até das disputa pelo pelos batente das calçada. No bueiro, o lixo era que virava algo quase proibido. Ir pegar era arriscar a vida da família. Era um mundo de mais miséria morar debaixo do chão…
“… Tem lembrança na minha vida que se pudesse tirava da memória. Pena que não dá. Se fosse possível, enterrava o que tivesse a ver com escola, ô tempo ruim. Foi poucos ano daquela porra e muita chateação. Fazia questão de não pensar no que aconteceu lá, mas viver agora dento de um buraco não dava pra escolher com o que a cabeça ia querer passar o tempo, porque aí o tempo não passava de forma nenhuma.
“… Numa cabeça cabe o mundo. Do que existe ao que nunca se viu, só imagina. Cada um pensa o que quiser. No pensamento, imagino o mundo que acho ser bom. Não importa se é de verdade. Quando era bem miúdo, achava que podia voar. Olhava passarinho, urubu que ia comer bicho morto perto da lagoa, e tentava imitar. Chorava de raiva porque não conseguia. Na escola, a professora dizia que criança tem muita imaginação. Aí que fui entender Que tem esse mundo de dento, que é da cabeça.
“… Saudade é tal cobra de duas cabeça. Você não consegue saber onde começa ou termina, ou se está indo ou voltando. Na vida de pobre a gente tem saudade até do que doeu, porque compara com dor maior ainda que outros vive no esconderijo do nosso bueiro. Sinto vontade de repetir o que foi menos pior, só para não se conformar de estar preso no inferno.
“… precisava fazer algo. Não ia deixar barato. Eles mexeu com minha filha, com minha irmã, mexeu comigo todo. Sentia uma dor no peito que não passava. No dia seguinte, a dor era pior, me deixava inchado. Quem me conhecia calado, só ali no canto da calçada, trabalhando por perto, cuidando da família, deve de ter estranhado estar rodando nervoso, irado, gesticulando sem parar…