Pré-leitura do livro Boca do Inferno, de Ana Miranda

A AUTORA

Ana Miranda é escritora, nascida em 1951. Estreou em 1989 com o romance Boca do Inferno. Ganhou um prêmio da Academia Brasileira de Letras e o Jabuti duas vezes. Foi escritora visitante nas universidades de Stanford e Yale, nos Estados Unidos, e representou o Brasil perante a União Latina, em Roma.

A PUBLICAÇÃO

O livro Boca do Inferno, de Ana Miranda, foi lançado em 1989, pela editora Companhia das Letras, com 304 páginas e ganhou o Prêmio Jabuti de revelação.

CIRCUNSTÂNCIAS

Ao conceber o seu romance de estreia, e para dar-lhe uma sólida base em fatos históricos e personagens reais, Ana Miranda fez uma pesquisa ampla e minuciosa sobre o poeta Gregório de Matos e sobre o Padre Antonio Vieira, figuras marcantes na Bahia do século XVII, e sobre eventos criminosos que punham em guerra aberta duas facções políticas no centro do Brasil colônia de Portugal.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

O livro traz um singular retrato do Brasil submetido ao poder de Portugal e expõe com clareza solar as relações formais e informais entre a metrópole e a colônia. A riqueza maior da obra, entretanto, está nos dois ilustres personagens – o poeta, cujo apelido inspira o título, e o padre –, mesmo que eles não sejam os agentes mais diretos dos eventos dramáticos da disputa política que escorre para a área policial e judicial.

A Bahia é um cenário muito valorizado no texto. Ana Miranda não economiza nas palavras e nas cores para mostrar como e onde começam talvez muitos dos problemas que vão marcar todo o futuro do Brasil. O leitor deve estar pronto para um texto de pegada especialmente forte, necessário para bem transmitir os eventos e mostrar as pessoas daquele lugar, daquele momento.

O LIVRO

A disputa política entre os dois grupos transborda e se transforma em violência. Acontece um assassinato que impacta a Bahia, com repercussões até em Lisboa. O crime envolve um irmão do Padre Antônio Vieira e o próprio poeta Gregório de Matos, que tinha lado na luta. Os desdobramentos da ação no governo local, a investigação policial, a condução do processo na Justiça e as manobras políticas compõem uma trama que apaixona personagens (e leitores) e os leva a pensarem, falarem e agirem fora e acima de seus limites tradicionais.

BONS MOMENTOS

“Reinós, que chamavam de maganos, fugidos de seu país ou degredados de seus reinos por terem cometido crimes, pobres que não tinham o que comer em sua terra, ambiciosos, aventureiros, ingênuos, desonestos, desesperançados, saltavam sem cessar no cais da colônia. Alguns chegavam em extrema miséria, descalços, rotos, despidos, e pouco tempo depois retornavam ricos, com casas alugadas, dinheiro e navios. Mesmo os que não tinham eira nem beira, nem engenho, nem amiga, vestiam seda, usavam polvilhos. Eram esses cristãos que vinham, na maior parte, e esses os que caminhavam por ali tirando o chapéu pe curvando-se à passagem do governador.

“O sexo com prostitutas, assim como as ciladas de inimigos, eram atividades associadas ás sombras da noite, quando Deus e seus vigilantes se recolhiam e o Diabo andava à solta, as armas e os falos se erguiam em nome do prazer ou da destruição, que muitas vezes estavam ligados num mesmo intuito. Os furtos, passatempos da cidade, também ocorriam à noite. De dia as missas se sucediam interminavelmente, às quais o povo comparecia para expiar suas culpas e assim poder cometer novos pecados – concubinatos, incestos, jogatinas, nudez despudorada, bebedeiras, prevaricações, raptos, defloramentos, poligamia, roubos, desacatos, adultério, preguiça, paganismo, sodomia, glutonaria.

“Estive pensando em fazer um concurso de conas. Meretrizes, senhoras casadas, donzelas arrependidas, mulheres nervosas, solitárias, ingênuas, desesperadas, interesseiras, mulheres casadas com cornos, insatisfeitas, todas podem participar. Depois escolheremos a de vaso mais ardido. A melhor na fornicação. Examinarei todas as putanas ab initio, rascoas, cadelas, cós, ancas, chumbergas, ah, ainda vou escrever sobre isso. É o único mote merecedor de uma poesia.
Tudo naquela cidade dependia da força pessoal. Já não se enforcavam mais tão comumente os ladrões e assassinos, tampouco os falsários e os maldizentes. Não havia grandes assaltantes na Bahia, diziam, mas quase todos furtavam um pouquinho. Alguns salteadores de estradas, raros ladrões violentos ou cortadores de bolsas andavam por ali, porém uma desonestidade implícita e constante fazia parte do procedimento das pessoas.

“São feias, mas são mulheres…disse que lera nos livros serem as mulheres diabos disfarçados, circes encantadoras, tentações infernais, peçonhentas no coração e na boca, copuladoras vorazes; que possuir a parte traseira de uma mulher era o mesmo que fazer pacto com o diabo; as que tinham um rosto de anjo e maior donaire eram as mais perigosas…elas traziam dentro do corpo vermes que devoravam os homens; algumas possuíam uma boca entre as pernas, com dentes e tudo…

“Dá-me, amor, a escolher de duas uma demônia. Eu não deixo uma por outra, nem escolho outra por uma; não há dúvida nenhuma, ambas são moças de porte e se não me estorva a morte ambas me hão de vir à mão. Isto, que remédio tem, sejam entre si tão manas, que repartindo as semanas vá uma, quando outra vem; que eu repartirei também jimbo, carinho e favor, porque advirta algum doutor que, sendo à lógica oposto, na aritmética do gosto pode-se rapartir o amor.

“Um alvará promulgado pela Corte autorizava o uso da tortura judicial para se conseguir uma confissão, conquanto fosse desaconselhada nos regulamentos. Quando ocorriam, os tormentos deviam ser acompanhados por um médico, um padre e um irmão da Misericórdia. O acusado podia recorrer na Justiça pela anulação dessa ordem, todavia quase não se solicitava esse tipo de recurso.

INSIGHTS

“A mulher do fidalgo andava com adornos. Uma casada cheia de enfeites, tendo o marido mal vestido, esse tal marido só podia ser corno.

“Ter inimigos parece um gênero de desgraça, mas não os ter é indício de outra muito maior…os inimigos são a trombeta da fama!

“Perde-se o Brasil nas unhas escorregadias dos governantes. O povo daqui sofre por ser uma ralé ignorante.

“O amor nos torna cegos, a frieza nos torna lentos, o ódio, por sua vez, nos torna alertas.

“Era ao mesmo tempo o que esperavam que ele fosse e o que odiavam que fosse…todos falavam nele com entusiasmo, contra ou a favor.

“Quando via um padre jesuíta na rua era como se estivesse vendo um livro andando.

“ De dois efes se compõe esta cidade, a meu ver – um de furtar, outro de foder.

“Acreditavam, em Portugal, que o Brasil não deveria possuir grande número de letrados, pois a colônia “necessitava de soldados e não de advogados“.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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