A AUTORA
Jarid Arraes, nascida em 1991, é cordelista (mais de seis dezenas de publicações) e escritora que publicou seu primeiro livro em 2015. Foi premiada duas vezes e teve obras editadas noutras línguas.
A PUBLICAÇÃO
O livro “As Lendas de Dandara”, de autoria de Jarid Arraes, foi publicado inicialmente em edição independente em 2015, sendo o seu primeiro livro. Em 2021, abrigada pela Editora Cultura, com 120 páginas, a obra já estava na terceira edição. Apresentação de Mirian Paglia Costa. Capa e ilustrações de Ariane Freitas.
CIRCUNSTÂNCIAS
Brasil, século XVII. Ciclo do Açúcar. Casa-grande, ‘coronéis’, senhores de engenho, mão-de-obra escrava, tratada como animais, Alagoas (então pedaço de Pernambuco), Serra da Barriga, região que tinha então mais de sessenta empreendimentos de engenhos com trabalho feito por negros trazidos da África. Exploração violenta e cruel em condições sub-humanas.
A luta dos negros explorados resulta na criação e desenvolvimento de uma comunidade livre e autônoma escondida nas florestas. O Quilombo dos Palmares é a maior destas iniciativas de resistência e se firma por anos com a fuga (individual impulsiva ou coletiva organizada).
Jarid Arraes põe em palavras a vida de uma mulher negra que teria se dedicado a resgatar escravos e organizá-los para a luta por liberdade e dignidade.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
O Quilombo dos Palmares existiu na segunda metade dos anos 1600, localizado na Serra da Barriga, em região hoje situada no estado de Alagoas. Era comandado por Zumbi, que consta nos registros ter nascido em 1655 e morrido tentando salvar o quilombo em 1695. Dandara, entretanto, não tem comprovação histórica, pode ser lenda. Teria sido uma figura excepcional na história do Brasil. Sim, porque o machismo e o racismo certamente apagariam uma vitoriosa mulher, negra, escrava, quilombola e guerreira de mil habilidades, além de companheira de Zumbi, na vida e nos campos de batalha.
Jarid Arraes traz Dandara para dentro da história do Brasil com uma vida de aventura e luta, não importa se lenda ou realidade. Jarid sopra vida na lenda e lhe dá uma concreta trajetória literária. Dandara salta das páginas do livro e encanta e emociona quem lê.
O LIVRO
A autora estrutura a vida de Dandara em dez breves capítulos. Iansã, deusa africana dos ventos e da tempestade, concebe a criança, dá-lhe o nome e uma missão e a coloca na floresta próxima de Palmares. Bayô recolhe Dandara e vai criá-la no quilombo. A menina cresce rápido.
A missão é tornar-se uma guerreira capaz de resgatar seus irmãos e irmãs negros da crueldade da vida de escravidão. Dandara progride nas artes da guerrilha, se aproxima de Zumbi, o líder de Palmares, e passa a comandar ‘exércitos’ quilombolas.
O livro vai mostrar uma mulher excepcional, lutando lutas desiguais. Eis uma heroína brasileira.
CURTAS
“… não entendia suas motivações, muito menos por que a diferença de pele despertava tantas crueldades.
“… no meio do caminho, eu escolho quem luta ao meu lado…
“… na hora da guerra, apenas uma mente fortalecida é capaz de resistir e não desesperar…
“Desde criança, ouvia falar de Palmares, o refúgio dos oprimidos, o reino da Liberdade, onde pessoas como ele e sua mãe poderiam viver em paz.
“… Dandara, você é minha criação. Eu te criei do meu ser e te enviei para esta terra, para que traga liberdade aos meus filhos escravizados.
“… Seu nome será uma lenda para as gerações futuras.
“Queria que todas as mulheres fossem guerreiras, assim como ela almejava ser.
BONS MOMENTOS
“… Ninguém sentia medo. Dandara havia se encarregado de acompanhar cada um deles com técnicas de fortalecimento mental, longas conversas e orientações estratégicas para quase todas as situações possíveis. As mulheres se espelhavam em Dandara e se consideravam preparadas para as batalhas; se sentiam unidas pela imagem da vida, refletidas umas nas outras.
“… Eu sei que você não precisa de mim e não tem de acreditar em mim. Mas eu queria uma nova chance para nós dois. Sem disfarces, sem isolamento. Você não precisa de mim, mas, se me quiser na sua vida, eu gostaria de ser o seu algo mais. Dandara realmente não necessitava de Zumbi, e acreditava que o mesmo era válido para ele. Encarava sua vida como uma jornada com propósito definido: tinha objetivos escritos em seu destino e precisava realizá-los.
“Iansã passava longos períodos refletindo sobre a situação de África. Revisitava as cenas do passado, assistindo a milhares de filhos embarcar forçadamente, como mercadorias, em navios que vinham de lugares de longo curso. Via o sofrimento em seus rostos e voava pelo oceano, acompanhando cada momento de tortura profunda. Iansã fechava os olhos quando corpos eram jogados ao mar, sem saber definir o que mais doía: o destino dos que sobreviveram nos porões dos barcos, viajando em situação degradante, ou os que padeciam no meio do caminho e eram descartados sem rituais e sem respeito.
“… Zumbi nutria por ela admiração que se confundia com adoração. Às vezes, sentia até um certo temor, um sentimento que o colocava em posição de distanciamento, ao mesmo tempo que desejava lhe beijar as mãos com afeto sofrido. Almejava a vida compartilhada, a palhoça dividida e a imagem de seus cavalos lado a lado, na linha de frente de todas as batalhas e vitórias… Com ela podia ser simplesmente um homem, tão vulnerável e tão humano como qualquer outro. Nos braços dela, podia encontrar alento e aceitação.
“… Como escravo na fazenda de Mendonça, a rotina era de terror. A fama da dureza desse patrão corria por toda a região e até os capitães do mato temiam capturar os escravos que fugiam da fazenda dele. Se Mendonça estivesse num mau dia, era era capaz de mandar matar o próprio capitão do mato imediatamente, acusando-o de ter forjado a fuga e a captura.
“… Correndo pelas matas, os palmarinos moviam a vegetação como música. Se alguém pudesse olhar de cima as áreas por onde os guerreiros passavam, se impressionaria com a dança das árvores, com seus galhos que balançavam e encostavam suas folhas umas nas outras. Naquele momento, homens e mulheres pareciam muito maiores e mais fortes, como gigantes enfurecidos, atropelando tudo que estivesse no meio do caminho
“… esse tipo de constatação lhe trazia ainda mais repugnância. Quando Zumbi e sua comunidade recebiam escravos fugidos em Palmares, percebiam o estado de suas mentes, como sentiam medo e, por muitos dias, não conseguiam nem mesmo dormir sem ter pesadelos recorrentes. A escravidão não era apenas algo que causava dor no corpo físico, as feridas inflingidas na alma também eram difíceis de curar.