PRÉ-LEITURA DO LIVRO “ANTÔNIO CONSELHEIRO VIDA E OBRA”, DE JOSÉ AUGUSTO MOITA

O AUTOR

José Augusto Moita, cearense nascido em 1959. é pesquisador e escritor, além de servidor público aposentado (pela Caixa Econômica Federal).

A PUBLICAÇÃO

O livro “Antônio Conselheiro Vida e Obra”, de autoria de José Augusto Moita, com 597 páginas, foi lançado em 2023, pela Expressão Gráfica Editora. 360 páginas são dedicadas ao controverso personagem histórico. As demais transcrevem dois textos do religioso, sobre a Anunciação de Maria e sobre as leis de Jesus.

CIRCUNSTÂNCIAS

José Augusto Moita se propõe a desfazer uma mentira histórica. Mais que isso, uma calúnia covarde. Ele coloca à frente da manipulação nada menos que Euclides da Cunha e João Brígido, ambos jornalistas e escritores de prestígio nacional e regional.

Ele realizou ampla e minuciosa pesquisa em quatro cantos do país para restabelecer a verdade (ou abalar as estruturas da falsidade) sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, cearense de Quixeramobim, conhecido como Antônio Conselheiro ou simplesmente Peregrino, o religioso que teria vencido quatro batalhas contra o Exército brasileiro, no que se chama (impropriamente, claro) de Guerra de Canudos (sertão da Bahia), em 1897. E que não passaria de um fanático amalucado.

Este livro apresenta o resultado dessa pesquisa de quase dez anos. E traz dois textos religiosos mais elaborados do Conselheiro, um sobre Maria e outro sobre Jesus, que ajudam a avaliar a dimensão e a lucidez do biografado.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Para alguns Canudos foi mesmo uma guerra, para outros, uma chacina. O Conselheiro foi “pintado” como simultaneamente “comunista” e “monarquista”. Onde, como e com quem ele teria se tornado um expert em estratégia militar não se sabe. Por que Euclides da Cunha e João Brígido são acusados duramente por José Augusto Moita? Teriam antecipado em séculos a prática das “fake news”?

Canudos e Conselheiro estão na História Oficial do Brasil. Esta obra e seu autor se apresentam à sociedade brasileira com dados, fatos e evidências fartas e aceitam se submeter ao escrutínio mais rigoroso.

Será possível que alguma instituição se disporá a fazer esta avaliação da relevante pesquisa e promover a correção dos registros históricos? A quem caberia tal responsabilidade?

O LIVRO

O livro “Antônio Conselheiro Vida e Obra” se organiza para o leitor em ordem cronológica, dividido em 77 pequenos capítulos, cada um deles listando ano a ano os fatos mais marcantes desde 1706 até 1897, quando acontecem as centenas de mortes.

O autor “abre o jogo” já nas primeiras páginas e expõe seu posicionamento, de forma que o leitor poderá ponderar seguramente sobre a consistência e a verossimilhança do que vai lendo. E “dá nomes aos bois”, como quando acusa Euclides e Brígido.

O livro mostra o comportamento de três instituições ao longo do percurso: a igreja, a imprensa e o exército.

Conhecer o mínimo do acontecido em 1897 facilita a leitura e a compreensão. Canudos e o Conselheiro merecem o tempo dedicado. E ajuda a entender as maquinações da História.

CURTAS

“… o cataclismo assassino que dizimou Canudos poderia ter ocorrido em qualquer local do Brasil que tivesse voto a disputar, bastava confluirem os mesmos erros do plano delineado para turvar a eleição do quinto distrito da Bahia…

“…Mesmo com toda carga de loucura e agressividade incidida ao personagem, crer que quatro expedições do Exército foram desbaratadas estrategicamente por tão ridícula figura, desmoralizaria demais a instituição… 

“… Ninguém ousou a sublimidade de contar uma guerra sem precedentes na história  dos conflitos humanos, em que uma das partes, a derrotada com a mais incalculável dificuldade, fosse comandada por um general do porte do real Antônio Conselheiro..

“… Pela fé Antonio Conselheiro concluiu uma igreja, reformou outras, entregou cemitérios dignos de última morada, apadrinhou centenas de crianças, deve ter presenciado a primeira comunhão e casamento de algumas delas, confortou corações, aconselhou com serenidade…

“… De todas as instituições envolvidas, a que poderia deter as mais honestas informações sobre o personagem, recebidas nas correspondências muito seguramente mantidas com o clero cearense, seria a Igreja da Bahia….

“… Deveras inconcebivel que decorrido mais de um século, tempo suficiente para as devidas respostas e reparações indeclináveis, versões de tal sorte desprovidas de razoabilidade permaneçam vivas não apenas no imaginário popular, mas nos livros, nos sítios de busca informatizados e, o mais lamentável, nos anais da História Oficial do Brasil… 

BONS MOMENTOS

“… Sobressaindo-se no âmbito individual, nomeado o continente pelo conteúdo, irrompem vindos da imprensa e da literatura os seus maiores detratores, João Brígido dos Santos e Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha; este, por dar vazão, potencializar e apregoar as mentiras e calúnias dos seus pares, e daquele, o representante maior da blasonaria falada e escrita no Ceará. De sorte, ou por azar, tudo que se tem hoje da vida do Conselheiro, excetuando uns raros lampejos de realidade, são as defluências do expelido por Brígido e Euclides… 

“…Se coube a João Brígido a confortável impune tarefa de teatralizar em atos criminosos e desonrosos os anos vividos por Antônio Vicente no torrão natal, a Euclides da Cunha restou encargo mais intricado, concluir e disseminar a metamorfose de missionário venturoso em chefe guerrilheiro ocorrida com Antônio Conselheiro. E foram exímios os dois, ao escreverem como quem acredita estar nas palavras a etiologia edificadora da consolidação da mentira. Trabalharam com tanto afinco que hoje é impossível, por qualquer fonte que se consulte, estudar Canudos sem esbarrar na inconteste liderança militar do ancião beato sublevador da ordem…

“… Os brasileiros aceitaram e ainda aceitam com naturalidade a imaginativa historieta de um velho lunático que, se favorecendo do fanatismo de ignorantes sertanejos, uniu forças  para enfrentar em pé de igualdade o exército de uma nação continental. Para estrangeiros um pouco mais esclarecidos pairaria a estupefação incrédula…           
                                                                                                                                                      
“… Nunca se imaginou que em Canudos, o enredo há anos representado entrasse em descompasso com o roteiro, desenrolando-se a trama em direção de apoteose tão inesperada. Previra-se uma peça trivial, de poucos atos e menores consequências. Sem alarde e violência despropositada, o governo enviaria uma tropa; completado o tempo razoável para sossegar o facho da oposição, ela voltaria, e a vida dos sertanejos continuaria na mesma pasmaceira de sempre, acossada aqui e ali apenas pela fome, até as próximas eleições…  

“…Conselheiro, um exemplar da rara cepa de cearenses de “rosto comprido”, sem a famosa cabeça chata, não é mais o ser asqueroso das páginas do jornaleco sergipano de 1874, nem o descrito por Dantas Barreto, de feiura capaz de espantar até os mais dóceis passarinhos do campo. O homem que há mais de vinte anos atraia multidões “nos nossos sertões”, precisava de uma repaginagem menos repugnante, menos desgraciosa: “Antônio Conselheiro, cujo nome de familia é Antonio Vicente Mendes Maciel, cearense, de cor branca tostada de sol, magro, alto de estatura, tem cerca de 65 anos e pouco vigor físico, parecendo sofrer de alguma afecção orgânica, por frequentes e violentos acessos de tosse a que é sujeito.. 

“… O Conselheiro nada mais fazia que reproduzir com fidelidade a conduta itinerante de muitos santos e missionários católicos, catequizando pela mansuetude e mendigando na virtude da humildade, para assistir os desassistidos e as obras nos imóveis da Igreja. Sua impecável atuação atraia e cativava corações construindo uma gigantesca rede de apadrinhamentos e compadrios…

“…A ninguém naquele recinto, ou em qualquer outro local do Brasil, interessava defender Antônio Conselheiro; nem as ligações e destemperos políticos entre seus acusadores causavam apreensão. Todos aceitaram sem a mais ínfima contestação, daquela hora aos nossos dias, que documentos comprovadores da culpa do Peregrino, nesta e em todas as acusações, não fossem apresentados. Concordaram parcimoniosamente, igual aos deputados indiferentes em plenário, com a omissão, a manipulação e a adulteração de provas…

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.