Pré-leitura do livro “A Morte de Benjamin Siegel”, de Eduardo Fontenele

O AUTOR

Jornalista e escritor, Eduardo Fontenele é editor dos blogs ‘pensando desde 1978’ e “drops de filmes”. Um livro de contos, ‘Abstrações’, foi sua primeira publicação, em 2017.

A PUBLICAÇÃO

O livro “A Morte de Benjamin Siegel’, de autoria de Eduardo Fontenele, foi lançado em 2020, pela editora Prellus, com 142 páginas. Prefácio de Laila Araújo Coelho. É o segundo livro do autor.

CIRCUNSTÂNCIAS

Neste segundo passo de sua trajetória literária, Eduardo Fontenele traz para seus novos contos autores clássicos que o atraem e o influenciam, especialmente o escritor tcheco Franz Kafka, a quem homenageia com referências diretas a “Metamorfose” em várias páginas. Do cinema, das artes plásticas e da psicanálise, ele traz outras inspirações (explicitadas no competente prefácio) e as encaixa justamente nos textos. Mas mantém uma clara identidade própria.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Com este livro, Eduardo Fontenele confirma o estilo original, marcante, já observado na estreia, com ‘Abstrações’ (Editora Autografia, 2017).

O texto é seguro, direto, enxuto. O ritmo é ágil e agarra firme a atenção do leitor. As tramas são impensáveis, os desfechos são impactantes. A leitura pode até “mexer” com pessoas mais sensíveis, porque o autor transita por questões delicadas, como feminicídio ou suicídio. E isso valoriza a obra.

O LIVRO

O livro se estrutura em quinze contos, abrindo com aquele que dá título ao livro e se refere a um mafioso judeu atuante no submundo norte-americano nos anos 1930/1940, que tinha o apelido de “bugsy”, besouro, inseto.

Os temas e referências variam: futurismo, surrealismo, aspectos autobiográficos, metalinguagem e histórias regionais. Estarão presentes a lógica e o absurdo, como o questionamento da morte como único caminho para a verdadeira liberdade ou a “pessoa” com corpo de robô e cabeça humana. As duas seções abaixo (Curtas e Bons Momentos) dão aos interessados um bom aperitivo do cardápio de assuntos dos contos e do estilo do autor.

CURTAS

“Nosso universo é um mero embrião dentro de um ovo ainda não chocado do verme do tempo, dentro da barriga do hospedeiro, o escolhido para essa tarefa.

“Todos os médicos deveriam poder voar para não se tornarem enfadonhos.

“Eu e o deserto nos tornamos um, ele nunca vai me deixar, nem eu a ele.

“Ele basicamente sofre. Nem na ficção de má qualidade o personagem evita o sofrimento.

“…se o senhor conseguir segurar esta arma calibre 32 e me matar, é porque isto aqui é a realidade. Caso o senhor seja uma ideia, nada acontecerá, pois uma ideia não pode matar um homem.

“Você é um produto da opressão. Por mais que seu pai tenha feito mal a você, ele não conseguiu arrancar o que você tinha de mais precioso…

BONS MOMENTOS

“Subitamente o telefone toca. Wagner atende, uma voz masculina lhe diz:
— A tua mulher está te traindo.
— Como assim? Com quem? Quem está falando?
— Cale a boca e escute: ela te trai com muitos. Ela dá pra todo mundo, basta ser homem.
— Quem está falando?
— Um amigo.
— Diga um nome. Com quem?
— O primo dela.
— Aquele policial?
— Sim. O Tavares.
O homem desliga, deixando Wagner atônito.
— Quem era? – pergunta Madeleine.
— Ninguém. Era engano, volte a dormir.

“Começou a procurar suas mãos e só encontrou cascos. Cascos de animal, de boi. Haviam-no transformado em um um touro. Era agora quadrúpede e carnívoro. Não tinha o menor interesse em pastar. Capim lhe dava ânsia de vômito. Viu um homem que parecia ser um vaqueiro, tentou aproximar-se, mas foi repelido a pedradas. Desistiu e fugiu. Galopou até o mato alto. Decidiu esconder-se e descobrir quem era agora. Foi até um córrego e viu seu reflexo na água.

“Fala de ignorância, mas também fala do medo que a lógica traz. Produziram-se horrores tanto devido à ignorância, quanto devido à lógica. Ignorância leva a atitudes extremas como terrorismo e o fanatismo religioso, e o excesso de saber também produziu aberrações como o Nazismo, talvez a lógica não cegue quem a detém, mas seja manipulado por estes para corromper os que não a possuem.

“Pensou com tristeza nas palavras que acabara de proferir em sua mente, “murchar e morrer”, por que o destino de toda a beleza é definhar e desaparecer? A beleza era transitória, fugaz. Não era possível mantê-la por toda a eternidade, um dia ela acabaria simplesmente. Mesmo uma obra de arte não conseguiria retê-la indefinidamente, esculturas poderiam ser facilmente destruídas, jarros quebrados, templos derrubados, músicas esquecidas, o teatro censurado, a literatura e a pintura proibidas.

“Eu tenho andado pela Terra há décadas, neste período conheci pessoas, novas culturas, errei sem rumo, sempre no mais perfeito anonimato. Foi assim que conheci o submundo. Fui michê e assassino de aluguel. As mulheres me consideravam exótico, principalmente depois que descobriram meu vigor insaciável. Me deitei com dezenas. Mas um incidente obrigou-me a uma aposentadoria precoce. Na verdade, o problema deu-se devido a uma morte, foi assim que descobri minha outra vocação: matar.

“Não sou vaidoso, mas bem que podia ter ganhado aquele Nobel de Literatura. Seria uma forma de me convencer que eu tinha escolhido a profissão certa, de que não tinha desperdiçado minha vida com centenas de horas de leituras inúteis…Minha obra tem valor para intelectuais reacionários, velhos, cegos, fabulistas e tolos…Está tudo acabado, agora deixe que eu parta.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.