Pré-leitura do livro “A Máquina do Caos”, de Max Fisher

O AUTOR

Max Fischer é jornalista nos Estados Unidos, repórter do jornal The New York Times. Fischer foi finalista do principal prêmio da imprensa norte-americana (Pulitzer) em 2019, com um trabalho coletivo sobre redes sociais.

A PUBLICAÇÃO

O livro “A Máquina do Caos – como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo”, de Max Fischer, foi lançado em 2022, simultaneamente nos EUA e no Brasil, aqui pela editora Todavia, com 547 páginas. Tradução: Erico Assis.

CIRCUNSTÂNCIAS

Este livro se baseia em informações de diversas origens, todas em princípio confiáveis. Muitos dados foram extraídos de estudos acadêmicos e atas judiciais, entre outras fontes primárias. Também se utiliza de entrevistas (gravadas) com centenas de pessoas que estudaram, combateram, exploraram ou foram de alguma forma afetadas pelas redes sociais, entre elas colaboradores e gestores das big techs do Vale do Silício. Como fez o autor em sua pesquisa em forma de reportagem (ou vice-versa), o leitor poderá checar quase tudo nas últimas páginas, conferindo as notas bibliográficas, que também listam as declarações baseadas em estudos ainda não publicados na época deste lançamento (2022).  

O ponto de partida do autor foi um vazamento de 1.400 páginas de documentos internos do Facebook, provenientes de várias regiões do planeta, revelando a mão invisível do Facebook em sua ação junto a 2 bilhões de pessoas, com foco na participação e no discurso político. O livro se expande e aborda as outras big techs e suas redes sociais. 

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Vários livros têm sido publicados sobre os mecanismos que as redes sociais usam para obter audiência, engajamento. Muito já se sabe sobre a manipulação das pessoas e sobre o efeito destrutivo dessas plataformas no processo político democrático.

A Máquina do Caos entra nessa lista com uma denúncia grave, consistente e profunda: a ação por muitos considerada criminosa dessas redes sociais é deliberada, consciente e essencial na expansão acelerada das receitas gigantescas das empresas e na alta lucratividade. Não há ingenuidade no setor, nem acasos nos processos. Os algoritmos (ferramentas da manipulação) foram cuidadosamente desenvolvidos para usar qualquer recurso, independente das consequências políticas ou humanas, sem freios, sem limites, doa a quem doer. E, a crer na denúncia do autor no livro, nada vai mudar pra melhor, a máquina do caos segue sem que ninguém a enfrente.

As tragédias se sucedem e se espalham por todo o tecido social, a política é apenas a área agudamente mais doente. O livro traz a dimensão dessa tragédia. A leitura choca.

O LIVRO

O livro está estruturado em 12 capítulos, com subdivisões, mais prólogo, epílogo e inúmeras notas bibliográficas e fontes de pesquisa. A obra entrega o que o título promete e relata eventos em várias regiões do planeta, citando servidores e gestores das próprias big techs que administram as plataformas mais importantes (Facebook, Twitter, YouTube, com destaque), além de relatórios vazados e pronunciamentos de lideranças políticas.

A pesquisa-reportagem viaja os quatro cantos do mundo e relata eventos dramáticos (inclusive causando perdas de vidas, como o genocídio de Mianmar). O texto expõe a engrenagem por dentro, o livro não poupa as redes como Facebook, WhatsApp, Twitter e YouTube, principalmente, cita nominalmente seus dirigentes e sua desfaçatez nas conversas e negociações com instituições e autoridades, como o Congresso e presidentes dos EUA. As big techs “empurram com a barriga” qualquer ajuste corretivo, fazem promessas que não serão cumpridas, usam uma retórica envolvente e seguem ampliando sua força manipuladora, seu poder de destruição.

BONS MOMENTOS

“Praticamente em todos os lugares que visitei durante minha apuração, cobrindo déspotas, guerras e revoltas longínquas, ocorrências estranhas e excessivas se conectavam ás mídias sociais. Uma revolta repentina, um novo grupo extremista, a disseminação de crença em alguma conspiração bizarra… tudo tinha um ponto em comum. E embora os Estados Unidos ainda não tivessem explodido em violência, as semelhanças com o que estava acontecendo lá eram inegáveis. A cada semana havia uma nova pauta sobre uma conspiração no Twitter que dominara a política nacional…

“…em 2017 e 2018, porém, eles notaram que as postagens estavam crescendo nos matizes de ódio, conspiração e extremismo. E perceberam que quanto mais incendiária era a postagem, mais a plataforma a espalhava. Aquilo lhes pareceu um padrão que se desenrolava simultaneamente em dezenas de sociedades e idiomas que eram encarregados de supervisionar. 

“Os algoritmos e o design da plataforma moldavam propositalmente as experiências e os estímulos dos usuários e, portanto, os próprios usuários. Tais elementos são o cerne do produto, o motivo pelo qual centenas de programadores ficavam zanzando para lá e para cá enquanto estávamos conversando. Era como estar em uma fábrica de cigarros e seus executivos afirmarem que não entendiam por que as pessoas reclamavam dos impactos na saúde que as pequenas caixas de papelão que eles vendiam causavam. 

“… um boato repugnante vinha surgindo no Facebook, aparentemente de forma espontânea… estrangeiros misteriosos estavam sequestrando crianças para transformá-las em escravas sexuais e extrair seus órgãos…o boato se espalhou via Facebook e WhatsApp em uma região rural da Indonésia, por exemplo, nove vilarejos, independente um do outro, formaram turbas e atacaram inocentes que estavam ali de passagem. Era como se o boato fosse um vírus misterioso que transformava lugares normais em manadas sedentas de sangue, e como se aquilo emergisse da própria plataforma. 

“As gigantes das redes sociais se viram diante de audiências no Congresso, regulação estrangeira, multas multibilionárias e ameaças de dissolução forçada. Personalidades se referiam sistematicamente ás empresas como um dos maiores perigos do nosso tempo. Em resposta, as lideranças das empresas juraram enfrentar os males que advinham de seus serviços…Embora os problemas que elas prometessem resolver só se agravassem, as empresas ganhavam mais dinheiro do que nunca. 

“…o governo devia fazer um ataque preventivo, invadindo casas de muçulmanos e mesquitas — uma demanda comum da parte dos genocidas, cuja mensagem implícita é que cidadãos de bem devem fazer o que as autoridades não fazem. A postagem viralizou e dominou feeds pais afora. Usuários indignados embarcaram no entusiasmo, instigando uns aos outros a dizimar os vizinhos…

INSIGHTS

“…Os primeiros indicadores já vinham à tona em meados dos anos 2000, conforme o Vale do Silício começou a futricar em um hardware mais complexo do que qualquer semicondutor ou computador, a mente humana.

“… a manipulação está embutida nos produtos desde o princípio.

“…os sistemas do Facebook eram projetados de tal modo que levavam os usuários “cada vez mais a conteúdos de discórdia, de forma a conquistar a atenção e aumentar o tempo do usuário na plataforma“. 

“O ex-presidente Obama, em discurso em 2022 no coração do Vale do Silício, alertou que as mídias sociais estavam “turbinando impulsos que estão entre os piores da humanidade”.

“…Quase todo conteúdo relacionado a vacinação que lhe era recomendado era de antivacina. “A ferramenta de recomendação ficava impulsionando, impulsionando, impulsionando.

“O Facebook não vinha só satisfazendo os extremistas antivacina. Estava criando os extremistas.

“O raciocínio que usamos para construir esses aplicativos era só um: como conseguir o máximo possível de sua atenção e de seu tempo.

“Um dia depois, Biden disse que o Facebook estava “matando gente”.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.