Pré-leitura do livro A Fase Renovadora na Arte Cearense, de ESTRIGAS – por Osvaldo Euclides

O AUTOR

Estrigas (Nilo de Brito Firmeza – 1919 – 2014) formou-se em Odontologia, mas foi, principalmente, artista plástico, crítico de arte, escritor (escreveu vários livross obre arte, entre eles sobre Raimundo Cela, Antonio Bandeira, Chico Silva e Barrica) e criador de um mini-museu.

A PUBLICAÇÃO

O livro A Fase Renovadora na Arte Cearense, de autoria de Estrigas, foi lançado em 1983, pelas Edições UFC, com 112 páginas e 22 fotografias.

CIRCUNSTÂNCIAS

Os anos 1940 e 1950 foram especialmente ativos na cena cultural do Ceará. Nas artes plásticas, já em 1941, um grupo de pintores criava o Centro de Cultura de Belas Artes (CCBA), que foi ativo e produtivo, mas teve vida breve, durou três anos. Em 1944, o mesmo grupo de pintores. agora acrescido de novos, cria a SCAP (Sociedade Cearense de Artes Plásticas), com apoio também dos escritores do Grupo Clã (Centro de Literatura e Arte). Uma geracão de artistas plásticos deu seus primeiros passos nos cursos de desenho de uma das duas entidades, cresceu e brilhou com elas, ganhou reconhecimento da crítica, alçou voos nacionais e internacionais e conquistou o mercado. Essa movimentacão também valorzou artistas mais experientes, como Raimundo Cela e Gerson Faria.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Escritores jovens como Antonio Girão Barroso, Aluizio Medeiros, Artur Eduardo Benevides, Stênio Lopes, Otacílio Colares, Mozart Soriano Aderaldo, Eduardo Campos, Fran Martins, Ciro Colares e Jairo Bastos manifestaram diretamente ou na imprensa, sob a forma de discursos ou críticas , seu apoio à SCAP.

Jovens pintores como Aldemir Martins, Antonio Bandeira, Barrica, Hélio Rola, Mário Baratta, Sérvulo Esmeraldo, Zenon Barreto, Hermógenes, R, Campos, J. Fernandes, João Maria Siqueira, Raimundo Cela e Gerson Faria (estes dois mais experientes), além do próprio Estrigas e sua mulher Nice, entre outros, tiveram envolvimento direto com a Scap e participaram do movimento.

Estrigas relata o nascimento, crescimento e fim das das entidades e de seus desdobramentos, como o Salão de Abril, diretamente, e o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, indiretamente. E décadas depois pode-se bem medir os resultados e fazer comparações com o que acontece nos dias que correm.

O LIVRO

O livro está estruturado em três partes. Na primeira, Estrigas relata e documenta a formação das duas mais importantes entidades associativas no mundo das asrtes plásticas regionais, o Centro Cultural de Belas Artes (CCBA) e a SCAP (Sociedade Cearense de Artes Plásticas), seu desenvolvimento e declínio. Regisra que no início dos anos 1970, o jornalista Francisco Auto (que assinava crítica literária como Ernesto Guerra) liderou uma articulação para recuperar a união dos artistas e obteve resultados marcantes e animadores, visando resgatar a Scap. Na segunda parte do livro, o autor apresenta textos publicados e discursos de escritores e artistas sobre o contexto e eventos da época. E na terceira parte, Estrigas expõe fotografias históricas.

CURTAS

“Aos trinta dias do mês de junho, do ano de mil novecentos e quarenta e um, na sede do Centro Estudantal Cearense, à rua Floriano Peixoto, 133, às 19:30 h, com a presença de quase a totalidade dos pintores residentes em Fortaleza, realizou-se a sessão de fundação de um Centro de Cultura de Belas Artes (CCBA).”

“Um das melhores características do nosso grupo foi a personalidade. Nunca procurou modelos fora, nunca procurou imitar. Aceita as normas do modernismo sem procurar pintar à Salvador Dali ou Picasso.”

“O Ceará está vivendo, positivamente, um dos momentos mais intensos de sua existência. É o “Congresso da Poesia” revolucionando nossos meios culturais. É a “Semana Antinazista”. É a exposição de Morera, artista francês que está obtendo certo sucesso em nossa capital. É, finalmente, a instalação do “II Salão de Belas Artes”, uma tentativa arrojada de uma plêiade de novos pintores.”

“O Salão de Abril teve início em 1943. Foi uma iniciativa, e promoção, da União Estadual dos Estudantes, através dos seus diretores Raimundo Ivan de Oliveira (presidente), Aluízio Medeiros e Antonio Girão Barroso.”

“A 27 de agosto de 1944 é oficialmente fundada a SCAP (Sociedade Cearense de Artes Plásticas). Ela englobou o CCBA e, aos elementos deste, somou outros e contou com um número maior de escritores jovens e figuras de outros setores…”

“A sigla SCAO dominou tão fortemente que os próprios fundadores do CCBA quase que só se lembram da SCAP…”

BONS MOMENTOS

“…O primeiro quadro noturno pintado ao ar livre foi a Casa Bachá, situada na Praça Capistrano de Abreu, na rua General Bizerril, próximo ao Café Belas Artes. Supreendemos Chabloz sentado à beira da calçada arrodeado de gente, pintando um noturno, um lindo quadro.

Prédio antigo de dois andares, velha alvenaria colob=nial onde funcionava uma loja de miudezas; paredes descascadas e lodentas, fachada térea de cor azul desbotada, e no segundo pavimento duas varanf=das de ferro enferrujadas cravadas numa parede cinza muiti suja indicando ter sido pintada há meio século. Os dois andares, compreendendo o centro do prédio, dividiam grande letreiro o nome CASA BACHÁ; era exatamente o quadro de Chabloz, o mesmo colorido, a mesma velhice e até o combustor de gás na ponta da calçada…”

“…O modelo vivo era frequente todas as semanas, de preferência o nu; sempre teve uma mulata muito bonita e bem feita, que posava despida no centro do salão. Todos ficavam em redor dela de cavalete armado com tela ou papel de desenho. Lá ficávamos a tarde toda desenhando com carvão, que era o instrumento mais usado. Havia alguns que gostavam de aplicar a tinta, Inimá, carm´lio e Raimundo Campos. Acontece que a mulata desapareceu e ningueem soube o paradeiro dela. Arranjaram outra, uma alva, sempre encabulada, que era preciso a gente tirar a roupa dela à força, porém ela posou apenas duas vezes…”

“…Fatos que dão uma ideia perfeita de quem era Raimundo Cela. O primeiro ocorreu quando Cela já estava com seu atelierno foyer do Teatro José de Alencar. Eram cerca de oito horas da manhã quando ali cheguei, e já estavam o Prof. Mozart Solon e um senhor que era presidente do Banco da Borracha. Ele acabava de negociar com Cela duas bonitas telas. Fez o pagamento e saiu. Quando ele saiu, Cela passou a acariciar suas telas e as lágrimas rolavam de seus olhos. Olhou para mim de olhos marejados e disse, como se desculpando de um pecado: – Eu, se pudesse, não vendia meus quadros. Principalmente para o estrangeiro. Nunca mais verei essses trabalhos. É que estou precisando…”

“…Ele tinha certas singularidades. Não era um gênio, mas tinha muito talento e era bastante rigoroso consigo mesmo… O seu forte era a ironia. Tinha sempre uma resposta inteligente na ponta da língua. Lia em francês, escrevia poesias. Não suportava a mediocridade. Era uma presença constante na biblioteca dos amigos…O seu nariz de águia farejava raridades bibliográficas que contribuiam para seu convívio nos meios cultos tornar-se uma agradável porfia de questões que ele quase sempre vencia. Ele era, sobretudo, um excelente pintor e um grande desenhista. Chamava-se Gerson Faria…felicito-me pela primeira intervenção com que ele me distinguiu cortando uma tela que eu pintara até que restassem apenas poucos centímetros de seu tamanho original. Naquele retângulo umas ramagens curvavam-se sob a ação do vento, os tons da tarde mordiscavam a folhagem suspensa e esgarçada como um tecido velho. Um ligeiro grafismo insinuava o ritmo das hastes tenras que o vento vergara. Ali estava, segundo Gesrson, a sensibilidade inequívoca de um pintor…era o essencial…obrigado, mestre Gesron…”

“…O que faz a obra de arte, segundo penso, não é a cópia da realidade, porém, a interpretação da realidade por um temperamento criador. Este ponto de vista, aliás, já é lei, no que respeita a certa orientaçnao de vanguarda. Eu apenas a adoto…Certo que há muita gente que não pensa deste modo: a maioria talvez condene este critério de julgamento. Gente das que lidam bem de perto com assuntos artísticos não admitem num quadro ou numa peça de arte nada além do acadêmico frio e formal; coisas bem lambidinhas, bem comportadazinhas, bem parecidinhas e sobretudo bem coloridinhas e bem bonitinhas…”

“…Mário Baratta: eis um homem curiosíssimo, capaz de todas as experiências e todas as mágicas. Ele é bem um ilusionista, sem nenhuma maldade, mas muito pelo contrário, de uma inocência pura…O maior mérito desse pintor, poreem, é o de saber revolucionar o ambiente em que vive. Baratta é nervos e, onde se mete, não admite ausência de movimento. A primeira coisa que fez, e uma das maiores, ao dedicar-se à pintura, foi ressucitar o mestre Raimundo Cela, que vivia, então, anônimo, desconhecido em Fortaleza…Se com o mestre assim o fez, não menos trabalho devotou aos novos …”

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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