O AUTOR
Mailson Furtado, nascido em 1991, é escritor, além de diretor e ator de teatro e produtor cultural. Ganhou em 2018 o Prêmio Jabuti de Literatura. Tem também formação superior em Odontologia.
A PUBLICAÇÃO
O livro “À Cidade”, de autoria de Mailson Furtado, foi lançado em 2018, em edição do autor, com 72 páginas. Posfácio de Dércio Braúna. De forma inédita, ganhou o Jabuti em duas categorias no mesmo ano (livro do ano e poesia).
CIRCUNSTÂNCIAS
Mailson Furtado toma sua cidade e, com seus versos, ora particularmente fortes, ora profundamente delicados, faz dela uma cidade única e ao mesmo tempo faz insinuações comuns a toda e qualquer cidade do sertão nordestino. O leitor só se localiza pelos rios que rasgam as terras, expostos num mapa ilustrativo que tudo esclarece. De forma breve e cirúrgica, o autor expõe alma, pulsação e memórias, usando mais palavras de poucas sílabas e, assim, define um tom de leitura cheio de musicalidade, cujo ritmo ele administra como quer. É como se o autor, feito um maestro, “tocasse” e a poesia andasse, corresse ou dançasse.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Mailson Furtado homenageia a sua cidade com um poema. E o faz com originalidade, leveza e beleza. A dupla e prestigiosa premiação (Jabuti) era devida e merecida, entretanto, ela potencializou o interesse pela obra. Essa poesia precisa ser conhecida e reconhecida, leitura mais que recomendada, literatura do mais alto nível.
O LIVRO
O livro-poema se estrutura em quatro tempos: presente, pretérito, pretérito-mais-que-perfeito e futuro do pretérito.
Todos os elementos de uma cidade lá estão. A natureza participa, os rios rasgam o tempo, o tempo marca as pessoas de todas as idades, o olhar de um cachorro manda mensagem capaz de provocar emoção…
A cidade pulsa e participa. Os versos, livres, leves e soltos, desobedecem tradições, dispensam pontuação e, como sinos, ou relógios, marcam as horas, e as ruas e ruelas fazem política. Não, a rua não é passiva, ela se envolve, até pode se comportar como uma anarquia ou como uma ditadura…
CURTAS
“… a cidade parece cansada
as ruas parecem cansadas
a vida parece cansada
eu mesmo me pareço
cansado
“… são seis horas
mamãe se benze
o poste acende
é noite
“… na bodega
o fuxico ainda é
sobre o sol
aquele mesmo
“… cervejas picolés
sinuca sorrisos
filhos mulher
mulheres
“… O sábado à noite
não se define
não é dia
não é noite
“Tarda à tarde
eu tardo
a ser
mas a cidade é
“da cidade
eu não lembro
são duas a cada ano
uma verde
outra cinza
BONS MOMENTOS
“Tarde
tarda
alarme
que fala
que arde
que geme
de tarde
que fica
cidade
cidade
em meio a tua carne
te rasgo
e te penetro teu âmago
por entre veias
e ruelas…
“Anoitece
tudo sai
os meninos
os cachorros
as pessoas
os mosquitos
as casas não
as casas
ficam
anoitecem
cochilam
se permeiam dentro de si
se emburacam à noite
alicerce adentro
e se solidarizam com a solidão…
““… há passeio na praça
sorvete pipoca
meninas na praça
há o menino que fui
há o poema na praça
há o sábado
há o que se procura
sempre há…
“… segue
a rua segue
de trás pra frente
sem sentido
sem norte ou sul
a rua se acaba
nela mesmo
é uma
somente
não precisa ser mais ninguém
e não é…
“… com sangue branco
com sangue urucum
com sangue negro
com sangue pau-brasil
o rio inventou
e foi inventado
por pingos
grotas
riachos
por nada
se inventou
rasgou o sertão
pela primeira vez…
“… nada pode ser
mais democrático
mais ditador
mais comunista
mais anárquico
que a rua
nada pode ser
meu pai inventou uma…