Pré-leitura do livro “028 – Antonio Bezerra, Papicu e outras histórias“, de Alexandre Valério Ferreira

O AUTOR

Alexandre Valério Ferreira é cearense, tem 32 anos e formação superior em Engenharia e Jornalismo. É fotógrafo e Designer Gráfico.

A PUBLICAÇÃO

O livro “028 – Antonio Bezerra, Papicu e outras histórias”, de autoria de Alexandre Valério Ferreira, edição do autor, com 253 páginas, foi lançado em 2021.

CIRCUNSTÂNCIAS

A linha de ônibus 028, que interliga os terminais de integração Antonio Bezerra e Papicu, foi escolhida como objeto de um trabalho de conclusão de curso, na forma de livro-reportagem. O autor fez uma extensa e profunda pesquisa, a ela dedicando tempo, atenção e o que parece ser uma vocação especial para o jornalismo vizinho da literatura.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

“028” é o livro de estreia de Alexandre Valério. O autor cuidou pessoalmente de todos os aspectos do livro — ilustração, fotografia, capa, diagramação e revisão. O texto é substantivo, dinâmico, e causa um efeito trepidante, com muitas curvas, lombadas, aclives e declives a surpreender o leitor e reter a leitura.

A simplicidade e ligeireza com que cada personagem é apresentada não lhes tira a força. O tempo inteiro o texto faz lembrar que numa viagem deste tipo tudo é passageiro.

O resultado literário tem qualidade, é marcante, mas o brilho da obra está na dimensão jornalística. O jovem autor demonstra um fôlego raro até em profissionais de longo curso. Pensado como uma pauta, o livro é uma lição. Como uma reportagem, um exemplo de valor.

Um dia inteiro, uma cidade inteira, uma população inteira, um setor econômico inteiro, está tudo lá em cada linha do livro, aqui e ali sutilmente temperados (os fatos, os números, as rotinas, os processos, os diálogos) com comentários breves do autor. O livro faz do ônibus um mundo.

O LIVRO

O livro está estruturado em três grandes blocos. O primeiro é destinado ao ônibus. O segundo é sobre o passageiro. O terceiro trata do terminal. Os três juntos são divididos em 15 sessões (ou temas). Como encarte o leitor recebe uma peça gráfica que contém ilustração de toda a faixa da cidade de Fortaleza coberta pelo trajeto da linha 028 Antonio Bezerra – Papicu.

O leitor encontrará uma super reportagem jornalística que permite, por causa do estilo do autor e das características de seu texto, um percurso de leitura leve, agradável, didática e bem ilustrada. Uma viagem de qualidade.

CURTAS (INSIGHTS)

“Essa é a BOA, jargão dos motoristas para a última viagem do dia.

“É a rotina do dia a dia. Mesmo passageiro. Ás vezes, no final do ano dão presente. Tem que se colocar no lugar do outro. Tem que sentir eles. Principalmente quando se trata de um cadeirante.

“O camarada se chateia cada vez mais. Eles começam a ter muitas doenças. Pressão alta, comportamento agressivo, estresse, podendo prejudicar tanto a vida dele como a dos passageiros.

“Tudo é passageiro, menos o motorista.

“Todo trabalho é digno. Tudo é digno. Tem que fazer, então faz. É isso. Fui assaltado 10 vezes como cobrador. Nove com faca e uma vez com revólver. Nunca pensei em desistir.

“Vida de passageiro não é fácil.

BONS MOMENTOS (IDEIAS CENTRAIS)

“Eu estava no ônibus vendendo e uma senhora falou assim — “Ah, se você casar comigo não precisa mais vender bombom não. Você vai se preocupar só com seus estudos“. Eu ri, mas fiquei com muita vergonha. Acho que essa foi a situação mais engraçada que eu tive. Mas, a situação que eu saí do ônibus chorando, entendeu, mas foi de felicidade, foi ano passado mais ou menos. A moça comprou uma paçoquinha e ela disse “Toma“. Ela tinha me dado R$50,00. “Não, moça, eu não tenho troco“, e ela, “é seu. Eu tô dando pra você, mas só pedir uma coisa — me dá mais uma paçoquinha“. Eu saí do ônibus e comecei a chorar de felicidade. Eu lembro desses momentos com muito carinho. Sou muito grato aos ônibus.

“Na linha 028, nós também temos vizinhos. Todavia, eles são de natureza efêmera. São passageiros. Eles existem durante alguns minutos, entre uma cadeira e um corredor, na disputa das filas de espera, no empurra-empurra da catraca, na ocupação irregular da área interna do ônibus, entre dezenas de tênis, chinelos, sandálias, sapatos, sapatilhas, tamancos, Havaianas, sacolas, mochilas, chapéus, bonés, perucas etc. Tão logo o conhecemos, ele desaparece. É um vizinho ambulante.

“Pense numa linha para ter vendedor ambulante. Da última vez que peguei, subiu três direto no Papicu. Eu não tenho nada contra, mas gosto do meu sossego. O que mais me incomoda não é a galera que vende, é a galera religiosa que vai pregar dentro do ônibus. Tenho vontade de descer. Tipo, a pessoa que tá no coletivo e se torna obrigada a ouvir. Se ela quisesse ouvir aquilo, ela estava na igreja ou qualquer outro lugar próprio a isso. Cada um tem sua religião. Você não deve tá falando isso em qualquer lugar. Deviam respeitar isso também.

“Vitória tem 18 anos e nasceu em Fortaleza. Morou 12 anos com a avó e, depois do falecimento desta, foi viver com os pais, em Caucaia. A jovem possui duas peculiaridades. Primeiro, ela é busóloga (apaixonada por ônibus). O hobby costuma ser mal visto em uma sociedade que idolatra o veículo individual como símbolo de sucesso. Além disso, ela é uma “mulher busóloga“. A atividade é praticada essencialmente por homens.

“Nas últimas décadas, os passageiros de ônibus começaram a desaparecer. Segundo dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), de 1994 a 2012, a redução da demanda foi de 24,4 por cento. O processo continuou piorando. Entre 2013 e 2017, a diminuição foi de 25,9 por cento. Só de 2018 a 2019, cerca de 12,5 milhões de brasileiros deixaram de usar o ônibus urbano. Foi uma redução de 4,3 por cento em relação a 2017.

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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