Praças e Praças – por LUANA MONTEIRO

Muitas praças a vivenciar em Fortaleza. Na minha imaginação recrio todas elas. Sempre tenho meus palpites, mas no caso das praças meu olhar vai além do crivo do “bom gosto”.

Conheci uma cidade maravilhosa, famosa na América por seus belos espaços arborizados e destinados a períodos menos acelerados da vida, as praças e parques. A cada esquina, Buenos Aires me surpreendia com aquele estranho ar de contradição: ao olhar para um lado via uma avenida com o movimento frenético dos indivíduos sérios e ocupados com o trabalho; do outro, a calma – aparentemente estática – vivência das árvores.

Lá, estudantes se punham a colocar suas matérias em dia; senhoras e senhores caminhavam ao ar livre; mães e bebês repunham suas vitaminas com a cotidiana exposição ao sol; grupos de pessoas esticavam seus corpos com o exercício da yoga e do Feng Shui, entre outras práticas. Nos espaços das diversas praças, via-se também a ressignificação que os indivíduos faziam, como se fossem uma extensão da própria casa.

Essa vivência me deixou encantada, pois realmente estava mais próxima daquilo que eu idealizava como o que se fazia em áreas amplas, arborizadas, vivas, cheias de verde e bem cuidadas diariamente. Pela manhã e pela tarde, era possível ver os funcionários fazendo a manutenção desses espaços.

Como moradora da periferia de Fortaleza, não experiencio vivências assim. São escassos os territórios comuns voltados para o lazer da classe trabalhadora. Eles até existem, mas, usualmente, ganham uma funcionalidade “produtiva”, ou são deixados em completo abandono.

No meu bairro e na minha cidade, posso dizer que não aprecio os espaços ao ar livre para me exercitar, pegar sol, estudar ou só aproveitar alguns momentos. Mas não deixo de ter minhas próprias experiências e vivências nas praças públicas.

De Fortaleza guardo, em especial, as imagens das praças do centro da cidade. Acho que existe um certo saudosismo comum aos moradores e passantes – ou talvez seja mero espelhamento da minha própria forma de olhar para o passado – em relação ao centro da cidade.

As praças do centro de Fortaleza, para mim, sempre foram lugar de trânsito constante de pessoas, uma expressão da vida comercial. Na verdade, cada horário do dia nos retrata uma nova função àqueles espaços. A mais clássica de todas não poderia deixar de ser a Praça do Ferreira, que no período da belle époque fortalezense figurava como lugar de distinção social.

Lá, nos dias atuais, seu público muda de acordo com o horário. Podemos afirmar: nossa praça é viva! Porque tem sua dinâmica própria. Pela manhã, vemos os indivíduos se deslocando em passos rápidos até seus trabalhos. No horário do almoço, os bancos fazem as vezes de lugar de descanso. Parece que o tempo se alonga um tanto além do normal e as pessoas se permitem ter mais calma. Sentam-se e trocam algumas palavras.

No final da tarde, quando a brisa ganha mais força e a luz do sol se faz mais branda, a praça vivencia um ritmo ainda mais calmo, um pouco da lentidão do caminhar e da fala dos senhores que passam a ocupar os bancos pode ser sentida naquela atmosfera. As lojas ainda não estão fechadas, o sol não se pôs por completo, mas naquele nicho alguns indivíduos desfrutam do prazer de simplesmente observar o tempo passar.

Quando já não há mais compradores e vendedores, nem mesmo os apreciadores do cotidiano, é a vez do moradores de rua, catadores, pedintes, flanelinhas, prostitutas, vendedores, desabrigados… os corpos invisíveis (ou seria melhor chamá-los de invisibilizados?) procurarem seus bancos e encerrarem também seus dias de trabalho.

A praça é viva. Para mim, ela é espaço de lazer, mas principalmente de trabalho e de luta, de ocupação, de manifestação, de mobilização e de denúncia.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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