Praça do Ferreira: O Coração de Fortaleza – Fátima Teles

 

A Praça do Ferreira se configura como um dos belos cartões postais da Cidade. Pela Praça do Ferreira passam milhares de pessoas diariamente. Umas vêm, outras vão, umas sentam, outras correm, umas cantam e outras dormem,  e nesse vai e vem todas são iguais em sonhos, esperanças, dores e lutas. Tudo isso eu pude ver porque estava de férias e tornei-me mais uma caminhante da Praça.

Coisa boa são férias. Andar sem pressa, sem esbarrar em ninguém devido ao cuidado das horas. Acordar sem o despertador e poder sentar-se nas Praças para ver o pôr do Sol, o diálogo das pessoas com as Praças.
Estou de férias e hoje é sexta-feira. Um dia que deveria ser decretado feriado em dias de trabalho. A sexta-feira em si já tem a cara da boemia, das Praças, dos calçadões, do Chopp, da poesia, da arte, das feiras populares. A sexta-feira tem o cheiro do mar e do mato, das caminhadas nas serras e dos barcos que embalam os rios. Tem cheiro de café, beijo na boca e muitos, muitos abraços.

Entro na pastelaria Leão do Sul e peço um tradicional pastel de carne e um delicioso caldo de cana. Converso um pouco com os antigos e assíduos fregueses e dou boas gargalhadas. Depois sento-me na Praça do Ferreira e observo as pessoas que vêm e vão. Crianças circulam brincando e degustando pirulitos. Outras ainda passam com pequenas caixas vendendo pirulitos. Ali, em segundos, já pude analisar a forte desigualdade econômica de Fortaleza.

Idosos conversam com amigos idosos e esquecem de dar atenção ao imponente relógio da Praça, que lembra sempre o tempo às pessoas que ali circundam.

Sentada eu me ponho a analisar o quão a vida é passageira e como tudo que nela está também segue o mesmo curso. Há quase um Século e meio havia aqui na Praça do Ferreira, num de seus cantos, a Padaria Espiritual, uma agremiação de intelectuais que avivaram a Literatura em Fortaleza, chegando a ficarem conhecidos no Brasil com a implantação de um jornal literário dominical. Fizeram História e foram inspiração para o Ceará e o País. No entanto, passaram. Todos nós passaremos.

Deixo a minha imaginação solta e vejo homens e mulheres caminhando pela Praça. Quantos lembram da existência da Padaria Espiritual? Quantos ao menos ouviram falar? E aqueles idosos? Será que algum provou do pão de letras? Do pão impresso?
Tudo passa.

Nós Cearenses temos uma forte característica de não preservar a memória e os Patrimônios Culturais. Somos um povo por demais progressista. O luxo da aldeia.

Lembrei-me do Poeta Mário Jorge, o andarilho da Praça do Ferreira. Sua poesia ficou, mas ele também passou. Mário caminhou pelas ruas do Centro, pelo calçadão da Praça, recitou, declamou, debateu e zombou. Quem importou-se? Quem recorda e lhe homenageia? Quem compreendeu a solidão, a filosofia do Poeta? Mário passou. Ficou para nós o cântico da gratidão: “Obrigado, Vida!”, e a reflexão sobre a nossa casa ou onde moramos: “A gente mora dentro de si, rapaz”.

Levantei-me e pus-me a caminhar sem olhar para o relógio. Estou de férias na Capital e sou filha do interior. Sou mais uma no meio da multidão e isso me faz livre. Caminho…

Maria de Fátima Araújo Teles

Maria de Fátima Araújo Teles

Historiadora, Assistente Social,Pedagoga Especialista em Direitos Humanos e Psicopedagogia Institucional Professora Formadora da Área de Ciências Humanas do Ensino Fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Brejo Santo Escritora e Poeta Membro da Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará

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