Post Tenebras Lux: E o sonho como elemento da própria realidade

O cinema que se volta para dentro de si mesmo corre o iminente risco de ser visto e interpretado como um exercício difuso. Mas o que resguarda o impulso da realização em audiovisual de equívocos dessa natureza é a consciência do realizador no processo o qual ele desenvolve. Porque a direção pode e deve ser mais do que um cargo a se ocupar. Ela não é um gesto gerencial, e sim, uma oportunidade de o artista exprimir seu olhar sob e para o mundo.

Depois de 15 anos vivendo na Europa, o diretor Carlos Reygadas volta para o México e começa a trabalhar naquele que seria seu quarto longa metragem. Assim surge o arrebatador Post Tenebras Lux (2012). O filme, que como título possui a tradução literal de “Luz Depois das Trevas”, conta a estória de Juan, um homem marcado por um comportamento ambíguo ditado pelo descontrole no temperamento, e sua família, que juntos decidem ir viver numa zona rural da atual sociedade mexicana.

Dar início à reflexão sobre a obra a partir da sua montagem nos parece lógico. A estrutura do longa não obedece uma linha capitular, entretanto, a disposição das cenas nos evoca uma espécie de costura sequencial onde os planos sutilmente independem entre si. Nesse ponto, a influência dos trabalhos de Tarkovsky e Nuri Bilge Celyan se tornam muito evidentes no fazer deste realizador mexicano. Do prólogo ao epílogo, nosso longa é a mais polida apresentação da cinematografia do fluxo.

Porque não interessa se nos oito primeiros minutos de projeção inexista uma representação padronizada daquilo o que o cinema apresenta como uma narrativa tradicional. Esqueça a ordem dos takes, as falas e ações marcadas. Aqui, temos apenas a pequena Ruth Reygadas correndo num vasto campo úmido em meio à vacas, cachorros e cavalos. Um prólogo que nada explica sobre os planos a seguir, mas que ao mesmo tempo é uma parte essencial para o todo que a obra é.

Uma vez que Reygadas lida e aporta no seu trabalho apenas os cortes que o dotem de de sentido. Por mais denso que esse bloco fílmico possa nos vir a ser. Afinal, o que seria essa criança sorridentemente correndo livre, para nós que a olhamos? E para o pai da garotinha, o prório realizador que a capta tão naturalmente?! Certamente o são distintas formas da percepção da imagem. Em seus níveis afetivos e das descobertas de novos modos de recepção dessas imagens.

Esses conceitos estão alinhados a uma proposta de um cinema emancipado, seja para aquele que recebe; seja para quem o executa. Ao público, vê-se a oportunidade pouco usual onde ao espectador é permitida criar o próprio sentido do filme. E isso se dá, entre outras coisas, pelo olhar. Já que é olhando para as imagens que a direção, em parceria com a impressionante fotografia de Alexis Zabe, propõe à parcela espectatorial.

As camadas quer o filme assume extrapolam e, na verdade, desconsideram a questão do risco em torno do que é ou não aceito em termos de realização. o que nos fica evidente é independência na aplicação da linguagem e em como seu uso se propõe a potencializar a experiência daquele que vê. Afinal, para enxergarmos efetivamente o que as imagens provocam, nossa forma de olhar para nosso próprio mundo tem de ser expandida.

Se um demônio fluorescente entra lentamente casa adentro, portando uma maleta e conferindo cômodo a cômodo o que a residência possui, ele não necessariamente tem de sair aterrorizando a todos. Esse monstro sequer pode ser um mensageiro do terror. E essa é a perspectiva que Reygadas nos oferta. Porque aquilo o que denotaríamos como o “mal”, pode dano algum nos causar. E o medo nos passa a ser apenas um estado de consciência em torno daquilo o que desconhecemos.

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O demônio fluorescente de Reygadas como uma metáfora dos medos, mas que não necessariamente nos são uma ameaça.

Assim, a filosofia e referências  de um mundo que se permite ser outro, é o que coloca Post Tenebras Lux. E a imagem “limada” na tela não se trata de erros conceituais ou manchas que entraram desmedidamente.É o sonho como proposição concreta do cinema afirmativo, revigorante e original. O som que emerge da obra é construído de dentro e internamente  nos lembra como a organicidade contida no exercício é uma vivência libertadora. E a expansão das arestas do nosso estar perceptivo se abre diante dos nossos próprios olhos. Basta olharmos!

FICHA TÉCNICA
Título Original: Post Tenebras Lux

Gênero: Drama, Fantasia

Tempo de duração: 119 minutos

Ano de lançamento (México): 2012

Direção: Carlos Reygadas

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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