POR UM PROJETO DE CONSTRUÇÃO NACIONAL

“Não punir o povo, mas trazê-lo para uma nova união”,
Abraham Lincoln

(Texto escrito logo após o fim da guerra civil americana).

Momentos decisivos na vida de uma nação encontraram, sempre, a palavra de um líder, a atenção e o respeito do povo.

Quando as divisões políticas estremecem a unidade de um país, ampliam as lutas internas e opõem os partidos, rompidos pelas confrontações das suas lideranças, surgem como por milagre as palavras tranquilizadoras das pessoas sensatas e dos homens e mulheres públicos.

Foi assim com Lincoln no episódio da escravatura na América. A contraposição entre grupos influentes de um mesmo partido chegou a tal ponto que a muitos parecia inviabilizar a formação de uma nação e do próprio país. Lincoln encarnou, em um momento particularmente importante da jovem nação americana, a voz sensata da unificação e do fim da escravidão. A longa duração de um conflito que levaria à divisão dos americanos, por décadas, despertava o temor de que a unidade do país em formação estivesse comprometida.

Lincoln soube conduzir a batalha e as campanhas guerreiras com a sua autoridade e pôde assegurar que a unidade política e territorial dos Estados Unidos, ao contrário de grande parte dos países das Américas, fosse preservada.

José Bonifácio tinha entre os Alcântaras, ao Sul do Rio Grande, a quem pretendia ensinar as artes do governo, a consciência dos desafios trazidos pelas hesitações de uma Corte insegura e desvalida de propósitos. Em um largo período da nossa história, tivemos três personagens marcante, talvez mais alguns outros pudessem ser acrescentados. Estadistas, foram
Bonifácio, Rio Branco e Nabuco.

Os anos 800 foram um período rico no plano da política, na formação dos estados nacionais, na Europa e na América do Norte. A unificação de Estados, a fixação de fronteiras territoriais e a formação das grandes potências estendem-se por todo o século XX.

No Brasil, a passagem de uma monarquia imponderável para uma república em construção permanente, abriu espaço tão longo que não conseguimos encerrá-lo, até hoje. Engendramos a quebra da normalidade política no âmbito do Estado, a que demos o indicativo “golpe”, espécie de intervenção cirúrgica realizada nas instituições e nos mecanismos democráticos de governo.

“Golpe” trouxe a república, na postura equestre de Deodoro. Dois golpes armaram o Estado Novo e “1964”. Dois “impeachments” (Collor e Dilma) resultaram de uma intervenção “constitucional”.

Faltava-nos a consolidação de um “inimigo interno”. No passado, eram os comunistas de 1935 e os Integralistas. Dêmo-nos um de maior expressão emocional e lhes atribuímos o terrorismo de uma direita “radical”.

“8 de janeiro” teria sido o “golpe” de uma insurgência interna, com um potencial de risco presumido a demandar medidas corretivas.

Mas não é o que a Nação precisa para impor-se como uma sociedade de homens livres e democrática. Medidas penalizadoras e autoritárias e a criação de uma classe de “marginais” da vida política brasileira não haverá de contribuir para a cessação de conflitos que ganham uma trágica projeção ideológica.

A clivagem entre direita e esquerda favorece, no Congresso, as manobras de um grupo de parlamentares que se apresenta como “terceira-via”. E com esse golpe bem formulado induzem a pensar que eles são o instrumento legítimo da democracia. No âmbito da aparelhagem da justiça, fortalece-se a impressão de que os conflitos de opinião devam ser resolvidos com medidas enérgicas e não pela celebração de uma grande união nacional.

O País está dividido pelas falsas presunções de acusação e culpa. Somadas ao vazio da nossa consciência política — de eleitores e dos que elegemos e lhes damos representação e mandato — a educação surge como causa próxima e distante da fragilidade da nossa cidadania.

Falta ao Brasil, neste momento de graves incertezas, a firmeza de lideranças capazes para apontar o caminho das convergências.

Afinal, com tantos atrasos contabilizados na nossa história, somos uma nação em construção. Por quanto tempo ainda?

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.