Poesias e protopoemas de Pêdo de Lara, por Pedro Henrique

[fim da tarde]

tem pirâmide não,

bem,

tem prédio;

alto quiçó.

tão retângulo,

tão pastel;

mas tem o céu,

bonito quiçó.

o céu é azul,

é laranja,

branco cinza lilás.

tava tão radiante

o fim da tarde;

nem vi a noite chegar.

[mimimi]

i

estilhaço de bomba

no coração

insurgente.

urgente foi o dia

que te disse

não.

hoje nenhum trago

resolve

o que trago no peito.

amarga e sincera

é a companhia

da solidão.

ii

duas palavras

ou mesmo três

nenhuma.

fico mudo

observo o xêro

lembrança.

hoje choro

parede-branca do muro

criança.

tenho muita

saudade no peito

alguma.

iii

menino danado

um dia se estrepa

cutuca

cutuca

abre a ferida

até sair pus.

cupido de flecha

atira

machuca

abre ferida

no coração dx meninx.

menino danado

mãe manda logo

pra casa.

quando crescido

dá de cupido

atira

acerta

machuca

cutuca cutuca

volta chorando pra casa.

[tios-avós]

profissão de santo

não é

tarefa fácil.

velhice é mal

que ataca

sem perdão.

dois velhos

moravam sozinhos

numa casa;

na outra, vazio

– irmãs partiram

primeiro.

o mais velho

não se aguentava

mais só;

o outro, delírio.

certo dia

iluminado

mandou que arrumassem

o piso

da outra casa.

a família não entendeu.

o velho não

aceitava ninguém:

tio, sobrinho, vizinhos

não podiam

morar ali.

quem pode

saber as dores

do velho

camponês

casto

aspirante a santo?

pra alívio

da família

o velho disse por quê:

estava esperando

uma princesa.

quem?

maria, amor de infância?

rosinha, delírio recente?

não.

antes fosse.

o velho arrumava

a casa

pra visita

da

morte.

[pé de macaxeira]

seis pé

de macaxeira

plantou –

porque cansou

de sementar

destruição

pra ter que colher

depois

ruína.

terra dura

seca

sem jeito.

“sobrinho doido”,

ti disse,

“plantou no seco,

num vinga

não”.

nem foi

no terceiro dia,

mas certo dia

amanheceu

dolorido

o coração –

amor plantado,

muito mal

cuidado,

que a praga

arrasou.

amanheceu

chorando tanto

que o céu

em pranto

fez sinal

de chuva –

água que escorre

molhando

a terra

lavando

a alma.

“sobrinho teimoso”,

ti disse,

“agora vinga”.

[srª estranheza]

certo dia

bateu-lhe

à porta

uma senhora

– estranha.

sem pedir

licença

entrou

sentou-se
à distância

fitou-lhe

nos olhos.

tomou

seu chá

da tarde

resolveu

passar

a noite

a semana o mês

– nunca mais

foi embora.

[mãe]

nem viu

o que fez

infeliz.

mãe quase

nunca tem sorte

mesmo:

filho pródigo

que nunca saiu;

filho-bom

que partiu.

o primeiro quase

viveu.

o segundo

dia desse morreu

– tédio.

na farmácia

não tem remédio

não.

não tem

o que alivie

a-dor

que só

mãe sente no

peito

– faca que

corta n’alma

punhal.

[nem viu

quanto que fez

feliz]

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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