Poesia da memória e do presente – PEDRO HENRIQUE

É difícil não sustentar a intuição aterradora de que o estado de exceção permanece, como sempre, sendo a regra; é difícil não perceber a história como catástrofe, como um amontoado de atrocidades do “homem” contra seu semelhante e dessemelhante. Como diz Benjamin: “todo monumento de cultura é um monumento de barbárie”.

Podemos pensar isso do ponto de vista da “violência simbólica” (como diz Žižek no leito de Lacan), no sentido de entrada na linguagem, participação nela; não há como sublimar, subjetivar sem introjetar a repressão, a limitação (im)posta pelo real, seja ele a natureza ou a cultura. Mas estamos tratando, aqui, principalmente da “violência objetiva”, social – não que o poder não se sustente com base na articulação de uma linguagem.

Benjamin chega a sustentar que não existem períodos decadentes (Primeiros Esboços); Nietzsche anuncia como decadente a tradição ocidental (Platonismo, Cristianismo, Progresso), incapaz de afirmar a vida nela mesma, sem recorrer à transcendência ou ao futuro, a um fundamento último que daria, enfim, à finitude humana um conforto existencial.

Talvez estejamos novamente diante de uma melancolia histórica, do anjo melancólico da história. Talvez se trate agora apenas de perceber, não somente intuir, como tanto a realidade quanto a literatura de Beckett ou Rubem Fonseca se apresentam como expressão da barbárie (o esvaziamento e a violência) anunciada já numa máxima de Marx: “A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”.

Isso significa dizer que a pulsão econômica, determinando abstratamente a partir do critério da valorização do valor/capital todo uso e concretude possível, tende ao decrescimento do caráter qualitativo do mundo e da experiência, como constatamos em Benjamin e Debord (declínio das narrativas e do valor de uso), culminando, quem sabe, no diagnóstico de Cristopher Lasch (A cultura do narcisismo): o de que o sintoma subjetivo, cultural contemporâneo é o decrescimento das expectativas, portanto, um refluxo pessimista do progresso.

Isso deve ter seu nó no problema do narcisismo, tratado pelo próprio Lasch, pois este é justamente a incapacidade de diferenciar-se, pela sublimação, do mundo exterior, contrapondo-se a ele; diagnóstico próximo à “dessublimação repressiva” – dita por Marcuse em O homem unidimensional –, à domesticação da subjetividade e de sua capacidade (pre)figuradora de possibilidades outras pelo princípio de prazer, pela imediatez do gozo mercadológico.

Tudo isso porque no reino do mesmo deve haver algo que seja específico do nosso tempo e já não pode ser adiado. A resposta teológico-política para essa noite escura do tempo histórico tem de ser à pergunta: o que resta? Todo resto traz consigo um teor messiânico (resto social, no caso), dado na lembrança, e se encontra no anônimo, no não dito, no que não foi expresso e afirmado, o que permaneceu potência, aquilo que poderia ter sido e não foi, mas deixou um apelo.

Em um tempo no qual a afirmação do trabalho já não consegue mobilizar uma mudança nas estruturas da sociedade, talvez reste algo no “qualquer” (Agamben), no que ficou fora do enquadramento, naquilo que foi posto fora, mas que permaneceu dentro, enquanto fora. Enfim, não é possível responder a essa pergunta nos moldes da política ideológica, da vanguarda, da disputa pela verdade que há de mobilizar as massas, mas talvez algo como cuidado, como palhaçaria, como cultivo, como uso livre da palavra e do tempo, como resgate dos saberes da tradição, resgate dos artefatos culturais (Kurz) em sua relação com o que há de potente no presente, um reencontro não reificado de ser humano e natureza, do passado com o presente.

A potência de vida como uma poesia incatalogável, pois peregrina, retirante, contadora de histórias, a poesia da memória e do presente.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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