POEMETO A PATATIVA DO ASSARÉ

No dia em que todo o humano sertão soleniza
O fato que há vinte anos tanto o entristeceu
E que na memória comum a saudade eterniza –
A canora voz do poeta compassivo emudeceu –,
Valho-me de coletânea de poemetos tão meus
Para, com a simplicidade de seus singelos versos,
Reverenciar a “voz do povo” que se elevou a Deus.
Ora me emociono, me sensibilizo, me enterneço.

COLETÂNEA DE POEMETOS

POEMETO À HUXLEY
“Não se pode esperar que brotem flores
[Olorosas] em um vácuo bem limpinho.
Elas precisam de humo e terra e esterco.
Assim é a arte. [Não há outro caminho].
(Aldous Huxley, em Contraponto).

POEMETO DO VERDADEIRO AMOR
O amor em nada se mostra exigente.
Nada requer. Nada impõe. Nada reclama.
Desvanece, porém, se se percebe inconsequente.

MALEFÍCIO DO PENSAR
Se pensam com o raciocínio, distraem-se.
Se pensam com a emoção, dormem.
Se pensam com a vontade, fenecem.
Se pensam com a imaginação, reduzem-se.
(Fernando Pessoa ou Bernardo Soares, em Livro do desassossego).

POEMETO À MONTAIGNE
“O que nossa alma engendra,
O que nasce de nosso espírito,
De nossa coragem,
De nossa capacidade,
Provém da parte mais nobre
Do nosso corpo
E são mais nós mesmos
Do que os nossos filhos,
Pois são, a um tempo, pai e mãe.”
(Michel de Montaigne, em Ensaios).

POEMETO À MANN
“A morte
Como potência espiritual independente
É sumamente devassa…
A única maneira religiosa de encarar
A morte
É compreendê-la e senti-la como uma parte,
Como um complemento,
Como uma condição inviolável
Da vida.”
(Thomas Mann, em A montanha mágica).

POEMETO À HARARI
“Ao longo de nossa estada
Infinitesimalmente breve
No minúsculo cisco que é
O planeta [Terra-teatro]
Nós nos pavoneamos
E agitamos [há quem nos louve?!]
Durante uma hora no palco
E, depois, nada mais se ouve.”
(Yuval Noah Harari, em Homo deus – Uma breve história do amanhã).

POEMETO À NERUDA
“Aqui não,
Aqui a paz chegou até a pedra…
Os escultores se rebelaram
Contra os cânones da dor,
E estes Budas colossais,
Com pés de deuses gigantes,
Têm no rosto um sorriso de pedra,
Que é sossegadamente humano,
Sem tanto sofrimento…”
(Pablo Neruda, em Confesso que vivi).

POEMETO DO ARREPENDIMENTO
Cada um de nós – isto é certo! –
Responderá pelo bem que não haja feito…
Não se pode dizer: Já não há mais jeito!
Ainda tempo temos para o conserto…

POEMETO À NERUDA
“Persigo algumas palavras…
São tão belas… Agarro-as no voo…
Capturo-as, limpo-as, aparo-as,
Preparo-me diante do prato,
Sinto-as cristalinas, vibrantes,
Ebúrneas, vegetais, oleosas,
Como frutas, como ágatas,
Como azeitonas… E, então,
Revolvo-as, agito-as, bebo-as,
Sugo-as, trituro-as, adorno-as,
Liberto-as… [e elas voejam…]
Tudo está [se contém] na palavra…
Têm sombra, transparência, peso,
Plumas, pelos… [e encantam].
Vivem no féretro escondido
E na flor apenas desabrochada…
São antiquíssimas e recentíssimas.
Que bom é o idioma meu!”
(Pablo Neruda, em Confesso que vivi).

POEMETO DO RELÂMPAGO
Um facho de intensa luz precipita-se do amplo azul do céu
E, por um átimo temporal, alumia parte da vastidão da Terra,
Que, então, revela-se como se fora fêmea em plena lua de mel,
Logo abandonada… Assim essa breve história de amor se encerra.

POEMETO DOS DUZENTOS
O arredio e desconfiado lobo guará,
Incomodado com tão alto patamar,
Saltou esguio fora da prisão “cedular”.
E, no cerrado planaltino, voltou a caçar…
Preservemo-lo no seu natural habitat!

POEMETO À BLOOM
“Se não sabes morrer,
Não te preocupes; [afinal]
A Natureza te dirá o que fazer
Na hora, de maneira total
E adequada. [Sem desperdícios]
Ela fará o trabalho com perfeição;
Não te preocupes com isso.”
(Harold Bloom, em Onde encontrar a sabedoria).

POEMETO DA DIVINA PROTEÇÃO
Antes rezador profuso, agora
Sóbrio, é assim que ele ora:
Oh! Meu bom e onipotente Deus,
Cubra de proteção os meus!

POEMETO À HUXLEY
“Na arte, além das cerradas complicações,
Há bem mais difíceis simplicidades.
Na nossa maneira de olhar as coisas,
A essência é [ou deve ser] a naturalidade.”
(Aldous Huxley, em Contraponto).

POEMETO DA CITAÇÃO
“Apressou-se a se interpor (…) com certa apreensão:
Não é fácil atingir o paraíso aqui na terra.
O paraíso é um negócio difícil… [Pudera!]
Mais difícil do que parece ao seu bom coração.”
(Fiódor Dostoiévski, em O idiota).

POEMETO DA REFLEXÃO
Já se nos impõe que,
Em tempos de escolhas cruciais,
Sejamos, no mínimo, sensatos.
Já não nos cabe mais que
Cega e surdamente sigamos
As nossas venetas vãs e rotas.
Já, também, não mais razoável é
Pôr sobre retos e inflexíveis trilhos
Os nossos injustificáveis desideratos.
Já bastante recomendável é
Que, de forma responsável,
Optemos por trilhas outras.

POEMETO NADA INFANTIL
A rosa advertiu o cravo,
Por conta da sua parvoíce:
– Deixa logo de ser tão boboca,
Ao crer em todo disse me disse!

POEMETO À PADARIA ESPIRITUAL
“Era irreligiosa, anticlerical, vagamente comtiana…
Meio secreta, meio fraternal, um tanto maçônica.
Seus membros uniam-se (…) num ofício simbólico, o de padeiro,
Como os maçons se unem [secularmente] no de pedreiro.”
(Pedro Nava, em Baú de ossos).

POEMETO DA CITAÇÃO
“Nas profundas sombras de seus olhos (…)
Não se pode esconder a alma (…)
[Neles] percebo uma dor lívida,
Que me paralisaria se a tivesse.”
(Herman Melville, em Moby Dick).

POEMETO DA POLITICALHA
Na política tupiniquim – isto lhes garanto –, não há santo.
Todos praticam a velha e desenxabida “apropriação indébita”
E perde tempo, obviamente, quem pretenda descobrir o quanto.
A pátria, senhora amorável e gentil, é rica, pródiga e generosa.
As excelências – desde sempre – se locupletam desavergonhadamente,
Embora ainda haja os que digladiam por lideranças ignominiosas.
Apesar disso, todos devemos votar,
Mesmo que para pôr no pátrio Poder
Quem, certamente, vai nos roubar…
Não os contentam quantias poucas –
Diz o populacho, com a voz já rouca.

POEMETO DO ARREBATAMENTO
A jovem samaritana debruça-se, então, sobre a borda do profundo poço,
Em cujas negras e quietas águas vê que se reflete o seu belo rosto.
Assusta-se ante a perceptível similaridade com o do nazareno moço…
Julga-o familiar: fraterno até! Do arrebatamento desfrui ao seu gosto.

POEMETO À HUXLEY
“Ninguém se casa [isto está no manual]
Com uma coleção de virtudes e talentos;
Casa-se com um ser humano individual.”
(Aldous Huxley, em Contraponto).

POEMETO EXTRAÍDO DO BAÚ
“Sua grandeza (…) vinha das qualidades
– de que basta o homem ter uma [na essência] –
Para tornar-se merecedor da vida:
A retidão, a bondade, a inteligência.”
(Pedro Nava, em Baú de ossos).

POEMETO ROSEANO
(ou “Na panela do pobre, tudo é tempero.”)
“As ancas balançam
E as vagas de dorsos
Das vacas e touros
Batendo com as caudas
Mugindo no meio
Na massa embolada
Com atritos de couros
Estralos de guampas
Estrondos e baques
E o berro queixoso
Do gado junqueira
De chifres imensos
Com muita tristeza
Saudade dos campos
Querências dos pastos
De lá do sertão.”
(João Guimarães Rosa, em Sagarana).

POEMETO VIP
O siglismo,
Processo de formação de palavras
Em português brasileiro,
Deu às siglas status de vocábulos.
No caso concreto,
Da expressão inglesa “Very important personnel”,
Vertida para a língua mátria – “Pessoa muito importante” –
Cristalizou-se o VIP (exemplo de economia do falante).
Isso, no clássico, puro e escorreito cearensês,
Que ora e desde sempre vigora, em verso e prosa,
A tradução se dá assim: “Vixe, ingrisia perigosa!”.

POEMETO À MILLÔR
E Gina disse: – Vem cá, Brito!
Entra logo nest’acolhedora tina!
Ele reagiu com o dito por não dito…
Gina disse: – Se é assim, vou-m’embora!
Enquanto um feliz rouxinol lá trina,
O amado arrisca recuperar o outrora:
– Peço-te, por favor: não vá, Gina!

POEMETO DO DESVIO DE VERBAS
(ou Os recursos do Erário escorrem pelos ralos)
Todo projeto contém um elemento
Capaz até de inviabilizá-lo,
Dependendo, inclusive, do quantum
De verbas públicas envolvidas:
Quem – o homem, obviamente –
É aquinhoado com o supremo
E pétreo poder de executá-lo.

POEMETO DA ACEITAÇÃO
Declaro-me ser por demais franco,
Ante este humano e absurdo desvario:
Sem o preto, o que seria do branco?!

POEMETO À PESSOA
Leciona o emblemático e celebrado vate lusitano
Consistir a vida em uma viagem experimental,
Hesitante entre a interrogação e a exclamação.
Logo, a dúvida se encarrega de pôr o ponto final.
(Fernando Pessoa ou Bernardo Soares, em Livro do desassossego).

POEMETO JUNINO
Bem em frente da modesta, iluminada e festiva casa,
A madeira da fogueira arde, chora, queima, crepita.
Toda a animada gente a rigor se veste e se calça:
Chapéu de palha, chinelo de couro, roupas de chita.
Fogos, bombas, bandeirolas, balões de papel colorido,
Quadrilhas de pares dançantes, casamentos matutos,
Aluá, pamonha, canjica, beiju, milho assado ou cozido…
Ao som da sanfona, aos santos o sertão faz seu tributo.

ACRÓSTICO DA SAUDADE
Ríamos… muito! Ela sempre no seu simplório jeito de ser.
Importavam jogar conversa fora e o néctar dos deuses sorver.
Tânatos, o deus da Morte, cuida de fazer sua visita traiçoeira.
Assim, na solidão do fim, ela faz a sua viagem derradeira.

POEMETO DO ÓDIO À MORTE
A translúcida e imperturbável senhora,
Então, covarde e invisivelmente, se retira…
Restou o ódio que por ela sempre em mim aflora.

POEMETO À PESSOA
Clareia-me muito bem a sensata luz pessoana:
Falso é o esgar de quem, sob o olhar de outros,
Põe-se a sofrer a morte de quem diz que ama.
(Fernando Pessoa ou Bernardo Soares, em Livro do desassossego).

POEMETO DA VIA CRÚCIS ATUAL
Falta de ar. Cansaço. Soçobro. Perecimento.
Isolamento. Internação hospitalar. Monitoramento.
Tratamento intensivo. Coma induzido. Entubação.
Pesadelo improvável. Espiritual e psíquica regressão.
Retorno ao pretérito imperfeito. Adolescência.
Recorrente banho de lagoa. Mansidão das águas.
Teste de profundeza. “Tomar pé”. Inconsequência.
Vertical mergulho. Imprudência. A nau naufraga.
Pernas presas na lama decantada. Luta inglória.
Impossível retorno à superfície. Falta de ar, de ato!
Afogamento: adeus à vida, que então lhe dá o ultimato.
Evola-se o espírito. Finda-se tudo – menos a memória…
Matéria em invólucro funesto: plástico preto…
Destino: vala comum.
E ele era apenas mais um…
Entre tantos!

POEMETO DA AFROESCRAVIDÃO
“Silêncio que mais parecia
Um pano escuro, grosso e sujo,
Que tomava todos os espaços
E debaixo dele prendia
O ar úmido e malcheiroso,
Sabendo a mar e excrementos,
A suor e a carne podre.
A bicho morto.” [E sem ventos!].
(Ana Maria Gonçalves, em Um defeito de cor).

POEMETO ACONSELHÁVEL
Não se perca no meio do caminho.
A perda pode ser de todo irreparável.
Ave que sempre retorna ao mesmo ninho
Aproveita a mesma proteção, afável…

POEMETO DO ACONSELHAMENTO
Na escola dos meus pais eu aprendi,
Desde o fulgor da mais tenra infância:
Honestidade, felicidade e educação;
Fé em Deus, respeito, além de constância;
Saudável alimento, firmes propósitos e atitudes;
Disponibilidade para o bem e sã solicitude:
Argamassa da base de sustentação da vida;
Equilíbrio da estrutura cotidianamente erguida.

POEMETO DO BOM SENSO
Celebre a vida! Vacine-se!
Pois a Covid ainda mata…
Não se acovarde! Anime-se!
Eu já me vou pela quarta…

POEMETO DO PODER ENVIESADO
No absurdo duelo de poderes supremos,
O inconsequente disparo do míssil “Indulto”…
Que o bom senso repudia por nele ver insulto…
E de graça! Ora, a insensatez vai aos extremos…

POEMETO DO ABSURDO
Numa fértil terra em que a Natureza se faz pródiga em generosidade,
Até com vocação para ser o celeiro alimentar de todo o vasto Mundo,
Fenômenos fogem ao bom senso e provocam inconformismo profundo:
O lamento de quem sabe vai morrer de fome… cruel absurdidade!

POEMETO AOS ENAMORADOS
Café da manhã, frugal e ornado, na cama servido.
Almoço à brisa do mar, prato e vinho harmonizados.
Jantar à luz de velas, ao som de harmônicos bandolins.
Noite dançante, sob luz discreta, mas nada atrevida.
E que, neste dia e em toda a partilhada vida,
As suas relações a dois o amor sempre presida.

POEMETO DA TEMPERANÇA
Impõe-me a velhice em certos ofícios
O sempre bem acolhido entendimento
De que já fui muito bom em tudo isso…

POEMETO À SÓFOCLES
Do celebrado Sófocles que com Ésquilo e Eurípedes
A tríade da poesia dramática grega compuseram,
E clássicos da dramaturgia antiga escreveram,
Uma das suas frases célebres e marmóreas,
Ora dou-lhes a conhecer:
“Ninguém ama tanto a vida
Como o homem que está a envelhecer”

POEMETO DA FALSA VERDADE
As tuas narrativas em mim só provocam arrepios.
Desassossego, às vezes. Desconfiança, quase sempre!
E por quê? Porque todas elas se fundam em fake news!

POEMETO À XYKOLU
Nas salobras águas da cacimba de areia,
A recatada jovem se banhava por inteiro.
Vestido colado ao sensual corpo de sereia,
À mostra, seios púberes em colo bonacheiro,
Um par de roliças coxas sob ancas generosas,
Cabelos longos deslizando em costas largas.
Envolta em aura de felicidade – bonançosa…
Ali perto, um par de olhos fixos nas ilhargas…
Ó lascivos desejos,
Sem o menor pejo!

POEMETO DA POLARIZAÇÃO
Um idiota e um bêbado se esbarram numa esquina qualquer.
Para um, com seu deus no comando, a medíocre arrogância;
Para o outro, honestidade sem igual, o retrocesso. Haja fé!

POEMETO À TOLSTÓI
Na antessala do fim [aqui, nada de exageros]:
“Ora [creiam-me!] brilha uma gota de esperança,
Ora [admitam!] tumultua um mar de desespero.”
(Lev Tolstói, em A morte de Ivan Ilitch).

POEMETO DE DESPEDIDA
Católico fervoroso. Fé mariana inabalável.
Intimorato. Virtuoso. Boa expressividade.
Zeloso vô-torista. Natural espirituosidade.
Ético. Político. Crítico. Bom senso louvável.
(…)
E Deus hoje o convocou: ei-lo na eternidade…
Lá onde se imortalizam os mansos de coração.
Aos que em vida permanecem, resta a saudade…
E um dia nos encontraremos… eis a convicção.

POEMETO VITAL
E, neste vendaval,
absurdo e inimaginável caos,
em que Vida e Morte digladiam
em ambiência crucial,
até natural é a sucumbência de pessoas
– algumas más, muitas outras tão boas –,
curvando-se desgraçadamente à ação viral,
insensível, invasiva, letal.
Protejam-se!
Vacinem-se!
Acolham a salvaguarda que ora lhes é oferecida!
Lutem brava e decididamente pela Vida!

POEMETO DA INTOLERÂNCIA PERMITIDA
Em que sentido incorporo a intolerância?!
Legitimamente?!
Quando enfrento e combato a intolerância,
Intransigentemente!

POEMETO À HUXLEY
“Custa tanto escrever um mau livro como um bom [Ô!]:
Sai com a mesma sinceridade da alma do autor.
[Portanto, não raramente, em tal mister me reinvento:
É bom de ver!] Não há substituto para o talento.”
(Aldous Huxley, em Contraponto).

EIS A QUESTÃO…
Amigas e amigos, há um lado em mim – há sim! -,
para onde credulamente o coração mais pende
e ininterruptamente gotas de romantismo instila,
que me incita, nest’hora tão crucial: – Não vote͑

Um outro lado em mim também há, enfim,
por onde sensivelmente a razão mais se estende
e apropriadamente gotas de realismo destila,
que me adverte, nest’hora bem mais crucial: – Vote!

Assim, entre u’a razão realista e um coração romântico,
o meu eu político, tão criterioso, exigente e rigoroso,
acompanha o escorrer da manipueira, pano a pano;

segrega, para a colheita, o trigo bom do joio maléfico;
acautela-se, pois seu voto rebenta de parto doloroo…
forjado em atos bem mais divinais do que humanos.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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