Pintou um clima

Quando a mais tradicional panificadora do bairro sucumbiu aos danosos efeitos – que ainda grassam por aí – da devastadora e renitente pandemia, após – convém frisar – algumas anêmicas tentativas de sobrevida em resiliente processo de respiração por aparelhos em gélidos ambientes de unidade de tratamento intensivo, ao longe uma tênue e fugaz réstia de luz esverdeada, no fim de túnel de dificílimo acesso, e, por letal falta de fôlego, cerrou definitivamente as quase centenárias portas, nós, componentes de seleto e diminuto grupo de aposentados que, cotidianamente, ali nos comprazíamos com saboroso – embora simplório, no sentido de sem floreios e adjutórios raros e caros – café da manhã “passado na cara do freguês” e conversávamos sobre tudo “o que desse nas telhas ou nas ventas”, como costumavam dizer os mais velhos quando éramos os mais novos (Saudades!), sob a batuta do espirituoso proprietário e as sóbrias e pertinentes intervenções da “loura do caixa”, nós nos sentimos na desditosa orfandade e, mais desencantados que desorientados com as voltas que a Vida dá, como formigas que têm o laboriosamente construído fluxo abruptamente interrompido, dispersamo-nos: cada um doravante cuidasse de descobrir alternativa que melhor lhe aprouvesse, ou seja, procurasse armador em alpendres outros onde valesse a pena armar a rede. A vida tem seus ciclos; cabe-nos usufruir, da melhor maneira possível, do que cada um deles nos oferece, sem subestimar a possibilidade de vir a ser exigido em rigorosos processos de adaptação a novas realidades, porquanto certamente eles virão, isso cobrando de nós, um após outro, “ad infinitum”.

Na terça última, sob um sol indolente, melancólico e preguiçoso, mais ou menos desperto, ainda sem disposição para refulgir em dia de comemoração de efeméride nacional – a proclamação da República, marca histórica do fim do império português em solo pátrio –, ali, na esquina de um cruzamento de vias de grande fluxo em dias rotulados de “normais”, ora tão sem vida quanto o “chiqueirinho” em prévia da defenestração mítica, reencontrei um dos parceiros daqueles saudáveis encontros matinais. Após as reverências e cumprimentos de praxe, além de confabulações sobre assuntos triviais, alguns até prosaicos, fiz-lhe a pergunta com estreita relação com as nossas discussões de padaria:

– E aí, preclaro amigo, como foi o seu dia 30 de outubro?

– Diferente, professor. Bem diferente. Só pra você ter uma ideia, acordei cedinho, bem antes das seis, sob o suave e calmante som de uma neblina intermitente, água escorrendo pelas biqueiras, como você costumava poeticamente dizer. Senti-me de bem comigo mesmo. Nada de ardências ou formigamentos na região plantar dos pés – para quem é diabético, já com alguma deficiência no sistema circulatório, em especial na rede vascular dos membros inferiores, isso vai bem mais além do que um simples alívio. Nada de incômodos nas articulações – ombros, joelhos, tornozelos – para quem já dobrou o cabo das esperanças, isso equivale a navegar na tranquilidade de águas remansosas e cristalinas. Nada de constipação ou de espirros em profusão – para quem sofre de rinite alérgica crônica, isso significa caminhar em campos floridos onde airosos ventos espalham odores vários que da Natureza espargem. Nada de indisposições, de resmungos, de queixumes.

– Pelo visto, mestre, podemos dizer ter sido um dia munificente, dadivoso.
Acolhendo convite dele, sentamo-nos em banco de madeira ao longo do guia da calçada, ao pé de um jovem ipê amarelo, ainda com algumas flores a demonstrar tal classificação. E ele retomou o andar da carruagem, ou melhor, da conversa.

– E foi, sim. Por se tratar de domingo, cuidei, como católico praticante, pecador e contrito, de logo cumprir com a devoção e, assim, preparar-me bem para a obrigação que logo de mim exigiria uma razoável dose de bom senso. Acompanhei a minha eterna parceira – permita-me tornar minha uma de suas prediletas expressões – na missa celebrada pelo padre Artur na igrejinha de São José Operário. Em casa, saboreamos o café da manhã por mim mesmo preparado, em mesa de fartura mais sertaneja que citadina, para, em seguida, irmos ao local de votação: colégio de médio porte, da rede particular de ensino, não muito distante de onde moramos. A tranquilidade já se fazia sentir nas vias de acesso que percorríamos. Nas seções eleitorais ali instaladas, apenas as solícitas mesárias e atentos e atentas fiscais; nada de filas, muito menos de aglomerações e zero de manifestações. Identifiquei-me, na forma de praxe. Encaminharam-me para a cabine de votação. Agora, amigo, vem a melhor parte da narrativa. Perfilei-me diante da urna eletrônica. Calmamente acionei duplamente uma mesma tecla. No visor, surgiu de imediato a imagem do desgoverno, da incompetência, da intolerância. Senti que, num lapso temporal, transitei do modo “rubro de indignação” para o “lívido de espanto”; a bem da verdade, angustiante era a impressão refletida naquela imagem: havia no rosto, no semblante daquele ser algo que o amargurava, talvez até que o torturava. Juro que vi, por trás daquela figura patética, como pano de fundo de uma fotografia recuperada do doloroso cotidiano recente, milhares de expressões cadavéricas, aterrorizantes, clamando por Justiça. As caraminholas efervesceram. De repente, lá estavam, bem à minha frente, só o mito e o vice por ele escolhido a dedo, de viço questionável. Pintou um clima. Numa atitude reflexa, endureci o dedo médio da mão direita, pu-lo em riste, dobrei os outros em posição de reverência, de respeito ao que circunstancialmente ocupava o posto de comando, e, numa atitude de protesto, aproximei o dorso da mão ao que ainda se continha no visor da urna. Lembrei-me de você, amigo, e da sua recorrente expressão de desabafo, repleta de agramaticalidade e prenhe de jocosidade, “Tome-lhe-se-vos!”. Sorri sarcasticamente, enquanto premia a tecla alaranjada do “Corrige”. E eu o defenestrei literalmente.

A voz de uma das mesárias soou aos meus ouvidos como advertência ante a demora no meu agir cidadão. “Algum problema, senhor?”. Respeitosamente, respondi: “Sim, há. Mas só a mim cabe resolvê-lo, senhora. Serei mais ágil.” Silêncio. Volvi a minha atenção para a máquina. Acionei duas teclas distintas e, na sequência, duas sobejamente conhecidas figuras do cenário político tupiniquim – antes discordantes no pensar e no agir; ora conciliantes no agir e no pensar (A política é dinâmica!) – ressurgiram à minha frente, sob o silêncio ensurdecedor de armários que se abriam e regurgitavam cadáveres insepultos, em insólita cena de revivências, de recuperação de ânimos, a qual me remeteu, de imediato, para Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Cemitério e praça pública. Não temi. Não tremi. Não titubeei. Afinal, como dizia o meu velho e saudoso pai, “o bom cabrito não berra”. Sem mais delongas, assim eu votei… para não ser chamado de “isentão”… para não ficar em cima do muro… Embora com a expectativa de que, se Deus ainda consegue ser brasileiro, nos conceda o direito de viver bem e em paz.
Ele ainda quis saber como fora o meu dia 30 de outubro. Evitei alongar-me, até porque já não me sobrava tempo para tanto. Disse-lhe, apenas, que comigo ocorrera algo parecido com o que acabara de narrar. A mesma neblina matinal, o que me fizera preguiçosamente abandonar a rede de dormir; a missa dominical, na mesma igrejinha e com o mesmo oficiante; o café da manhã, com a minha eterna parceira como acompanhante; a tranquilidade nas ruas, nas seções, nas urnas; e o voto do bom senso. Embora sem nada de especial para revelar.

Despedimo-nos com a expectativa de que ainda nos reencontraremos, mesmo que seja em esquinas de vias públicas bem movimentadas, então circunstancialmente vazias.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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