Para reativar a economia, um choque de juros. Por que não? por Osvaldo Euclides

Por força da brutal queda de atividade econômica nos últimos dois anos, a inflação está caindo e, se nada for feito, mantida a a tendência atual, podemos até experimentar a deflação (os preços caem ao invés de subir). A taxa anual de inflação que foi de quase 11 por cento está hoje em 4 por cento. E caindo.

Por que os preços não caíram mais ainda? Porque a economia brasileira ainda é indexada, ou seja, a inflação de ontem sugere o reajuste de preço hoje. Também porque há muita concentração da produção (por exemplo de alimentos) em poucas mãos, isso reduz ou elimina a competição e os preços têm piso, não têm teto. Estima-se que dois terços das posições de gôndolas em supermercados pertencem a dez grupos empresariais. E ainda porque as empresas estão sufocadas pelos custos financeiros desproporcionais (as queixas contra o custo da mão-de-obra, carga de impostos e problemas de infraestrutura, de tão tradicionais no discurso, nem precisam mais ser citados). Como a produtividade é baixa, a saída é pelo aumento de preço.

A questão do financiamento para a empresa e para o consumidor brasileiro é dramática. Ela é pouco tratada e apenas superficialmente discutida porque ninguém se sente à vontade para falar contra o interesse do poderoso mercado financeiro, em geral, do poderosíssimo sistema bancário, em particular. O crédito é raro, caro, de curto prazo e exigente demais em garantias e contrapartidas. É tão seletivo que os empreendedores dizem que “os bancos só emprestam a quem pode provar que não precisa”.

Não pode ser assim, o sistema bancário é importante demais na economia, é decisivo demais para os negócios. Para completar a carência de financiamento, o Brasil nunca cuidou seriamente de desenvolver o seu mercado de capitais, para poder suprir a média e grande empresa com recursos de médio e longo prazo, a custos razoáveis ou via capitalização. O mercado de ações brasileiro é pequeno demais, frágil demais, concentrado demais. A bolsa de valores termina ficando parecida com um clube fechado. As empresas não conseguem encontrar interlocutores para conversar sobre a emissão de papéis de dívida a longo termo como debêntures e outros.

Entretanto, há algo ainda mais dramático. É que a política de juros dos governos (de todos os governos) desestimula o investimento produtivo, e estimula e premia o investimento em papéis de dívida do governo. O governo, leia-se Banco Central, paga um juro tão atraente que só os tolos deixam de lado o juro alto, líquido e seguro para correr riscos em novos negócios. Em resumo: quem tem dinheiro não empreende nem produz, só aplica.

De vez em quando as circunstâncias oferecem ao Banco Central e aos governos uma oportunidade de fugir desse círculo de giz. Como agora. A inflação abaixo da meta e caindo abaixo de 4 por cento ao ano, o desemprego explodindo e a atividade econômica frágil, anêmica. E o Tesouro se dizendo quebrado. Nada justifica juro tão alto.

Uma proposta para direcionar o dinheiro para o investimento produtivo: um choque de juros, uma redução enorme na taxa Selic, liberando e induzindo poupadores a investir na produção. Que corram riscos se querem enriquecer. Isso, sim, é capitalismo. Isso, sim, tiraria o país da crise. Pendurar-se no Tesouro não é capitalismo, é outra coisa.

No mundo inteiro o juro real está colado em zero por cento ao ano. Há países que praticam até juro negativo (isso mesmo, o aplicador entrega o dinheiro ao Governo (via títulos públicos, via bancos) e recebe depois de um ano um valor ligeiramente menor.

As razões positivas estão no texto acima. O Banco Central tem a oportunidade, as circunstâncias permitem e justificam. E a economia com juros seria monumental.

E, finalmente, cabe perguntar: por que não?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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