PAIS EDUCÓGENOS E O HOMESCHOOLING

O “homeschooling” traz o sinal dos peregrinos americanos e da sua resoluta caminhada pela conquista do Oeste. Tangidos da Europa, com as suas ideias protestantes no seio do catolicismo, criaram comunidades de fé nas quais cultivaram as suas crenças, plantaram o pão de cada dia e educaram os seus filhos.

Ainda em nossos dias, comunidades numerosas espalham-se pela América que eles criaram. O Estado e a sociedade ampla foram vistas com desconfiança e suspeita por essas famílias reservadas, isoladas nas suas secretas contrições.

O Estado americano foi construído, em meio a guerras e às ideias dos fundadores, no respeito pelas liberdades individuais e pelos direitos de livre escolha dos propósitos reconhecidos. Para os peregrinos e os construtores da nação, o poder do Estado encontrou resistência enérgica nos princípios constitucionais que ainda hoje fixam os limites do poder público e os princípios de uma real federação republicana.

Este o quadro histórico no qual a família americana reverencia os direitos e as responsabilidades que lhe incumbem na educação e instrução dos filhos.

Esta cultura, ainda que sujeita às grandes transformações dos dois últimos séculos e a uma progressiva perda de influência das religiões e dos seus dogmas, persiste, todavia. Quakers e mórmons são a representação mais poderosa de seitas que cresceram e se expandiram à margem do alcance do Estado.

Essas tradições estão, entretanto, condenadas a perecer, em face de uma crescente valorização social da vida em sociedade. Conta, igualmente, para a aceleração desse processo a expansão de impulsos autoritários e uma enorme tentação totalitária que seduz os visionários de novas revelações ideológicas. Em um e outro caso, a escola vê-se submetida a influências contraditórias e ao poder das novidades que encorajam a propagação de experiências externas nem sempre bem desenvolvidas.

A escola é certamente o “locus” da formação do cidadão e do sentimento de nacionalidade — o condicionamento da percepção de uma pátria comum. Anísio Teixeira, esquecido pelas concepções pedagógicas da moda, foi modelador magistral da concepção da escola pública no Brasil, ao largo de compromissos ideológicos que dominam e limitam pensamento educacional brasileiro.

É de Anísio Teixeira o que de melhor se produziu, desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação. Dele, também, o projeto e arcabouço de concepções igualmente pioneiras: a que deu vida à Universidade do Distrito Federal, UDF, nos anos 20, no Rio de Janeiro, e a que orojetou, com Darcy Ribeito, a Universidade Nacional de Brasília, UnB.

Não há como ser contra o ambiente “escolar” criado na família e de os pais pretenderem ser “educógenos”, como desenhou com propriedade Cláudio de Moura Castro. Ele próprio reclamou para si esta condição e o direito de a exercer. O pai mestre-escola, partícipe da construçâo intelectual dos filhos.

Pais dotados de vocação e interesse pela vida escolar e pelo processo de aprendizagem dos filhos não significa risco para os educandos, muito menos importa em impedir ou frustar que os filhos realizem e completem a sua escolarização na escola.

Claro que o envolvimento familiar no processo escolar é benéfico e indispensável. Não há contra-indicações para o aviamento dessa fórmula bem sucedida.

A escola pública, como o ensino privado, sofrem por estes dias a ação concreta de ideologias educacionais e políticas e da ação sindical que fogem ao controle e ao acompanhamento dos gestores pedagógicos mais experientes.

Por omissão, descuido ou cumplicidade cômoda de quem renuncia ao seu papel de educógeno — o que educa e instrui — , os alunos são confrontados, em idade em que a inexperiência e a sua ingenuidade se apresentam com espontaneidade — com opiniões provindas de um ativismo político e ideológico persistente e inculto.

A função de acompanhante da educação dos filhos, na escola ou fora dela, deve ser obrigação e dever de uma paternidade participante — felicidade do filho que tem seus pais envolvidos com a sua formação escolar e a sua cidadania.

Quanto ao papel da escola, pública ou privada, impõe-se aos diretores e educadores cuidados que se projetem para lá das rotinas de avaliação do desempenho escolar. Que cuidem e zelem pelo respeito que se há de ter, na escola, pela formação da consciência política e cidadã de crianças e jovens, sem interferência e motivações ativistas que deformem a sua capacidade de livre escolha.

Alonguei-me em considerações sobre obviedades que, por óbvias, são frequentemente esquecidas.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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