OUTROS POEMETOS MEUS

(Mantêm-se tanto a pretendida ambiência quanto a persistente motivação)

 

POEMETO DOS SORRISOS

Sorria… Generosamente sorria…

Encante-nos com a sua alegria.

Libere a felicidade que assim se irradia.

E a paz que ora a todos contagia.

Sorria… Inimitavelmente sorria…

 

POEMETO DA CARRASPANA

Um botão fora da casa…

Ampulheta de areia escassa…

Hoje, estou assim.

Desejo de pôr o pé na jaca…

Vias aéreas empesteadas d’inhaca…

Hoje, estou assim.

Comprar o que me der na telha…

A cor do saldo da conta bancária: vermelha…

Hoje, estou assim.

Pronto pra fechar a conta e passar a régua…

Chamar o mais valente de filho d’uma égua…

Hoje, estou assim.

Sem filosofias, saborear a taça de cicuta…

Bradar ao pé d’ouvido do verdugo: “Filho da… santa!”…

Hoje, estou assim.

Que o amanhã seja um outro dia…

Quiçá! Sim!

 

POEMETO ONÍRICO (2)

Um pensar de Einstein ora exponho:

Só velho é o homem cujos doídos lamentos

Excedem os seus vivíficos sonhos.

 

POEMETO GEOMÉTRICO

Oh, distinta Hipotenusa!

A retidão dos teus Catetos

Ainda hoje me acusa…

 

POEMETO DA DEPENDÊNCIA VIRTUAL

Se os afligem a angústia e o desconforto

De eventual incapacidade de acesso eletrônico

À comunicação, não se sintam quase-mortos…

Ora apenas experienciam um estado nomofóbico.

 

POEMETO INCIDENTAL (2)

Ó imorredoura juventude!

Ora ainda resistes na memória.

Fazes parte da minha história.

Comigo irás até no ataúde.

 

POEMETO SERTANEJO

Pr’onde tu vai, menino?

Vou caçar de baladeira.

Caçar o quê, malino?

Rolinha pra vender na feira.

 

POEMETO QUESTIONADOR

Será que o tempo é soberanamente tirano,

A impor-nos sempre a sua suprema vontade?

Será que quem faz andar a roda do mundo

É a tragédia humana, em toda a sua gravidade?

 

POEMETO TACITURNO

Não me perturba morrer.

Preocupa-me não mais poder fazer

O que ora me garante viver.

 

POEMETO DO AMOR MAIOR

Nada há de melhor que

Dormir no seu regaço,

Sonhar no seu abraço,

E, na simbiose dos cansaços,

Sussurrar: já não sei mais o que faço…

 

POEMETO RENASCENTE

Em fontes de turvas ou cristalinas águas,

Revoltas ou tranquilas, remansosas,

Profundas ou superficiais e volumosas,

Extraio o bálsamo que cura até mágoas.

Dá-se, então, o vital revigoramento…

Qual águia em pleno renascimento…

 

POEMETO A BERGANTIM*

(O prefeito mais que perfeito)

Elegeram-no os crédulos acacianos

E, logo que lhe deram a legítima posse,

Festivamente,

De enxada e picareta, em outros panos,

Como se da limpeza urbana fosse,

Exemplarmente,

Em Acácias implantou ritmo de refazimento.

E a cidade ganhou belezura de rejuvenescimento.

Ergueram-lhe, então, um merecido busto.

Só que, antes de o bronze subir ao pedestal,

Na parte mais central da praça principal,

Surpreendeu aquela boa gente um profundo susto,

E a má nova a todos causou indigesto mal.

Bergantim renunciou, sem discurso, sem comício…

Levado de volta – de onde houvera fugido – ao hospício.

 (Em Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon, de José Cândido Carvalho).

 

POEMETO MALCHEIROSO

Em improvável assembleia dos órgãos humanos,

Que pretendia eleger qual deles era o mais vital,

Acirradamente disputavam o cérebro e o coração.

De repente, num gesto logo tido como insano,

Deu-se o travamento letal, por decisão anal:

“Por aqui nada mais passa!”. Tentativas em vão.

O mal-estar tornou o que era sacro em profano

E, um após outro, todos logo se sentiram mal.

Então, o ânus restou escolhido, por aclamação…

 

POEMETO APOLOGÉTICO

Generosa agulha fui, em vezes incontáveis,

A guiar submissas linhas, pela vida afora…

Recolhido à natural simplicidade, agora,

Percebo-as, sem mágoas, quão imprestáveis!

 

POEMETO INSUBMISSO

Contrariando o filho cujos discursos lhe dava já escritos,

Quis colocar algo de si e apelou para um “Tenho dizido!”.

Alguém, em sussurros, logo o corrigiu: É “Tenho dito!”.

E ele, sem titubeios, rechaçou: “Já falei, ‘stá falido!”.

 

POEMETO MARGINAL (2)

Ó insaciáveis assacadores dos cofres públicos,

Com patrimônios rechonchudos, rotundos,

Veem o Brasil os universais e ferrenhos críticos

Como o maior produtor de marginais do mundo.

 

POEMETO CAUSÍDICO

Os que dormem, a Lei não protege.

Leciona um dos brocardos latinos.

Se alguma força contra mim emerge,

Ajo. Reajo. Jamais procrastino.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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