OS SINAIS VISÍVEIS DA CONCILIAÇÃO A AVENIDA PAULISTA ACENA, POR VIA DAS DÚVIDAS, PARA TODAS AS MONTARIAS — PARA MONTAR NA VENCEDORA

Como era de prever, os corações, enternecidos com os acenos de paz e conciliação, abrem-se em nome dos interesses superiores da pátria.

Há poucos dias, daqui deste minifúndio de ideias bem plantadas, explorei com as artes da ironia com as quais busco entender este teatro do qual somos meros atores secundários, os rituais da conciliação que marcam a cultura política brasileira.

Descrevie-a em textos anteriores, destinados ao esquecimento de não-leitores, como “coitus politicus interruptus” procedidos em delicados recantos “inter femura”.

Latim à parte, com a indulgência do Mestre latinista Eleazar Magalhaes, a conciliação é a arte de associar interesses contrários, de modo que todos os parceiros da empreitada saiam ganhando, alegrados pelas possibilidades futuras de melhores e mais promissores ganhos e dividendos…
Na política, ao contrário do que na guerra, a vitória não perde do seu valor heróico se o botim dos saques forem compartilhados para que se evitem os dissabores e os prejuízos das disputas “inter pares”.

Os empresários, por via das dúvidas, chamam Lula para uma conversa entre amigos e põem-se todos a favor da “reindustrialização” do país, seja o que isso possa significar. Lula desenterra um velho petista faz-de-tudo para mediar os interesses na avenida Paulista.

A mídia de grosso calado baixa o tom, como nos saudosos tempos quando aguardava a abertura das torneiras do erário.

O Congresso faz pose com a senadora Jandira Feghali e enche de beijos o senador Pacheco, o homem de 7 bilhões de reais — e leva os artistas ao orgasmo patriótico de uma resistência heróica em favor da sua participação no bocado do bolo do mecenato das verbas públicas.

Os partidos fazem a festa com o Fundo Partidário e já sonham com as sobras das despesas.

Os parlamentares distribuem à farta a dinheirama das Emendas e acodem seus cabos-eleitorais carecidas de gestos amigos.

E para adoçar as perdas acumuladas, lá está o “orçamento secreto” com o qual são construídas a governabilidade, a governança e as boas intenções republicanas.

Tudo se passa com a maior naturalidade, a cultura e a democracia, engendradas pela burocracia do governo e dos legisladores, legitimam todo e qualquer procedimento da administração financeira. Até mesmo a dispensa de prestação de contas das despesas resluzadas com recursos públicos.

De uma coisa é certa, sem dinheiro nenhuma democracia emplaca. Dinheiro público, o que é arrancado dos “contribuintes”, que o dinheiro privado, segundo dizem os inquilinos da avenida Paulista, servem para criar empregos…

Assim, se constrói o consenso no Estado democrático de direito. Assim são legitimados os gestos audaciosos que alcançam os recursos público-privados.

E esses cabeçudos, beneficiados por tanta indulgência com o dinheiro alheio, ainda querem livrar-se do capitalismo?

E como ficaria, assim, o “capitalismo eleitoral” que aprovisiona os candidatos sem votos com votos contantes, o aliciamento de contrários — e a socialização das ideologias mais radicais?

Dizia-se que todo homem tem o seu preço.

A História ensina, entretanto, que toda ideologia tem o seu preço.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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