OS RICOS DEFENDEM OS RICOS???

“Eu gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor”

Walt Disney

Os ricos defendem os ricos? A resposta concisa: politicamente sim; economicamente não. Podemos começar este artigo com esta conclusão, que aqui segue analisada.  

A “civilizada” cultura do velho mundo criou servos feudais e foi abençoada pelos monarcas devotos; matou e escravizou índios e negros nas Américas; promoveu o maior genocídio da história da humanidade em duas guerras mundiais nas quais as estatísticas indicam terem perecido cerca de 60 a 70 milhões de pessoas (cerca de 3% da população mundial); e agora demonstra uma tendência de retrocesso civilizatório ao apoiar eleitoralmente bandeiras da direita que há alguns anos causariam vergonha a quem as defendesse.
O ser humano já demonstrou que quando há escassez de água e alimentos para um grande contingente de sua espécie, manifestam-se os instintos de sobrevivência mais irracionais e cruéis; basta ver o tumulto desordenado de uma turba de famintos diante da distribuição de alimentos no que deveria ser uma fila única.
 
A velha Europa, que colonizou e explorou as riquezas materiais e os povos asiáticos, africanos e americanos pela escravização direta e, depois, pela escravização indireta do trabalho abstrato, vê, agora, o feitiço se virar contra o feiticeiro, ou seja, constata que os velhos conceitos da forma-valor que sempre utilizou, entraram em disfunção social irreversível graças à introdução da tecnologia de ponta na produção de mercadorias.  

Entretanto, parte do eleitorado europeu, que vem perdendo poder aquisitivo, ao invés de pugnar pela emancipação humana com um todo, e pela coadunação de um novo modo de relação social próprios aos ganhos da era da terceira revolução industrial tecnológica, parece preferir o retrocesso civilizatório que nada resolve.  

A invés de optar por um novo modo de produção social usando o advento da desenvolvida tecnologia da microeletrônica que descortinou um universo de ganhos eletrônicos antes impensáveis, prefere, preconceituosamente, a manutenção dos velhos conceitos defendidos por políticos de tendências governistas de cunhos ditatoriais, nacionalistas, xenófobos, racistas, misóginos, hipócritas, militaristas, belicistas, escravistas, e por aí vai…  
Tal comportamento demonstra uma inconsciência da sociedade sobre si mesma, ao mesmo tempo que denota o comportamento mesquinho e preconceituoso que sempre esteve presente nas sociedades detentoras de hegemonias econômica ditas “mais evoluídas e civilizadas”.    
Mas essa tendência não é hegemônica, vez que há uma polarização entre a socialdemocracia que tenta sobreviver pela via de um estado intervencionista na economia com pretensões de assistências sociais, e a direita conservadora que quer manter os seus privilégios a todo custo, ambas fadas ao fracasso a permanecerem as suas orientações políticas e econômicas.
Nenhum dos dois projetos políticos pode responder às exigências da necessidade de uma profunda transformação de conceitos que transcendam o sistema produtor de mercadorias.  
A superação do sistema produtor de mercadorias, implica, necessariamente, numa mudança radical daquilo que milenarmente vem sendo desenvolvido e aprimorado como relação social natural, ou seja, como se o ato de comprar e vender sob o signo de um padrão monetário qualquer (que substituiu o aparentemente ingênuo escambo, que já trazia o vírus da escravização pela apropriação privada da riqueza pelas trocas, do qual é descendente direto) seja a única forma possível (ou no mínimo a melhor) de se viver socialmente.  

É evidente que estamos diante de um impasse nunca vivido pela humanidade (hoje com seus quase 8 bilhões de homo sapiens) e que consiste em nos desprendermos de uma forma de relação social que desenvolvemos ao longo da nossa história escravista, e que está equivocadamente introjetada e sedimentada na nossa mente como sendo essencialmente virtuosa e natural (mesmo que possamos citar o seu itinerário de sangue e dor), e sem que tenhamos a confiança e a clareza do modo de ser alternativo a isto.  

O impasse se evidencia na insistência se querer viabilizar uma forma política que existe para dar sustentação (tanto pela direita como pela esquerda institucional) a um modo de relação social de produção que atingiu o seu ponto de disfunção sem que se admita a necessidade de sua superação, e sem que se queira considerar que podemos produzir para dar, ou invés de vender, e afastar de vez o famigerado raciocínio de viabilidade econômica para se fazer qualquer coisa (obras, mercadorias, serviços, etc.).

É que desde há muito não fomos educados para sermos solidários com os demais seres humanos, mas para subjugá-los e escravizá-los. A história da civilização humana nos últimos milênios é a história da escravização pelas armas, e pela “lei do Gérson”, e nós somos o resultado deformado de tal educação.  
Na cultura da forma-valor todos se digladiam entre si. O ser humano, que somente sobreviveu como espécie graças ao seu sentido solidário e gregário, criou uma lógica de relação social que é a antítese disso, ou seja, uma competição para satisfazer ao Deus do capital, esse Minotauro preso num labirinto sem saída própria e que pode nos levar à própria extinção, seja por um artefato nuclear ou pela agressão ecológica irrefletida.

Não é correto se dizer que os capitalistas protegem os capitalistas, ou mais diretamente, que os ricos defendem os ricos. Na verdade, todos eles são súditos da lógica do capital e às suas regras absolutistas que obedecem rigorosamente sob pena de perderem o capital acumulado e que necessita permanentemente de ser aumentado (nenhum capital permanece estável, ou cresce ou decresce).

É claro que os grandes capitalistas (1% da população mundial que detém 99% de toda a riqueza abstrata), monopolistas e rentistas, com os privilégios pessoais de consumo e poder que desfrutam, conseguem se livrar das tribulações pelas quais passam os capitalistas médios e pequenos.  

Alguns desses muito ricos até posam hipocritamente de filantropos, mas suas únicas preocupações são a violência urbana, daí os carros blindados e residências vigiadas; a falência do Estado e correspondente colapso dos padrões monetários que manipulam e que podem degringolar numa anomia social grave e na barbárie já em curso; e o aquecimento acelerado e sem seletividade do Planeta, mas sem que abdiquem dos mecanismos poluentes e degradantes.  

Informamos aos sociais-democratas que buscam encontrar solução de sobrevida para o capitalismo moribundo com a taxação substancial dessas grandes fortunas, que tal inciativa (difícil de ser aprovada nos parlamentos burgueses) poderia salvar o Estado da falência, mas o problema da acumulação capitalista continuaria e um novo ciclo recomeçaria, agravado com o aumento da depressão econômica por conta da falência dos grandes conglomerados e queda na produção. O capital já roda com dinheiro sem valor, e esse processo tende a se agigantar até o crash absoluto.  

Já os pequenos e médios capitalistas, no atual estágio da depressão do capital são pressionados a se manterem vivos empresarialmente e sofrem com a tendencia irrefreável de redução das taxas lucros (e procuram manter o volume dos lucros, sem os quais definham, dificultados pelas leis de direitos trabalhistas, previdenciários e sociais que não podem cumprir).  
 
É quase insuportável o nível de estresse de um capitalista pequeno ou médio diante da opressão fiscal e legal de um estado endividado a lhe cobrar o cumprimento de obrigações e, principalmente, da concorrência, concentração e poderio dos grandes conglomerados monopolistas do capital.  

Sob o capital, Impera o canibalismo econômico da concorrência de mercado, e entre os capitalistas médios e pequenos o medo aterrorizante da falência que hoje ocorre generalizadamente e que lhes bate à porta permanentemente.  

Os gestores do capital se digladiam permanente com os outros gestores do capital perante o altar da sacralidade burguesa: o mercado. É por isto que eles são adversários entre si, ainda que tenham um feeling político preservacionista quando se veem atacados por forças estranhas e avessas à lógica funcional de seu Deus e senhor supremo, o próprio capital.  

Mas podemos dizer que esse feeling burguês preservacionista existe resolutamente e unificadamente na forma política (não na forma de mercado) no que são apoiados por incautos trabalhadores que ao invés de pararem os seus braços na produção do valor, e deixarem de ser trabalhadores e superarem a categoria capitalista trabalho, são induzidos a sustentar a ordem política (até com partidos trabalhistas  que defendem a impossível humanização do capital), ora votando num lado e, depois, insatisfeitos, votando no outro.

Os capitalistas têm medo de qualquer pensar que se lhes oponham radicalmente àquilo que desenvolvem, por saberem dos seus privilégios mesmo que decadentes, mas não querem largar o osso.

Entretanto, adoram a participação política “civilizada” da esquerda institucional no jogo político previamente demarcado da ordem burguesa prestando-lhe legitimidade (falsa), tal como se o Ibis, o pior time do mundo, pudesse disputar a Champions League com igualdade de condições.    

Já o trabalhador não deveria nada temer, porque nada tem, mas não compreende e nem sabe como fazê-lo, e ainda se orgulha de ser trabalhador explorado e ainda dá graças a Deus por ter um emprego.  

Deveria se negar como trabalhador; negar o trabalho; negar a arapuca da democracia burguesa; negar o totalitarismo eleitoral ou militar; negar a mercadoria; e tudo isso para afirmar e recriar a vida!  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;