OS LIVROS LIBERTADOS DO PAPEL E DE LEITORES [OS MEUS LIVROS TÊM O CHEIRO E A COR DE VELHOS PROPÓSITOS REVOLUCIONÁRIOS ESQUECIDOS ]

Um ano atrás, com 12 dias de UTI, aliviado de parte incômoda das vísceras e de órgãos colaterais desnecessários, redescobri o meu quarto, as minhas coisas e as pendências esquecidas. Reconheci a obsolescência das obras da Criação: desfiz-me de de alguns componentes das entranhas insuspeitadas e deles não senti falta. Até agora.

Dos livros não penso em desfazer-me. E por fundamentadas razões.

Os livros são aqui em casa a versão não autorizada do cachorro. Seguem-me em boa companhia para onde vou, instalaram-se no quarto de casal, a chamada alcova, tão movimentada em outros tempos, e começaram e imiscuir-se pelos aposentos íntimos e pela sala de visitas (com o avanço da idade, ao invés de visitas acolhem desobrigas médicas).

Um destes dias, flagrei dois volumes no meu carro — justamente o Ulysses de Joyce e um tratado sobre Desobediência Civil, de Thoreau. O primeiro, texto árduo que venho tentando ler desde tenra idade. O segundo, fez-me sentir rejuvenescido, com a subversão que trazia estampada na cara em tempos idos, sentindo-me novamente encorajado para praticar exercícios de risco de desobediência civil…

Tratei entretanto de os esconder em lugar seguro, e o fiz com extrema prudência com o intento de escapar dos olhares perscrutadores dos técnicos em desinformação, especialidade que vem ganhando prestígio e notoriedade nestes últimos tempos carregados de gravames ideológicos.

Amigos já não indagam se os li todos. Ao fazerem a pergunta não disfarçam a inquietação: “e o que vai fazer deles?” Como se dissessem, “morrendo aonde irá parar essa livralhada inútil?”

Confesso que não sei ainda. Fui tratar do assunto com uma bibliotecária de uma instituição, destas que outrora alugavam caminhões cheios de livros como comprovação da existência de uma biblioteca perante os fiscais do MEC. A experiente senhora, vítima de outros assédios igualmente indecorosos, adiantou-se: “já não compramos livros de papel, nem recebemos doações, recorremos aos eletrônicos, asseados e não ocupam espaço, em breve esta papelada impressa estará reduzida a cinzas…”

Com receio de ser tomado por um aliciador de reprováveis intenções, calei-me. Percebi que começava a ser suspeito de atividades anti-sociais, um verdadeiro e desprezível “lesa-pátria”.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.