Os limites da convivência com os contrários

“A liberdade é defendida com discurso, e atacada com metralhadora.”

Carlos Drumond de Andrade.

Começo dizendo que o respeito dos outros para com o que dizemos, deve ser igual ao respeito que você deve ter para com o que eles pensam e dizem; deve haver reciprocidade de civilidade na divergência, o que não se confunde com passividade submissa.

Num mundo marcado por uma educação escolar e midiática que positiva o negativo, não é de se estranhar que haja um relativo consenso (deplorável) para com os conceitos equivocados do que seja o justo, o correto, o honesto, a sinceridade, a franqueza, a elegância, a moral elevada, a ética sob princípios morais igualmente elevados, e tantos outros valores humanos elogiáveis, desgraçadamente desvirtuados ou deturpados.

A verdade, que por ser sempre relativa, proporciona eventualmente relativizações e desvios de sentido, pode, infelizmente, ser manipulada.

Uma mentira repetida mil vezes pode se tornar verdade, como já pretendia Joseph Goebbels, o sinistro Ministro das Comunicações de Hitler, ao martelar nos anos 30 e 40 do século passado, pelo rádio, então o grande meio de comunicação de massa, a divulgação da mentira nazista como verdade, fato que levou o próprio povo alemão ao desastre e o mundo a um genocídio sem precedentes na história.

Os neonazistas de direita com seus conceitos obtusos e meias verdades ou mentiras inteiras construídas sob critérios altamente criticáveis e inaceitáveis, pode nos levar a comportamentos ainda mais graves, como a extinção da nossa própria espécie.

Os conceitos nazistas de superioridade ariana e futuro radioso para o povo alemão, como seu nacionalismo patriótico (ora redivivos), eram e são xenófobos e racistas, o que não nos impede de dizê-lo, mesmo correndo o risco de cometermos redundância de nexo causal pelo que já se conhece de sua história monstruosa, hoje de certa forma relativizada por energúmenos raivosos.

Tolerar a positivação de práticas e conceitos equivocados como se fossem algo civilizado é um equívoco, vez que a resposta a tais práticas e conceitos tem modos de combate que podem ser contundentes sem ser intolerantes.

O direito natural admite, corretamente, a legítima defesa da vida diante da ameaça de morte, e isto difere da lei do talião, que admitia “olho por olho e dente por dente”. Não podemos nos igualar com aquilo que combatemos como sendo desumanidade, que é conceito moral inequívoco, sob pena de nos tonarmos desumanos.

A legítima defesa somente é aceita como tal se se circunscrever ao limite necessário da defesa, o que difere da agressão extensiva do ato, que nesse caso se iguala ao ato agressor.

A humanidade não pode conviver passivamente com a agressão, seja de que tipo for. Exemplifiquemos com eventos históricos com reflexos atuais.

A União Soviética, que se pautou sempre por relações capitalistas de mercado internacional opressor entre as repúblicas integrantes do bloco do leste europeu, todas da mesma etnia eslava, terminou por se desintegrar enquanto tal, mais por exigência de mercado, do que por benevolência recíproca.

Foram as dificuldades econômicas das repúblicas eslavas do leste europeu que se tornavam um peso para a economia da Rússia, aquilo que promoveu a autonomia de tais repúblicas socialistas (e capitalistas, não esqueçamos), que assim se tornaram dependentes da economia russa, sem as obrigações derivadas da unidade anterior.

E tudo se deu sem um tiro sequer e por consenso; a queda do muro de Berlim não representou o fim do ideal comunista, mas a confirmação da ineficácia do capitalismo de estado na primeira experiência histórica de um estado pretensamente proletário.

O episódio da União Soviética, guardadas as condições históricas e contingenciais, pode ser exemplificado pela como metáfora de como se deu a libertação dos escravos negros; era melhor tê-los como homens livres para serem explorados pelo capital numa relação de mercado que promovia a circulação do dinheiro, do que mantê-los como animais de engorda para o mercado sem abate para a venda da carne, como se faz com o gado.

Entretanto, se alguma dessas repúblicas desenvolver relações mais independentes com o bloco ocidental capitalista, como aconteceu com a Ucrânia, importante país de bloco soviético anterior, ameaçando a hegemonia econômica russa, é chegada a hora da anexação territorial pela guerra genocida, como ora está a ocorrer.

A crítica à Rússia e sua guerra injustificável e genocida contra a Ucrânia, não significa, necessariamente e implicitamente, dizer-se que o bloco hegemônico capitalista do ocidente merece melhor apreciação.

Não, e o bloco ocidental capitalista tem muito sangue nas mãos! Apenas se trata da fratricida guerra concorrencial de mercado capitalista, na qual os dois atores são igualmente predatórios e segregacionistas.
Tomar partido por qualquer dos lados é, antes de qualquer coisa, facciosismo próprio a um pensamento que defende a grandeza de uns, que implica necessariamente na pequenez do outro.
Outro dia fui fazer uma palestra como convidado num seminário numa Universidade particular, dessas que veem a educação como mercadoria e fonte de lucros do capital, abordando o tema da crise do capitalismo, indicado por uma professora que desejava alargar o debate, e ao chegar me deparei como a frase-dístico que dizia: “Nós é que somos grandes!”.

Comecei dizendo que a frase era excludente na medida em que a grandeza de uns expressa no “nós é que somos”, significava implicitamente a admissão de existência de outros pequenos, e isto era inadmissível numa academia de ensino pretensamente superior.

À medida em que eu falava para uma plenária de jovens universitários, notei o constrangimento de alguns diretores que assistiam à palestra para com o conteúdo da minha abordagem geral, o que significou um veto mal disfarçado para outras palestras que restou expresso num obrigado tão constrangido quanto dissimulado.
A forma e conteúdo da civilidade das relações com os contrários, implica tolerância civilizada, mas firmeza diante da agressão própria a um sistema de exploração que se exaure pelos próprios fundamentos, e não apenas por uma ação consciente externa de ativistas, pois estes últimos devem se agregar e atuar como cunha na fissura do dique causado pelo choque entre forma e conteúdo de tal relação social predatória da vida e da ecologia, atuando conscientemente nesta realidade de forma a promover a necessária superação do que nos aflige.

Devemos dizer que o capitalismo é belicista por natureza constitutiva, e a contrariedade aos seus postulados requer firmeza de atitudes, sem que percamos a ternura jamais, como dizia Che Guevara, posto que desde o seu início teve suas relações sociais impostas pela força das armas de fogo (mais comumente militares), e sempre tratada com repressão restritiva de liberdade às posturas alternativas, além, obviamente, da doutrinação sublinear de pretensas virtudes que ora se desmancham como uma bolha de ar no espaço.
Quando você estiver procurando o norte de sua bússola contra a intolerância injusta, que costuma ser maior no volume de áudio do que no conteúdo conceitual, nunca aceite viver de joelhos; levante-se e combata, ali está o caminho a ser seguido.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;