Os governos e o mercado precisam de anestesia para operar

O presidente da República Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) terceirizou a gestão do país por oito anos a um grupo de economistas de boa formação acadêmica e de afinidade total com o mercado. O governo desastroso nesses oito anos quebrou o país. Entretanto, ele é saudado e aplaudido. Dizem que ele fez o Plano Real, que foi feito em 1993 e 1994 no governo de Itamar Franco.

Jair Messias Bolsonaro demitiu-se de suas funções presidenciais, entregando-as a quem se provasse tão incapaz quanto ele, porém leal a ele. A economia entregou a um economista capaz de tudo, um vendedor de ideias e coisas, um negociador habilidoso. “Tudo está à venda. Vendemos até o Palácio. E pagamos aluguel ao comprador”, disse em Nova Iorque, para investidores.

Lula também colocou nomes que rapidamente conquistaram a confiança do mercado. E sempre seguiu a orientação do mercado. Continua assim. Talvez tenha que ser assim mesmo. O mercado tolera o “social” do Lula, que diminui a dor dos pobres, feito anestesia.

Sim, anestesia. Esta é a palavra. Anestesia pro pessoal ficar quieto e suportar a dor, enquanto o mercado opera.

Chega a parecer natural que o mercado tenha seus desejos atendidos pelos governos. O mercado quer apenas pagar pouco tributo, receber muitos juros e portas abertas para algumas transações especiais. É praxe que os presidentes façam este atendimento discretamente. Aí tem que buscar a contrapartida, o que muitos chamam de cortar gastos. Isso cai no lombo das maiorias silentes. Uma crueldade.

A crueldade que esta simbiose traz é sutil, atinge trabalhadores e aposentados através do bolso, um torniquete que se aperta de tempos em tempos e se dilui entre gentes sem voz. A imprensa e o Parlamento também ajudam com a anestesia.

Um exemplo fresquinho: a aposentadoria de velhinhos e velhinhas.

Fernando Henrique Cardoso decidiu que poderia cortar até trinta por cento da graninha safada dos aposentados. Criou para isso o “fator previdenciário”, é que as pessoas estavam demorando a morrer. Com anestesia a dor do corte foi suportada. Era tudo pelo bem do país, para salvar o Tesouro.

Depois, encontrou outra forma de ferrar a aposentadoria da velharada: mudar a forma de calcular o benefício. Bastou excluir as contribuições anteriores ao Plano Real. Como assim? Por que? Quem se importa? Quase ninguém. Mais anestesia.

Fiquem quietinhos, seus velhos vagabundos! *

Aposentadorias cortadas quase pela metade em muitos casos. Começou uma luta pelo direito dos idosos, no outono de suas vidas, no auge da sua fragilidade. Era um apelo, chamaram de “revisão da vida toda”. Os velhinhos e as velhinhas recorreram à Justiça. E, óbvio, por força da lei e do sentimento de justiça, foram ganhando decisões favoráveis. Inclusive no Supremo Tribunal Federal. A injustiça seria reparada depois de anos de luta nos tribunais.

Algo aconteceu, talvez alguém virou as cartas ou virou a mesa. O fato é que o jogo mudou. Supremo Tribunal Federal muda alguns membros (dois indicados do Bolsonaro, dois do Lula). Eles estão agora juntos e unidos na mesma interpretação. E a suprema corte muda de análise, muda de posição, muda a decisão e muda tudo. Questão de interpretação, o juiz tem direito a seguir sua convicção. A Lei é a mesma, muda a interpretação, muda a convicção. De velha, a “revisão da vida toda” teve morte decretada e será enterrada.

Acabou a festa e a farra dessa gente velha. Fim da esperança? Nem a esperança pode ficar? Indignação…

Ora, ora, ora. Anestesia.

Tamanho da festa, tamanho da farra, segundo o governo popular de Luís Inácio Lula da Silva, que trouxe tanta esperança: quatrocentos e oitenta bilhões de reais, até três milhões de pessoas, calculados por anos até a morte. Olhem bem para estes números, eles dão a dimensão da crueldade. Quando o governo quer inflar um número, faz a projeção por 30, por 40 anos, ou 60. A grana é escandalosa, certa ou errada a conta.

É tanto dinheiro que até Deus duvida. O Tesouro não pode pagar, claro. Mas, por que pagar duas vezes? A velharada já pagou, está pagando e vai continuar pagando mês a mês, até morrer de vez.

Mais anestesia, por favor.

E cadê a esperança que estava aqui?

(Ó ex-presidente FHC usou esta palavra – vagabundo – ao se referir a aposentados que questionaram suas medidas)

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.