OS BURROCRATAS DA UNIVERSIDADE EM TEMPOS DE OGROMIA

 Advirto, antes de iniciar o texto, que os neologismos utilizados aqui são para forçar os ogromontes a buscarem o dicionário ao vivo, em tempo real (on line) ou a enciclopédia da preguiça (wikipedia), quando se esgotarem as explicações e xingamentos dos grupos de mentiras propagadas (fake News).

Vivencio a Universidade Pública brasileira desde os tempos de estudante, no final da ditadura militar, na década de 80. Naquele tempo, as convocações para atos democráticos eram feitas por filipetas e cartazes espalhados, afixados em locais públicos, por faixas, carros de som, e o boca a boca, que tem uma função maravilhosa que é beijar. Pois bem, beijar é um ato de amor e de desejo que começa no cérebro, passa pelo coração e desce a espinha dorsal até o ventre, que faz tremerem as pernas quando movido pelo encantamento.

Nas manifestações de rua, quando os estudantes definiam os destinos da sua geração na base do enfrentamento ao sistema podre dos torturadores e dos sociopatas que se refestelavam arrancando unhas, a sangue frio com alicate de afrouxar parafuso, choque nas vaginas e nos testículos para gozarem pela masturbação mental e, muitas vezes, sexual, quando ao praticarem a tortura, seus anus e seus pênis exultavam prazer. Freud não explica. Isso, o passado revelou que tipo de gente vestia farda ou estava a serviço das fardas ou do dinheiro e poder que isso representava.

Então vamos falar de hoje. Pois naquele tempo a universidade foi resistência e iniciou uma recuperação da Ciência e das Humanidades num nível de excelência pouco visto na história do Brasil.

Depois do expansionismo dos anos 2000, quando as universidades federais se espalharam e chegaram às cidades do interior brasileiro, lugares esquecidos e até merecedores de potencializar as virtudes do seu povo, com um incremento fenomenal da educação superior, viram seus filhos ingressarem na universidade pública. Que coisa maravilhosa!

Estranhamente, o ensino privado cresceu num ritmo de coceira em macaco, como diria minha avó. Os mercadinhos, shoppings, casas de jogos, templos religiosos, terrenos baldios que podiam se transformar em faculdades, iniciaram suas atividades com promoções de feira. “Faça sua graduação pelo menor preço e ganhe 50% de desconto na sua pós”; “Duas graduações pelo preço de uma”; “Agora vai ter medicina, menor preço da região”; “Aqui realizamos seu sonho de ter um diploma”; “Pra que Federal se nós temos a X, pertinho de você”. Esses e outros chavões da picaretagem foram difundidos em larga escala. Evidentemente que esses chavões são paráfrases irônicas do que se transformou o ensino privada brasileiro. E levaram milhares de jovens a concluírem cursos que não preparavam para o mercado de trabalho. Há exceções? Claro que há, raras e ralas, mas as hão.

Voltemos para dentro da Universidade Pública. E por que escrevo em iniciais maiúsculas. Ora, porque são maiúsculas em essência. Em produção, em patentes, em mão de obra competente e qualificada, em tudo, os números estão aí para comparação entre pública e privada. Ocorre que, com a chegada da ogrolagem ao poder, as escolhas para os cargos de direção das instituições públicas passaram a ser feitas desrespeitando as votações dos candidatos nas listas tríplices.

Como funcionava? O candidato mais votado, por respeito à democracia e aos votos da comunidade universitária, era confirmado como vencedor da eleição e o presidente só respaldava seu nome. Na bozosfera ogrolítica não se respeita mais a vontade da comunidade que escolheu seus representantes. O plantonista, deliberadamente, escolhe o menos votado ou o aliado, para causar desconforto, intrigas e mal-estar dentro das instituições. Quem convive com esses tipos surgidos da clerezia rebaixada na política por inercia ou incompetência, sabe como se apegam à burocracia e aos cargos que exigem cada vez mais reuniões, comissões e emissões de certidões para salvar os que não produzem na hora de contar pontos para as suas ascensões funcionais. Quem produz não liga para isso, porque está mais preocupado com a leitura, a escrita, o diálogo, a produção do conhecimento e da pátria livre destes coprólitos improdutivos.

Que nos salvem os Aurélio, Houaiss ou Michaelis (cá pra nós, Miguel) e os Machado, Alencar, Rosa, Drummond, Lispector, Meireles (Ela. Não é aquele do dinheiro), Jesus (todas elas), Teles, Ramos… E os Jesus, Buda, Maomé, Krishna, Tupã, Exus…

 

Fonte da imagem:  https://medium.com

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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