O TOTALITARISMO, RITUAL DE PODER EM CONSTANTE ADAPTAÇÃO

O ritualismo nazista alimentou-se das tradições religiosas católicas e de uma ideologia, originariamente de esquerda — e da condenação dos judeus. Chegados ao poder, com apoio nos exércitos civis de “stormtroops”, fortalecidos pela tolerância e pela fragilidade do sistema democrático, os nazistas impõem os mecanismos próprios de domínio do poder do Estado. A mitologia germânica é outro repositório dos grandiosos festins da divindade e da inesgotável reserva acumulada de fastos heróicos.

O livro — Mein Kampft — escrito durante a breve prisão de Hitler, é uma autobiografia fantasiosa que serviu de manual e bula para a propagação do ideário nazista.

Hitler foi produto de um clima de revolta contra o Tratado de Versalhes, expoente da exaltação de grupos radicais de esquerda e de direita e da enorme multidão de desempregados cujos empregos desapareceram nas águas do tratado de Versalhes. Nos começos, à falta de cultura política, Hitler abraçara algumas ideias socialistas originárias. Depois deixou-se seduzir pelo fascismo de Mussolini. E fez da extinção dos judeus ideologia e cometimento das razões superiores do Estado.

Como foi possível Hitler, um soldado sem qualidades comprovadas, apesar de uma cruz de ferro, a lutar para não ser dispensado do exército em desencorporação que o levaria ao desemprego, tornar-se “fuhrer”?

Não foram poucas as circunstância que desencadeariam uma progressiva inquietação popular e a ideia persistente de que era possível à Alemanha e aos alemães serem grande potência, novamente. O ambiente social e político, em subversão descontrolada, o pesado cenário pós-Versalhes, foram-se montando sob a pressão do desemprego, da expansão das ações autoritárias de esquerda e de direita, da imprensa com enorme força de penetração na sociedade alemã, pela exaltação da voz pelo rádio e pelos jornais cinematográficos, pelo gosto pelas fanfarras e pelos desfiles patrióticos e pelas reuniões nas cervejarias, pela exaltação dos “fuhrerkorps”, das SAs, “stormtroops” de confrontação ideológica nas ruas das grandes cidades da Baviera.

Dos impulsos que levaram Hitler à primeira cena em meio à enorme insatisfação e revolta dos alemães, o principal foi o Tratado de Versalhes e os seus efeitos trágicos sobre um país em chamas. À valorização das perdas de guerra e o sonho de recuperação do passado de riqueza e glórias militares, somaram-se ideologias de ocasião e a certeza da reconquista do respeito dos tempos de grandeza da velha Germânia.

Os judeus entram nesta receita trágica do Holocausto como entendimento equivocado de reduções políticas e étnicas e pelos registros das Escrituras, por demais simplistas e reducionistas. Falam por eles o prestígio da elite judaica nos principais países europeus. O seu poder e endinheiramento, pela inteligência e projeção nas finanças, nas artes, na literatura, na ciência e na política…

As razões mais profundas que teriam modelado a cabeça do cabo Adolpho estavam nos textos do Velho Testamento, nas virtudes exaltadas pela cultura do Talmud: a lealdade, a ideia de reciprocidade, a visão de uma filiação incontestável a Geová, como “povo eleito de Deus”… Movimentos revolucionários, como o nazismo ou o comunismo, não se constroem sem a designação prévia de um inimigo a dar combate e a vencer.

Como líder político de massas, Adolpho dotado de carisma sedutor, teve, por obra e força do controle da opinião, a simpatia da burguesia, do povo, da classe trabalhadora e a tolerância dos militares, a indulgência de juízes e da magistratura.

Condenado por crime de traição em tribunal em Munique, recebeu surpreendentemente leve pena de cinco anos de prisão, tendo sido libertado em seis meses, como previsto na sentença que poupará o réu das penalidades de praxe. Nestes casos de traição, objeto de penas e castigos bem mais severos, seis meses de recolhimento parecem medida frouxa e condescendente, dada a gravidade do crime de que era acusado. A condenação do agitador das ruas de Munique decorreu da tentativa de “putch” contra a ordem legal, designação outrora dispensada aos movimentos de tomada do poder do Estado. Deste gestual insurrecional diz-se hoje — “golpe”. Era uma denúncia grave, cujas consequências foram, entretanto, atenuadas, dada a simpatia dos juízes que deram a sentença final em um julgamento no qual eram ouvidas manifestações de aplauso e apoio ao cabo Adolf Hitler, futuro Chanceler da Alemanha e o seu “fuhrer”.

Hitler, como Mussolini, não foram lideranças firmadas pela força das armas, tão somente. Os agitadores e militantes de causas extremas transitaram, na sua maioria, com a sua agitação verbal pelos “meetings” e pelo recolhimento privado, nas marchas patrióticas e dos banhos de rua e de povo. Todos ou quase todos passaram pela polícia, receberam condenações e a indulgência do poder que buscavam tomar de assalto. Em favor de Mussolini, lembre-se a cultura que faltava ao cabo Adolpho.

O III Reich foi tolerado na Europa, fez-se aliado do governo soviético e foi tratado com branda indulgência pelos americanos. Churchill foi o único a farejar os perigos de uma Alemanha rearmada pelo totalitarismo, realidade e prenúncio que a Europa e os americanos não quiseram enxergar. Os Estados Unidos só entrariam em guerra provocados em Pearl Harbor, pelos japoneses, com a perda da esquadra do Pacífico. Não pelos alemães…

Não esquecer que, paradoxalmente, Hitler chegou ao poder pelo voto, em uma democracia que ele destruiria com as próprias mãos e com a dialética explosiva construída em um momento trágico, no quadro de angústias e desespero dos alemães vencidos em 1945.

O nazismo, como o populismo e o socialismo, seja qual for a denominação que se dê ao bolchevismo neste tabuleiro de ideologias dissimuladas, efeito da manipulação política do seu autoritarismo de raiz, já não usam as velhas táticas de assalto armado do poder do Estado. Deixaram de ser Trotsky para transformarem-se em Gramsci… Esqueceram Luiz Carlos Prestes para tornarem-se Paulo Freyre…

O projeto político destes novos tempos é o resultado, a suma fechada da indulgência e da destruição estratégica dos costumes e da cultura do povo, da fragilização da estrutura familiar, trabalho pertinaz obrado pelas omissões de um frágil política educacional, pela construção teórica de intelectuais orgânicos e pelo controle das fontes de informação exercido pelos funcionários de setores-chave de governos aparentemente “democratas” e democráticos…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.