O SENHOR DOS PASSOS – Duarte Dias

 

As mãos envoltas em ataduras conduzem o cinzel em gestos precisos e violentos contra a pedra tosca, façanha sobremodo impressionante, principalmente se levada em conta a pouca visibilidade no interior da tenda. 

É noite, turno no qual ele se habituara a trabalhar por livre opção, mas também por necessidade; custava-lhe muito ter que aturar os olhares curiosos e por vezes condenatórios que lhe eram dirigidos por estranhos em função de sua deformidade física. A noite – assim como as grandes tendas que mandava levantar nessas ocasiões -, agia como uma espécie de manto protetor, principalmente quando os trabalhos tinham que ser realizados em espaços públicos, como era o caso daquele conjunto de esculturas no pátio da igreja.

“Atente, meu filho: a solidão do artista é a sua melhor companheira. É dela que nasce o contato com aquilo que lhe é mais íntimo, mesmo que sejam seus próprios demônios. Nisso reside nossa fortaleza: confrontar e superar, na escuridão infinita de nossa alma, aquilo que é capaz de nos atormentar a existência.”, diz ele, um homem já na casa dos 50 anos de idade.

Atento ao trabalho do homem que o chamou de filho, o jovem ao lado permanece em respeitoso silêncio, observando atentamente a destreza com a qual as mãos calejadas daquele mestre debastam a rocha milenar.

“Outra coisa que você não pode esquecer, meu filho: o verdadeiro legado de um artista está na sua obra, não em sua vida. Isso porque a obra é permanente, eterna, enquanto a vida é circunstancial, sujeita a falhas e excessos. É na obra feita que reside nossa essência e nossa verdade; o resto é como essas lascas de pedra que agora caem ao chão e que só servem para encobrir aquilo que de fato importa.”

Prossegue o homem: “Esse ensinamento vale para tudo, mas é preciso estar atento a certas diferenças. Veja só o caso desse pobre alferes, que logo após o enforcamento teve o corpo destroçado e espalhado por vários lugares. Muitos hão de pensar – como pensam seus executores – que sua vida foi sua obra, dadas suas atitudes pessoais de afronta ao reino. Logo, finda a vida, não haverá mais o que temer daquele homem, morto que está em definitivo. Pura ilusão: sua obra, na verdade, foram as ideias que disseminou em vida, e essas, se forem fortes o suficiente, não haverão de sucumbir como sucumbiu seu corpo.”

O jovem, olhando diretamente para o mestre e como que tomando coragem diante de suas palavras, se expõe com um brilho nos olhos: “O senhor o conhecia?”

“O enforcado? Não.”, responde o homem, após um breve silêncio. “Mas gostaria de tê-lo conhecido. Não só por termos quase a mesma idade, o que naturalmente já nos torna próximos, mas porque parecia alguém que realmente acreditava no que dizia, fiel a ponto de dar a si mesmo em sacrifício por sua causa. Pessoas assim são muito difíceis de encontrar, acredite.”

Com o suor a lhe escorrer pela testa escura e a respiração ofegante, o homem prossegue em seu martelar incessante, arrancando lascas crescentes da pedra inerte. “A tragédia que se abateu sobre ele, infelizmente, foi resultado da natureza de sua atividade: quando se atua no campo estrito das ideias, é preciso torná-las claras e evidentes, o que quase sempre implica em confrontos diretos e por vezes violentos com aqueles que possuem ideias contrárias. É um pouco diferente da arte, que tem a vantagem de poder dizer sem dizer.”

“Como assim, dizer sem dizer?”, pergunta o jovem, curioso.

“A arte, apesar de também expressar ideias, possui diversas maneiras de fazer isso, não lhe sendo necessário ser tão óbvia ou direta. Veja as grandes catedrais. Poucos fiéis se dão conta de que a beleza de suas formas, concebida por refinados mestres construtores e escultores ao longo dos tempos, representam ideias que contrapõem a glória divina aos prazeres terrenos. Existe alguma outra ideia tão radical dita de forma mais poética e ao mesmo tempo cifrada do que essa?”

Percebendo a dúvida no olhar do rapaz, o homem continua: “Essa estátua que estou esculpindo, por exemplo. Apesar de ser uma encomenda, ninguém sabe, a não ser eu, o que será revelado por esse bloco de pedra.”

“Não é o santo que o padre pediu?” 

O homem sorri. “Não. Será uma ideia que utilizará a forma de um santo, mas não um santo.”, diz, enquanto observa a expressão de dúvida do rapaz aumentar. “O que quero dizer é que, de fato, o padre terá o seu santo, mas a ideia por trás desse santo, aquilo que estará para além da sua representação, essa será minha, e é provável que o padre nunca venha a saber do que se trata. É nesse ponto que reside a essência de uma obra e, principalmente, o poder da arte, mesmo quando feita sob encomenda. Ou debaixo de chicotes. Entende?”

O jovem, sem muita convicção, assenta com a cabeça, o que faz com que o homem dê uma sonora gargalhada. 

“Por favor, pegue o cinzel mais afiado para mim. Está na hora de delinear os traços.”, diz o homem, enquanto envolve as mãos deformadas em novas ataduras. “A noite está só começando.”

 

 

 

  

 

 

Duarte Dias

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador, fotógrafo, cantor e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum, "Jardim do Invento" (https://goo.gl/Ha3mZh), em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, atualmente desempenha as funções de programador e curador do cinema do Cineteatro São Luiz e de Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

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