O QUE SEI SOBRE A CHACINA DE CAJAZEIRAS, por Eduardo Fontenele

A violência anda incontrolável na capital alencarina. E não pensem que é só na periferia, a situação está calamitosa até em bairros ditos nobres. Para quem não sabe, eu não moro na periferia, mas não me considero superior a ninguém por gozar de alguns privilégios e suposta segurança inerentes à classe média.

Outro dia, testemunhei um assalto a uma casa na rua atrás do meu prédio. Em pleno sábado à tarde, ouvi de meu quarto gritos de “Pega ladrão!” Corri e olhei pela janela, então surpreendi o bandido correndo feito um gato desgarrado sobre os telhados das casas, enquanto uma mulher gritava, tentando alertar a vizinhança sobre o marginal. O sujeito conseguiu escapar ileso.

Neste último final de semana, o mundo do crime mais uma vez conseguiu nos surpreender com uma ação digna dos massacres que ocorrem com frequência em países que são alvos costumeiros do terrorismo, como os Estados Unidos.

Tomei conhecimento dos fatos quando fui fazer uma visita ao trabalho de Laila Coelho, minha namorada, no final de semana passado, no início da noite. Ao chegar ao local, ela foi logo me alertando de que havia ocorrido o primeiro ataque terrorista do Ceará, e do Brasil, durante a madrugada. Estranhei, pois esperaria algo desta magnitude em capitais de maior expressão econômica e política, como São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília. Ela me contou que os possíveis responsáveis seriam facções criminosas rivais em disputa, talvez por algum ponto de drogas, por território ou por vingança.

As facções rivais são os Guardiões do Estado (GDE) e o Comando Vermelho (CV). O GDE possui apoio do Primeiro Comando da Capital (PCC). O CV nasceu em 1979, no Rio, e o PCC nasceu em São Paulo, na década de 90 do século passado, influenciado pelo CV. Foram aliados no passado, há quase duas décadas, mas passaram a divergir e entraram em disputa pela liderança nos presídios e no tráfico de drogas. São as duas maiores organizações criminosas do país. O GDE foi fundado em Fortaleza há dois anos, no bairro Conjunto Palmeiras, como uma torcida organizada de futebol, e se envolveu com o tráfico para financiar suas atividades, logo se tornou uma gangue do bairro. Depois veio a lavagem de dinheiro. O GDE também ganhou força nos presídios em 2017.

Por volta de 00h30 (1h30 no horário de Brasília), na casa de show Forró do Gado, local da tragédia, localizada no bairro Cajazeiras, na rua Madre Tereza de Calcutá, na periferia da cidade, costumeiramente frequentada por integrantes do Comando Vermelho, um grupo de homens fortemente armados com pistolas e fuzis, e protegidos por coletes, chegaram em três carros, desceram dos veículos e começaram a disparar tiros indiscriminadamente.

Até um vendedor de cachorros-quentes, que se encontrava em frente da casa de forró, foi morto sem piedade – ele se chamava Antônio José Dias de Oliveira, de 55 anos. O filho da vítima, de 12 anos, que o acompanhava, sobreviveu, tendo recebido apenas um tiro de raspão na perna. Também foi morto um motorista do aplicativo Uber que se encontrava no local. O saldo foi de 14 mortos, entre eles 8 mulheres e 6 homens. Além de 10 feridos, entre eles três adolescentes de 16 anos. Duas vítimas estão em estado grave.

O governador Camilo Santana, do PT, em seu perfil no Facebook, classificou o massacre como “ato selvagem e inaceitável”. Ele foi acusado de ter perdido o controle sobre a segurança pública do Estado. Camilo anunciou medidas de combate às facções que atuam no Ceará. Uma delas será a criação de um grupo especializado de combate ao crime organizado pertencente à Polícia Federal no Estado, para fortalecer as investigações sobre vários tipos de crimes, como tráfico de armas e drogas, além de proteção de fronteiras.

Outros desdobramentos da chacina ocorreram, como as mortes na cadeia pública superlotada de Itapajé, município que fica a 125 km de Fortaleza, com 10 mortos. O novo massacre também teve participação do CV e do PCC.

O Ceará registrou 5.134 assassinatos em 2017, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública, 50,7% a mais do que os 3.407 ocorridos em 2016. Segundo dados publicados em 30/01/2018 no site da revista Carta Capital, uma ONG mexicana, a Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, ranking do ano de 2016 considera Fortaleza a 35ª cidade mais violenta do mundo. O Brasil é o país mais citado no ranking por ser o detentor da maior quantidade de cidades presentes em destaque na lista das cinquenta mais violentas do mundo, com 19 municípios entre os destaques da lista.

Ao que parece, a disputa pelo controle do crime organizado no Estado do Ceará ainda deve render muita dor de cabeça para as autoridades e muito terror para a população.

Que saudade dos gatunos pés-de-chinelo que invadiam nossa casa para furtar um simples celular e depois fugiam marotamente pelo telhado sem nos causar nenhum dano maior, a não ser o desgosto de um pequeno e remediável prejuízo.

Dos males, o menor.

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele formou-se em jornalismo pela Devry Fanor em 2016, publicou o livro de contos Abstrações em 2017 e é administrador dos blogs Drops de Filmes e Pensando desde 1978.

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