O QUE DISTINGUE A OPINIÃO DO FATO?

As voltas que o mundo dá.

Os desvios da mídia mostram-se na confrontação com a Opinião e a mentira. O duelo atroz para as consciências limpas entre “fake” “a true”.

Outrora, os jornais seguiam a construção lógica das “leads” importadas diretamente do jornalismo americano e do “new journalism” do qual brotariam formas anômalas de deformação da verdade, sob a dissimulação da ficção e do chamado jornalismo “ investigativo”.

As notícias traziam os fatos do cotidiano ou a sua omissão, que os interesses sempre se impuseram à mídia, desde tempos imemoriais.

Ao tempo da imprensa “ten cents”, o preço do jornal nas bancas, este era o meio mais eficiente e de maior alcance midiático, até então conhecido. O rádio e a tevê viriam com o desenvolvimento das tecnologias aplicadas à informação, com a sua linguagem e o seu público. E a sua mobilidade ética.

As notícias amparavam o contexto no qual as redações produziam os “editoriais”. Neles, a Opinião do jornal se apresentava, com as nuances que as conveniências ditassem.

As notícias eram por esse tempo, embora não estivessem a salvo de fundadas suspeitas, a “representação” real dos fatos e eventos cotidianos. O editorial, a sua “interpretação”, guardada a compostura do respeito pela verdade, nos limites das regras éticas seguidas pela empresa, pelas relações com os anunciantes e com outras fontes importantes de financiamento operacional do jornal, até mesmo as do Estado.

Na hierarquia jornalística, destacavam-se os empresários e administradoras da empresa, um secretário e editorialistas, que interpretavam os fatos e davam-lhe um certo reflexo da realidade. E os repórteres, que colhiam as ocorrências, davam-lhe forma e conteúdo e o conteúdo impressionista pelo qual aguardavam os leitores.

O influência do jornal sobre a elaboração de uma certa visão da sociedade e dos seus problemas desenhava a realidade construída, assim servida aos leitores.

O editorial, de autoria anônima, porém fácil de reconhecer, era a referência essencial da posição do jornal.

As coisas parecem ter mudado no rádio e na tevê e, até mesmo, em relação à audiência. Talvez pelas imposições dos novos meios de informação, desobrigados que estão da palavra impressa, já agora virtualmente registradas e, em um certo sentido, livrado de compromissos permanentes com a verdade.

O repórter, em estrita obediência a uma pauta prévia ou por iniciativa própria, apropria-se da realidade do cotidiano que deveria registrar, e dá-lhes as conotações “sponte sua”, para transformar o fato observado em matéria controversa. Comenta o que deveria ser objeto de observação honesta, e subordina, por fim, o fato à leitura pré-construída e elaborada. A realidade é a que ressalta das suas preferências e conveniências ideológicas, se a tanto chega a capacidade do seu aparato cognitivo.

O editor exerce uma tarefa delicada: a adaptação da realidade produzida pela reportagem à realidade que ele pretende deixar construída no seu texto. O editor não é um repórter, tampouco um comentarista, é parte judicante no processo de reconstrução do real nos espaços editoriais do jornal.

Dá para lembrar Umberto Eco, em romance recente — “Número Zero” — a história mirabolante da elaboração do primeiro número de um jornal que jamais é circularia. A força das injunções, os interesses, as conveniências, o financiamento, que sem dinheiro e capital, muito sabiamente, um jornal (como as redes sociais, o rádio e a tevê) não forma consciência política a ser refletida no seu noticiário e no editorial. Debatendo-se com a mentira e a verdade, sob a pressão de interesses incontroláveis, o jornal de “Número Zero” mantém-se inédito…

O que mais sobressai e choca, neste quadro aqui sumariamente desenhado, é a condição atribuída à mídia, ainda hoje, de guardiã das liberdades públicas e privadas — e da democracia.

Certamente, não faltam as exceções, cuja função lógica está precisamente no que afirma e confirma a regra. A verdade impõe-se na justa medida em que produz o seu contrário — a mentira.

Deste consenso cego ou intencionalmente bem cuidado, saem estranhos experimentos institucionais: o reconhecimento de assédios totalitários e o legalismo que tolhe a justiça e confina as leis no território autoritário de uma nova democracia relativa, demasiadamente relativa.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.