O PT, entre militantes e profissionais, por Emanuel Freitas

No dia em que Camilo Santana (PT) foi oficializado, sob as imagens de Ciro Gomes (PDT) e Lula (PT), como candidato à reeleição ao governo do Ceará, a militância petista ligada à deputada federal Luizianne Lins distribuiu, no ginásio onde o evento ocorria, adesivos onde se lia: “Eu nisso não voto!”. Para não deixar dúvidas de que referia-se ao senador Eunício Oliveira (MDB), candidato à reeleição, as cores do MDB (verde e amarelo) ilustravam o adesivo, que era complementando com uma frase que tornou-se símbolo da resistência petista: “xô golpista”.

Contudo, em sua primeira vinda ao Ceará- no último dia 31 de agosto-, ainda na condição de vice-candidato-candidato-a-cabeça-de-chapa, Fernando Haddad (PT) tratou de encontrar-se com o senador emedebista e, para desagrado (ou não) da militância, não apenas posou para foto com Eunício, o “golpista”, como colou adesivo do candidato em sua blusa, do lado esquerdo do peito. O fato, ao que parece, passou batido pela militância; mas eis que, desde a última quarta-feira (13/09), quando Haddad, já na condição de “cabeça de chapa”, declarou abertamente seu apoio à candidatura de Eunício, as redes sociais deram corpo a uma guerrilha virtual entre os militantes e eleitores cobrando postura de coerência por parte dos petistas, que tanto denunciaram/denunciam os “golpistas”, dentre os quais lista-se Eunício Oliveira.

Ora, Haddad, como se sabe, e ele mesmo faz questão de salientar, não dá um passo sem o aval de Lula, que orquestra os movimentos do PT para lá e para cá; a aliança com o “golpista” Eunício (e com outros, como Calheiros) não passou sem aval de Curitiba. Os que acompanham atentamente os movimentos da classe política sabem que, não fosse o fato de estar preso, Lula estaria fazendo os mesmos movimentos e, quem sabe, cercado pelo apoio do “centrão”. Lula é um “profissional” do jogo político.

A literatura da Ciência Política nos ensina como, à medida em que conquistam postos de comando, os representantes, movidos pela “ética da responsabilidade”, pensam nos mecanismos através dos quais podem “sobreviver” no jogo político, como “profissionais”, afastando-se, assim, dos representados (a militância, em especial), que, movendo-se pela “ética da convicção” e desconhecendo os movimentos da realpolitik, apostam na crítica acirrada e nas radicalizações próprias a quem não está no bureau. Enquanto estes olham para a política como ela deveria ser, seus líderes olham-na como ela é. Penso aqui em Weber, Michels e Maquiavel.

Foi assim que Haddad, candidato a presidente também candidato-a-tornar-se-um-profissional-do-jogo, justificou seu apoio a Eunício: “há uma realinhamento de forças”, do qual o PT, caso volte ao poder, precisa para “implantar o programa de Lula”. Ou seja, Lula-Haddad, ou Haddad-Lula, sabe (ou sabem) que, muito provavelmente, o senador cearense será reeleito e, uma vez nessa condição, poderá ser reconduzido à presidência da Casa, sendo ator importante para a agenda do governo petista, caso seja vitorioso. Aliás, Ciro Gomes também deve saber disso: sua eventual vitória exigirá um “dar as mãos” ao senador, mas por ora é bom parecer ser seu opositor. Haddad, pois, como ator do jogo, sabe muito mais do que a militância que Eunício – o senador com mais votos do que o governador eleito (em 2010), e que tem uma coligação inteira de candidatos a deputado (federal e estadual) apresentando-se como “seus” candidatos – é imprescindível para o futuro governo. Mas, que a militância continue a vociferar contra os movimentos dos profissionais pois, sem isso, a política será sempre mais do mesmo.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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