O presidiário – por CAPABLANCA

Ele deveria estar destruído. O normal é que ele tivesse desabado emocionalmente. O esperado era que ele entrasse em depressão e adoecesse gravemente. A cadeia não é coisa civilizada para seres humanos não-violentos.  Supunha-se que ele fosse naturalmente isolado, imediatamente esquecido e abandonado por amigos e por nem tão amigos, até porque que foi preso numa cidade que não era a sua, onde nunca viveu. Enfim, os prognósticos eram os piores. Afinal, ele é um homem de mais de setenta anos e a imprensa repetiu à exaustão toda notícia a ele desfavorável nas primeiras páginas de jornais e revistas, no horário nobre da televisão nas redes de rádio e nas redes eletrônicas por dias seguidos, semanas, meses, anos. Pouca gente foi tão duramente noticiada, analisada, criticada, ofendida, chama de ladrão, bandido, criminoso.

Estranhamente nada disso aconteceu, ele está firme e forte na prisão, continua altivo. Não foi isolado, não foi esquecido. Os amigos vão visitá-lo. Adversários vão visitá-lo. Uma centena ou mais de pessoas fazem vigília perto da cadeia háa mais de um ano. Gente do estrangeiro vem ao Brasil para conversar com ele. Dizem que o próprio Papa Francisco mandou-lhe um livro com uma mensagem em forma de dedicatória. Depois o Papa mandou uma carta, para que não houvesse dúvida, escrevendo “a verdade vencerá”. Um ganhador do Prêmio Nobel da Paz foi vê-lo. Ex-presidentes e ex-primeiros-ministros de dezenas de países também, assim como intelectuais, artistas…Dizem que ele foi indicado para disputar o Nobel da Paz deste ano. E dizem que uma lista de adesão e apoio ao seu nome na internet já está passou de 250 mil nomes. Membros do Parlamento Europeu e do Congresso dos Estados Unidos fizeram pronunciamentos e assinaram petições em seu favor. Saiu no jornal que até a Organização das Nações Unidas recomendou aos poderes constituídos do país que lhe devolvessem seus direitos políticos e humanos, e que lhe permitissem participar da vida política.

De que fibra é feito este homem, o que faz desse presidiário alguém tão especialmente estranho, capaz de suportar tamanha queda? Lembrem que esse presidiário foi poderoso, poderosíssimo. E por muito tempo. Foi prestigiado e elogiado aqui, ali e além das fronteiras, por gente muito, muito mais poderosa que ele. Esta é sua segunda prisão. Na primeira vez foi detido por militares que estavam no poder. Desta vez, os militares não agiram para prendê-lo, agiram só para condená-lo e para que não o soltem. Dizem que ele não negocia sua liberdade – não aceita prisão domiciliar com tornozeleira e não abandona suas convicções políticas. Fato é que as regras jurídicas foram “interpretadas” e “flexibilizadas” para condená-lo rapidamente, em processos “acelerados”, por causa de efeitos eleitorais.

Não bastasse prendê-lo, fizeram dele bode expiatório dos problemas atuais do país (e olha que ele deixou o poder já faz nove anos e meio e seu partido não governa desde 2015).

O presidiário insiste em resistir e desmontar as expectativas negativas. Dizem alguns que o presente e o futuro do país ficaram em parte presos com ele. Dizem também aqueles que o visitam que, mesmo lá dentro da prisão, ele se sente livre. E dizem que os que o botaram na cadeia já não se sentem tão livres, e não dormem direito. E temem.

Há também os que afirmam que ele é mesmo um predestinado. E vai virar mártir ou herói.

 

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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