“O ÓDIO NÃO PODE SER DESPERDIÇADO.” ¹

“Os pombos, como os ratos, as baratas, as formigas e os cupins (…) permanecerão quando afinal as bactérias acabarem conosco.” ²

 

UM HYUNDAI HB20 HATCH, PRETO, VINDO PELA RÚBIA SAMPAIO em trajetória que sugere ser a Bezerra de Menezes o próximo destino, avança, sem a devida observância a regras básicas de trânsito, sobre o largo leito da Domingos Olímpio, com duplo sentido de direção, seis pistas de rolamento – três pra lá e três pra cá, duas das quais reservadas ao tráfego exclusivo de ônibus –, em horário de baixo fluxo, no meio da tarde de sábado, e abalroa violentamente na altura da roda traseira, lado esquerdo, do Ecosport cinza-claro que trafega pela faixa interna porquanto, mais adiante, dobraria à esquerda para alcançar a José Jatahy, mas, pelos efeitos do impacto, rodopia sobre o asfalto escorregadio – choveu até bem pouco tempo – e para em posição contrária ao fluxo normal da via, com uma das rodas traseiras sobre a guia do canteiro central.

O HB20 Hatch preto arranca ferozmente e foge do local do acidente em alta velocidade, pondo em risco a vida de curiosos que já se aglomeram na calçada frontal, entre a agência lotérica da esquina e um barzinho cuja freguesia já apresenta marcas indeléveis dos efeitos danosos do vício da embriaguez, deixando para trás a terça parte do para-choque dianteiro com a placa intacta.

Eu, condutor do Ecosport cinza-claro, esforçando-me para manter a calma, mas sentindo a esquisita sensação de que o mundo ainda gira em meu entorno, desço do carro, avalio ligeiramente os estragos causados pela colisão e certifico-me de que se restringiam a danos materiais apenas. Um senhor de meia idade se aproxima e, querendo saber de mim, do que eu sentia – Estou bem. Graças a Deus, nada sofri. O cinto de segurança e o volante me protegeram contra o pior. Eu acho que foi isso que eu disse. –, aconselha-me a ligar para a Polícia – Trata-se de carro roubado! Pode ter certeza disso. – e me entrega o que sobrou do para-choque do HB20, com a placa, que eu guardo no bagageiro interno do carro.

Sinto-me só. Temo pelo pior. A situação não se me mostra favorável. Pressinto algo que me incomoda. Não sei bem o quê. Invade-me a sensação de vazio no peito. Uma angústia kierkegaardiana espreita-me de perto e eu a vislumbro em posição de ataque. Antes que tudo isso evolua e me ponha fora de combate, reajo. Ando, firme e resoluto, de um lado para o outro, como se procurasse um valioso objeto perdido. E isso me reanima. Esquadrinho o espaço em que ambientada a cena. E isso me assusta. Decido sair dali… e logo. Faço o motor do carro funcionar. Tento pô-lo em movimento. Algo impede isso. É que a roda dianteira, lado direito, ao chocar-se com a guia do canteiro central, sofreu algum tipo de avaria mecânica, o que a isola do comando do volante. Pronto, estou no prego. Nada posso fazer, a não ser manter contato com a seguradora e requisitar o serviço de guincho.

O senhor de meia idade insiste em que devo chamar a polícia, convicto de que há algo de anormal no caso. Em meio à conversa, conduz-me para a calçada da agência lotérica onde, na opinião dele, eu estaria protegido. Alguém me pergunta se aceito um copo d’água. Agradeço, mas dispenso. Há um certo acolhimento. E isso me encoraja. Pego o celular e o cartão do seguro e, então, ligo para a BB Seguro Auto. Quem me atende não facilita as coisas, querendo impor-me a opção de comunicação de sinistro. Insisto na de solicitação de guincho. E haja pedido de confirmação de dados relativos a mim e ao veículo. E isso me vai enervando.

Uma moto barulhenta cruza a Domingos Olímpio, pela contramão na Rúbia Sampaio, no sentido da Favela dos Pintos, a cerca de um quilômetro daqui, talvez até menos que isso. Alguém observa que motoqueiro e garupeiro não usavam capacete nem máscara. Logo um jovem indaga, lá do canteiro central: Cadê a placa? Um dos fregueses do bar responde: Taí no carro. O dono é o senhor do celular. O rapaz, depois de uma rápida olhada para o interior do Ecosport cinza-claro, retorna apressado ao lugar de onde saiu. Uma idosa com bafo de onça e olhar turvo, sem brilho, a voz líquida, me adverte: O senhor está correndo risco! O rapaz vestido com a camisa do Flamengo me aconselha: Devolva a placa para eles. Não vale a pena… Um senhor de cabelos grisalhos e barba por fazer assevera: Eles vêm até aqui! Prepare-se! A atendente da seguradora insiste em complicar o atendimento do meu pleito, embora eu lhe diga repetidas vezes que Estou correndo risco de vida…

De repente, a moto barulhenta estaciona junto ao meio-fio da calçada… a poucos metros de mim. Uma voz de mulher, às minhas costas, pede que eu a entregue o celular; faço isso sem olhar para ela e sem interromper a ligação. Os dois jovens descem e avançam em minha direção. Ninguém ali se mexe, todos se calam. Anestesia geral. Parecem múmias petrificadas, com um detalhe surreal: o olhar atento a tudo o que se passa em derredor delas. E o silêncio sepulcral me perturba um pouco por, a meu estrito sentir, anunciar a antecâmara do fim. Relembro, en passant, os 64 contos, de Rubem Fonseca, em que toda crueldade inútil parece possível, cujos personagens agem desprovidos de escrúpulos. E ali, bem à minha frente, eu sendo o alvo dos seus ódios atualíssimos, dois indivíduos com esse perfil desumano, frio, cruel, preparam a investida fatal… sei que sou a presa fácil, acuada, rendida. Um rápido e inesperado calafrio viaja pelo meu corpo, na velocidade de um jato elétrico; talvez fosse o espírito – ou o anjo-da-guarda – intervindo para me acalmar, para me fazer entender que sou o elo frágil da corrente da violência urbana.

O motoqueiro, agindo por impulsos e com agressividade, me empurra de encontro ao portão de ferro que dá acesso à agência lotérica. E ali, a um palmo do rosto desafiador, amedrontador de um marginal sem máscara de proteção, sem o menor gesto de comiseração, o olhar de alucinado, de quem não dá o menor valor à vida, de quem sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai desgraçadamente morrer e, por isso, matar é só uma questão de apertar um gatilho, senhor absoluto da situação, no cós do short de surfista, sob a camisa do tipo regata, bem à mostra, o demasiadamente acariciado cabo de revólver, arma de fogo em que se arrima e se robustece a valentia covarde, além do insuportável bafo de usuário de alucinógenos, ao lado o estratégico apoio do onipresente comparsa, ali, naquele momento, senti-me um verdadeiro mama-na-égua, a mosca idiota que busca abrigo no cocô do cavalo do bandido do macarronado western italiano, um zero à esquerda, incapaz de uma reação digna de um homem que sempre pautou a vida na honestidade, na firmeza de propósitos, no respeito mútuo. E, oportuno é enfatizar, que sempre pretendi – e ainda pretendo – receber a visita da Morte em situação não constrangedora. Até porque a sua inevitável presença já se revestirá de constrangimentos – para mim, obviamente.

Ó sensíveis leitoras e leitores, vocês não têm, mas jamais queiram ter, a mais mínima ideia do que seja enfrentar, tête-à-tête, um bandido na atualidade mais desconcertante da humanidade em desarranjo; vocês não têm, mas jamais pretendam ter, a mais mínima noção do quanto incomoda o bafo de um marginal enfurecido, o qual fede… fede… fede… mais que o desumanizante bolor da Morte.

– Passa a chave, bundão! – Diz, ameaçador, o motoqueiro, enquanto tenta retirar, à força, o que se contém no bolso do meu short preto, que ora bravamente protejo com a mão direita.

– Calma, amigo! – Falo isso com a tranquilidade que me vem não sei de onde.

– Você está querendo morrer, vagabundo?! – A puída inversão de valores: eu, o vagabundo; ele, o cidadão. – Vai ou não vai devolver a placa do carro?!

– Claro que vou, cara! É só você ter um pouco de calma… eu preciso ir até o carro… se você deixar… É só me acompanhar.

– Então… então, vamos ser rápido. Eu não tenho tempo a perder, seu velho babaca!

Com a mão esquerda sobre o meu ombro, pressionando o mais que pode o músculo que me encobre a clavícula (Ó minha crônica bursite!), e a direita segurando, os dedos exageradamente crispados, o pulso da mão com que protejo o bolso do short em que mantenho o que ele pretendeu arrancar, o marginal, com a brutalidade própria dos covardes, me conduz até o Ecosport cinza-claro. Não lhe ofereço qualquer tipo de confrontação, nem mesmo de resistência.

Naturalmente, passo às mãos do meu desafeto o que ele tanto insistia que eu o entregasse. Antes de seguir o rumo dele e do comparsa que não arreda pé da cena, que a mim me parece estar participando de uma etapa de treinamento no processo de desenvolvimento pessoal no mundo do crime, ele projeta contra a minha testa a mão direita em formato de revólver, produz com a boca nojenta o som de um estampido e, com um sorriso amarelo, sem graça, me ameaça: Cuidado com a merda da sua vida, velho babaca! Vão-se os dois, e com eles o insólito troféu. Quanto a mim, a leveza de quem se percebe ainda vivo, após cruciais momentos de tensão.

Era o fim do clímax, a que se segue a natural distensão.

Os curiosos se dispersam. Recebo de volta o celular, enquanto uma solícita senhora, funcionária da lotérica – no bolso da blusa verde o logo da empresa – que conseguiu manter a ligação com a seguradora me informa que a atendente me aguardava para apenas concluir o atendimento.

– Pronto, senhor! Dentro de cinquenta minutos…

– Tudo isso, amiga?!

– É o tempo de praxe, senhor. Mas, como eu observei que se tratava de uma emergência, provavelmente em não mais de meia hora…

– Tudo bem. Eu aguardo. Até porque o pior já passou…

 

“O ser humano ama às pressas, mas odeia devagar.” ²

 

Mantenho contato com as pessoas que amo. Consigo remover a preocupação que demonstram sentir ante a demora do meu retorno, afinal eu havia saído apenas para levar a secretária, uma idosa com comorbidades, até a casa dela, no novo normal pandêmico.

Logo o meu genro chega para me fazer companhia. Já não mais me sinto só. Ligo para o Júnior, o meu vizinho de frente, amigo de todas as horas e dono da oficina para onde vou levar o carro avariado. Ele logo também chega. Conhece todos os que ainda permanecem na calçada do bar. Faz um rápido levantamento do caso e conclui ter eu vivenciado uma ocorrência de altíssimo risco. (Ali todos se conhecem. Eu sou, circunstancialmente, o estranho no ninho.) Paga umas doses de cachaça para a idosa com bafo de onça, cujo nome é Maria… Ó Jesus!

Alguns poucos minutos antes dos cinquenta de praxe, quem chega é o guincho e, com notável rapidez, remove o Ecosport cinza-claro e o deposita no pátio interno da oficina do Júnior, duas quadras adiante pela Rúbia Sampaio, em frente à lateral do supermercado Assaí. Na segunda, saberemos o exato tamanho dos estragos. No meu entender, o prejuízo não irá além do valor da franquia do seguro, ou seja, ele será todo meu.

Retorno à minha casa. Estou tranquilo. Enquanto me banho, imagens se formam nos emaranhados sinápticos, todas por mim agora avaliadas pelo meu rigoroso filtro do “se” – e se eu não tivesse saído de casa… e se eu tivesse usado outro trajeto… e se, na colisão, o HB20 preto tivesse atingido a porta do motorista… e se, no choque com o canteiro central, o carro tivesse capotado… e se eu tivesse me acidentado…

Ainda sob um assustador efeito de realidade, algo que vai demorar um pouco até dissipar-se completamente, recolho da minha estante o volumoso livro (quase oitocentas páginas) dos 64 contos de Rubem Fonseca e, no reconfortante aconchego da minha rede de varandas, no mais aprazível e acolhedor ambiente da minha casa – ali onde leio, viajo, crio, durmo, sonho, acordo, recrio, renasço –, sinto-me instado a reler a narrativa do professor de inglês contratado pelo jornalista e escritor argentino Tomás Eloy Martínez (autor do romance Santa Evita, a obra mais traduzida na história da literatura argentina), com que justificou o atraso de cerca de uma hora, em pleno centro de Caracas, ao meio-dia de 2 de abril de 1982, exatamente quando ocorreu um desses fatos inexplicáveis que não raro permeiam as febris relações entre nações livres, no caso, a invasão, pelos militares argênteos, das ilhas Malvinas, uma inexpressiva possessão inglesa em plena costa do vizinho país dos Hermanos. Ó humanidade, tremei!

Pacientes leitoras e leitores, ora compartilho com vocês o que reli.

“Tive um pequeno incidente no metrô. Enquanto esperava o trem, vi um homem com o corpo meio encurvado e segurando a barriga, como que com dor de estômago. Estava de capa. Como você sabe, em Caracas é raro ver alguém vestido assim. Me aproximei dele para oferecer ajuda. ‘Vá embora’, disse o homem, ‘me deixe em paz’. Vi que estava muito machucado e não quis abandoná-lo. Na altura do estômago, a capa estava vermelha, escorrendo sangue. Um homem está morrendo ali, à vista de todos, e não deixa ninguém ajudar. O policial correu até o ferido que tentou se esquivar com agilidade. Já não era um pobre homem ferido, mas um gato acuado e furioso. Por fim, vi que o policial o derrubou e lhe arrancou a capa. Só então percebi que o homem não estava ferido. O que ele apertava contra a barriga era a mão de uma mulher, coberta de joias. Tinha acabado de decepar aquela mão de uma mulher num sinal fechado, para lhe roubar os anéis.” ¹

Sinto-me forçado a concordar com um amigo de longa data, para quem o ser humano é a única de todas as criações divinas de que Deus se arrependeu.

E, para que não haja desperdício no ódio que ora impera entre os homens, ele, o ódio, tem de manifestar-se por inteiro, em toda a sua integralidade. E nisso o homem vem revelando ser um excelente ator.

E ele atua no palco sem fronteiras da Vida. E há até quem o aplauda.

 

“Escrever foi a mais agoniante de todas as lutas que enfrentei. (…)

Ah, os esplendores ilusórios da gloria.” ²

 

¹ Tomás Eloy Martínez, em A sinfonia do Mal, introdução à obra 64 contos, de Rubem Fonseca – São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

² Rubem Fonseca, em obra já citada, às páginas 710 (O corcunda e a Vênus de Botticelli), 337 (Onze de Maio) e 396 (Labaredas das trevas), respectivamente.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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