Desemprego: Neymar explodiu e disse que não tem sangue de barata. Por CAPABLANCA

Você já acordou cansado de tanto descansar? É o caso. Você não tem o que fazer, pois já fez tudo o que precisava e podia nas últimas semanas ou meses. Você não tem para onde ir, porque você já foi a todos os lugares. Você fica encabulado de encontrar e falar com as pessoas, porque está praticamente escrito na sua testa: Desempregado. Você já falou com todos os amigos, mandou currículo pra todo lado, já fez as recomendações dos “coachs”, dos consultores, dos ‘personal isso ou aquilo’, você já fez até promessas e orações, usou e abusou de contatos via redes sociais e pessoalmente com familiares. Você nem busca mais posições, nem se preocupa com faixa de salário, já esqueceu ‘carteira assinada’, se propõe a aceitar bicos e até já disse ‘topar tudo’. Pois é. Isso é desemprego.

O dinheiro acabou faz tempo, e você já recorreu a quem tinha condições de ajudar (e ajudou). O dinheiro da rescisão deu certo consolo por três meses, salário desemprego foi também consumido, aquela jóia e aquele objeto de valor da família foi vendido. Depois de cinco meses desempregado, não fica pedra sobre pedra, em questão de dinheiro.

Essa é só a parte prática, a parte das coisas objetivas. Tem também a parte mental, psicológica. Não é fácil ver o tempo passar, não é fácil saber que hoje é igual a ontem e que amanhã ameaça ser exatamente igual a hoje. Uma hora, desesperança. Outra hora, ansiedade. Você tem direito também a passagens rápidas ou lentas por sentimentos estranhos, culpa, frustração, pânico, vontade de chorar e até de coisas piores e impensáveis. Se você tem mulher e filhos, uma família para sustentar, multiplica por dois. Você acha que as palavras humilhação e desespero são fortes? São, mesmo, quase tão fortes as palavras quanto as duas ‘coisas’.

Dizem que toda crise é igual. Não é, não. Desta vez parece e é diferente. Esta crise parece mais geral e mais malvada. Tem uma crueldade dentro dela que não dá pra explicar. Parece uma crise encomendada e bemvinda, deve ter alguém feliz com ela, ganhando muito com ela, se alimentando dela e do sofrimento alheio. Quem será? É possível isso, alguém sair ganhando com a desgraça de tantos? Quem tem tanta força assim?

Só sei que um desempregado é uma tragédia. Imagina milhões. Imagina essa gente espalhada por todo o país, por todas as idades, por todos os bairros. Imagina a energia negativa, as emoções negativas, os sentimentos negativos…e isso vai se acumulando, acumulando, dentro de cada um e nas famílias e nas cidades. A paciência e a resistência estão se esticando. Precisa botar um freio nisso. Ou vai acabar explodindo de um jeito ou de outro. O Neymar explodiu e disse que não tem sangue de barata. Dá pra entender.

Presidente, mande um tweet para os desempregados. A gente está esperando já faz 120 dias.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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