O MEDO DE AMAR É UM FRACASSO

Agradar uma pessoa significa fazê-la feliz. Mas como fazer uma pessoa feliz, quando ela não aceita ser agradada, seu conceito de felicidade é outro, e não atende às expectativas de quem quer vê-la sorrir? Aí reside um problema de natureza humana, moldada em valores adquiridos, muitos deles, através da educação. Educação que começa em casa, no processo formativo da linguagem e da personalidade. Pois, agora, surge o primeiro dilema a ser discutido: o que fazer para que pessoas de personalidades tão diversas possam descobrir a felicidade?

Tentar significa uma ponte que se pode percorrer ou não. Quando se diz que tentou agradar alguém, realiza-se um esforço que pode levar ao sucesso ou ao fracasso. E quem vai dizer se conseguiu ou não, não é quem tenta, mas quem recebeu o carinho, a atenção, o zelo, a presteza e outras comodidades da alma. Tudo isso depende unicamente de um desejo gerado na consciência racional, com o intuito de equilibrar o meu eu com o eu do outro, através de uma ponte sólida, o amor.

As redes sociais são um laboratório de onde tiro estas reflexões. Mensagens de autoajuda, dirigidas aos amigos, geralmente causam um bem. Alguém se lembrou da gente e eu devo retribuir esta gentileza com outra gentileza. Mas não me parece que uma determinada mensagem seja endereçada tão somente a uma pessoa, que naquele momento, estava online e, no pacto de interagir com os outros, vamos espalhando banners, figuras ou memes para chamar a atenção daquele que está do outro lado, provavelmente fazendo a mesma coisa. E o que leva tanta gente a fazer “a mesma coisa” aos milhares, aprisionados diante de uma tela, onde se alternam facebook, instagram, whatsapp, twitter etc.? Volto à primeira frase do texto: a felicidade e o desejo de agradar, não ao outro, mas a si mesmo. Além dos emojis, bonequinhos de formatos variados que simbolizam palavras ou frases, os cartões de “bom dia”, “seja feliz” vão se multiplicando e revelando frases de autores que são lembrados apenas para esse fim e não mais para uma visita às suas obras, quando poderíamos satisfazer todo o desejo de procura angustiante de preencher a solidão. Na verdade, as pessoas não estão sendo simplesmente cordiais. Elas estão numa busca frenética de atenção e, muitas vezes, de um pedido de socorro. Ao postar uma mensagem, você acha que fez o que acha que tentou. As coisas só se realizam quando têm um feedback. Fora disso, são tentativas frustradas, malogradas, de coisas que não conseguimos fazer e projetamos nos outros a tentativa. O Amor jamais poderá ser uma tentativa. O amor é uma dádiva superior, divina, no sentido extra-sensorial, que não aceita tentativas, porque é impulso de uma libido que nos faz viver. Ou se ama e se compromete com o amor, ou se tem medo e fracassa. Nesse caso, tentar significa partir do meio do caminho, para alcançar quem está no caminho ao meio. Quem quer, faz, age, torna-se responsável pelos seus atos e enfrenta os obstáculos com realizações que vão, desde um agrado ao limite do socialmente ridículo. E, neste caso específico, ser ridículo não é ser patético, mas ser apaixonadamente feliz.

Não se vive de promessas ou medos. Aliás, o medo é o refúgio predileto dos que se acovardam. Amar é vencer o medo, atravessar a ponte e vencer horizontes, um após o outro, para que a vida tenha sentido e o amor seja uma construção de cada dia. Portanto, levante-se! Saia da cadeira ou de onde estiver mumificado diante de uma tela e vá para o aconchego de quem está no meio do caminho, e você, por solidariedade, quer destinar a sua vida, a sua luta, o seu desejo e o seu amor!

 

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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