O Maestro da Especulação

O Brasil tem uma longa e complicada história de trato com a questão cambial. Nos anos 1970 o país endividou-se para poder continuar (digamos) funcionando. É que os preços do petróleo quadruplicaram e nem a Petrobrás produzia o bastante nem o país tinha dinheiro (dólares) para comprar petróleo. Então, pedia emprestado. Nos anos 1980, o país já estava endividado e dependente dos bancos estrangeiros. Depois ficou dependente também do FMI e até do governo americano. Em 1987, o Brasil quebrou – o presidente Sarney decretou a moratória.

Quem não lembra a loucura cambial dos anos 1980. Mini-desvalorizacões e maxi-desvalorizações, especulação desenfreada, ganhos e perdas gigantescas para as empresas, para as pessoas e para o país. Vexame atrás de vexame. O Brasil não podia fazer nada sem pedir licença ao FMI, ao Clube de Paris e aos banqueiros.

Nos anos 1990, dois registros importantes. Presidente Fernando Collor consegue fazer uma boa renegociação da dívida (boa para os credores, boa para o país). Ganhou-se algum fôlego. Depois veio FHC e o Brasil quebrou de novo e voltou a correr o chapéu entre os bancos estrangeiros e pedir a bênção ao FMI. O presidente FHC chegou a pedir o socorro pessoal do presidente dos EUA, o Clinton, e foi atendido – Deus sabe o preço.

Na época do Lula, o Brasil corrigiu a balança comercial (o tal boom das comodities), ajustou seu défici em transações correntes e acumulou reservas. Fim da dependência dos bancos estrangeiros, do governo americano, do FMI e do Clube de Paris. Hoje o Brasil tem reservas de 350 bilhões de dólares (eram 385, mas o novo governo queimou uma parte já).

Não há, pois, razão qualquer que explique como a moeda brasileira ocile quase tanto quanto a moeda argentina e de outros países endividados, falidos. Só a especulação nos mercados futuros de câmbio explica tamanhas oscilações, primeiro para cima, depois para baixo, depois tudo de novo.

O atual ministro da Economia parece não perceber que ele termina sendo percebido como o maestro da especulação, quando diz que “acabou o tempo de dólar barato”, ou quando diz que “se o dólar chegar a 5 reais a gente queima reservas”, ou quando se propõe a estudar “uma moeda única Brasil-Argentina”, ou ainda quando anuncia que “estamos prontos para dólar a 4,20”. Desse jeito, o dinheiro que quer economizar com as reformas, o Banco Central vai acabar gastando só num semestre de especulação.

Os piratas não estão lá fora, estão aqui mesmo. Quem precisa de George Soros para ensinar a perder dinheiro?

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

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