O LINCHAMENTO POLITICO DO JUIZ MORO E A SOBREVIDA DO SENADOR

A trajetória política do brasileiro Moro estava traçada pelo destino. 

Juiz Federal, dominado pela indignação do testemunho de tantos crimes praticados contra a fazenda pública, partiu em campanha contra a criminalidade. 

Evidências e provas, flagrantes e confissões e a celeridade processual que engordaram os autos, até então magros de inculpações, apontaram responsabilidades, interesses e autorias — em um verdadeiro saque do erário e de bens públicos.

O desdobramento natural do empenho de Moro no rastro da criminalidade incrustrada na máquina do governo seria a continuidade de uma carreira brilhante que o levaria, quem sabe, a vestir um dia  a toga dos tribunais. Jovens promotores e advogados, conduzidos  pelos mesmos impulsos de Moro,  seguiram o árduo caminho da busca dos inquilinos do patrimônio público e expuseram-se a uma luta feroz contra os dignitários do poder do Estado.

Com tantos agentes públicos e homens de negócios acossados pelas denúncias, delações e disputas entre beneficiários, quadrilheiros, diligentes e dissimulados sócios, parece natural que contra Moro e os promotores se voltasse a unanimidade da ira e do desejo de vindita dos suspeitos. Foi o que aconteceu.

Moro deixou-se vencer pela sedução encantadora de tornar-se ministro da justiça. Fez o que não devia: a vaidade ingênua venceu o bom senso, sucumbiu ao canto das falsas promessas, tornou-se ministro. Da justiça.

Esquecera que, entre suspeitos e denunciados, encontravam-se trambiqueiros comuns, mas também figurantes distintíssimos da oposição e do governo, associados em um mesmo projeto, por entre aparentes divergências —  políticos, parlamentares, agentes federais, e o exército silente da magistratura, dos amaciados pela vontade do poder e pelos interesses prevalecentes.

Tropeçou, pela segunda vez, ao sair de fininho do governo, fugindo ao confronto que haveria de chegar e que, armado o cenário propício,  reforçaria o relevo da sua integridsde como magistrado. Saiu antes do último, decisivo,  round.

Imaginou, embalado pela ingenuidade dos bons, cidadão ordeiro e confiante, que poderia ser candidato à presidência. Ou ao senado ou a deputado. Anseio legítimo e justificado, frágil propósito, entretanto, em face do poderio de bases oligárquicas e das cumplicidades dos seus prepostos.

Esqueceu, entretanto, que 32 partidos políticos em estreita associação de interesses, nas beiradas do Fundo Eleitoral, compartilham estratégias muitas vezes  divergentes, porém as conveniências são, sempre, convergentes e solidárias. 

Por que aceitariam Moro como candidato ao Senado ou à Câmara federal? Em qualquer partido, em qualquer estado da federação — até mesmo no Consórcio petista do Nordeste  —  Moro teria chances de ser eleito. E de tirar da lista de candidatos os filhos das greis das oligarquias locais. Por que, então, haveriam de deixar que essa fatalidade anunciada  acontecesse? Qual o preço real dessa operação?

Para honra e merecimento de Moro, as circunstâncias demonstraram que, como candidato e projeto de político, ainda que fracassado, este juiz quixotesco revelou-se o único  postulante a cargo eletivo capaz de despertar, por mérito próprio — a oposição, o ódio e o consenso de condenados comuns,de políticos de todas a cores, do governo e da oposição, da mídia, da Igreja, das empresas pastorais da fé, das elevadas cortes da justiça, dos artistas, dos intelectuais, dos movimentos sociais, dos sindicatos, da  aparelhagem ideológica de direita e esquerda e de um centrão em lenta e pertinaz construção. 

A breve passagem desse juiz de boa fé pela vida pública deixou, como a fugaz operação das”mãos limpas”, na Itália, a evidência de que a corrupção do Estado pode ser combatida, porém há de ser inútil. 

A corrupção é mais do que uma ação criminosa contra o patrimônio público — no Brasil, é um traço cultural persistente e aliciador, vem da fundação da nossa identidade como nação e país.

Poucos brasileiros  alcançaram tamanha consagração em vida quanto Moro, alvo da rejeição das forças politico-partidárias corruptas mais expressivas  e de parte considerável da sociedade.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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