O inverno está chegando

Segundo as pesquisas eleitorais, uma vitória do candidato Lula nas eleições presidenciais que se avizinham é algo bem provável, seja no primeiro turno (algo mais dificil no atual momento) ou no segundo turno (perspectiva mais realista). Apesar disso, é de bom tom que todos que apoiam a democracia e desejam o fim do atual governo de extrema-direita que ocupa o poder federal brasileiro estejam conciêntes que Bolsonaro e seus vassalos ainda podem reverter o quadro; possuem força social, dinheiro, apoio das elites dominantes e a máquina estatal para isso.

Como projeto de poder e hegemonia cultural, o bolsonarismo nos assombrará por muito anos, sobretudo porque consegue apelar para o debate moral, mentindo e manipulando a população mais vunerável, carente não só de melhores condições materiais como de pensamento crítico, ao se arvorar de um discurso cristão fundamentalista, mais ligado a Silas Malafaia do que a Jesus Cristo.Com todo esse aparato é bom termos cuidado com as previsões muito otimistas.

Bem, até este momento é bem razoável dizer que a grande opção para derrotar Bolsonaro e seu projeto de destruição é a candidatura de Lula. O petista é sem dúvidas o único político brasileiro que consegue aglutinar apoio de gente como Geraldo Alckimin, partidos como o PSOL, movimentos sociais como o MST e figuras públicas como Juliette, Gil do Vigor, Chico Buarque e Ludimilla,além de possuir um apoio social impressionante (Qual outro ex chefe de estado despontaria como favorito a ganhar a eleição contra o atual mandatário depois de ser preso e desmoralizado?).

No debate da Rede Bandeirantes de televisão, momento em que ao meu ver Simone Tebet e Ciro Gomes se destacaram positivamente, Bolsonaro não foi bem, mas não deve perder votos por isso e Lula foi muito recatado, o petista brilhou justamente quando saiu do roteiro programado pela sua assessoria invocando seu lado trabalhista ao lembrar para Soraya Tronicke que os jardineiros, motoristas e empregadas domésticas tiveram uma vida melhor no seu governo seguindo a trilha de um discurso popular, democrático e sem rodeios, seguramente emocionante e esperançoso, que reverbera muito bem em gente como meu vizinho que é mototaxista e entregador de água que me disse numa conversa que tinha vontade de comprar um carro em um novo governo petista já que ”O Lula dá oportunidade pra gente” ou na moça que faz serviços domésticos na minha casa, negra, evangélica e moradora do Lagamar, que afirmou que votaria no sindicalista pelas suas propostas e que Bolsonaro representa o anticristo, figura religiosa cristã que veio para enganar e ludibriar os filhos de Deus na terra disfarçando-se de Salvador (Messias, Mito) e exercendo um poder danoso na sociedade.

Um critico poderia dizer que se Lula representa esta camada da população ele também é bem acessivel para os banqueiros e empresários que se beneficiaram das administrações petistas. Tirando os exageros, esta crítica está correta. De muitas formas o lulopetismo foi bondoso até demais com os poderosos e o grande capital. Se tudo isso pode ser maquiado em uma campanha eleitoral, dificilmente, ao meu ver, resutará em algo positivo em um possível novo governo.

Apesar de ter pego o Brasil numa situação bem dificil em 2003, hoje a situação social e economica do país está bem pior com inflação alta, desemprego e a fome atigindo 33 milhões de brasileiros, além de um clima de ódio contra adversários políticos que provavelmente o Brasil só viveu na época dos Integralistas de Plinio Salgado brigando nas ruas contra os comunistas.Será muito dificil para um novo governo petista trazer bons resultados.

Segundo certas previsões, o mundo se encaminha para uma recessão global em 2023, que pode ser o prenúncio de uma nova crise financeira tal qual vivemos em 2008.As mudanças climáticas chegaram em níveis calamitosos e é dificil dizer se é possível reverter o estrago que já foi feito, a fome e a extrema pobreza voltou ao centro do debate mundial e não sabemos até quando sofreremos com a COVID-19 ou quando outra pandemia surgirá. A democracia representativa perdeu sua pujança e charme e a pespectiva de um Estado de bem-estar social parece uma história contada por idosos em nossa época dominado pelo mercado financeiro.Desnecessário falar do perigo do fortalecimento da extrema-direta em grande parte dos países.

Seja lá quem for o presidente de um país continental importante geopoliticamente como o Brasil terá dores de cabeças terríveis na tentativa de trazer o minimo de bem-estar social para a população. Será que uma ”frente ampla” que aglutina setores tão divergentes e que podem no final das contas representarem diferentes interesses sociais ajudará no manejo deste inverno econômico-social que se aproxima?

Repetindo o lema da Familia Stark dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo de George RR Martin que inspiraram a série da HBO Game of Thrones, o inverno está chegando!

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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