O HOMEM, A VIOLÊNCIA E O NOVO NORMAL

ASSALTARAM-NO, AO MEIO-DIA DE UM DOMINGO SOMBRIO, abafado e modorrento, em frente a restaurante tradicional em larga avenida da cidade, antes de intenso fluxo de carros e pessoas, ora parecendo jazer sem vida, dois marginais de arma em punho e máscaras no queixo, agressivos no agir. Dele levaram o carro, a carteira de cédulas e documentos, o relógio, o celular e até a aliança. Antes da fuga, um deles o encarou com os olhos crispados de ódio, apontou o revólver para quem não oferecera qualquer reação e, sem o menor respeito pela vida, com um projétil soberano, acertou-lhe o peito. O estampido seco do covarde tiro ecoou ao longe. O rapaz sentiu arder o íntimo, escurecer a vista, perdeu o equilíbrio, cambaleou e desabou no asfalto, bem próximo à guia da calçada.

Ambulância, primeiros socorros, hospital, sala de ressuscitação, cirurgia, unidade de tratamento intensivo, recuperação, enfermaria, alta, convalescença em casa, entre os seus, e, enfim, retorno à vida normal. No corpo, a cicatriz da intervenção cirúrgica; na alma, o irremovível trauma da violência sofrida; na memória, a nítida imagem de quem lhe impusera tanta dor, com desbordo de transtornos e preocupações para familiares e amigos; na conjunção desses fatores, nutria-se, a cada dia, o silencioso desejo de vingança.

Passados alguns meses, ao sair de agência bancária sediada na mesma larga avenida, agora com baixo fluxo de pessoas e carros, sol a pino, ele percebeu a aproximação de um rapaz – camisa polo de cor verde, calça jeans de azul desbotado, tênis branco, mochila nas costas, máscara no queixo, celular na mão direita e fones de ouvido – que caminhava apressadamente, como quem foge de algo. Avassalou-o, de imediato, a desconfiança, logo seguida da confirmação. É ele; tenho certeza disso. Confidenciou isso consigo mesmo.

Ante essa convicção, não titubeou. Havia chegado o momento tão desejado. O que parecia impossível, agora se fazia realidade. Não se deixou envolver por sentimentalismos. Sacou o revólver, mantendo-o ao lado da coxa, com o cano voltado para o chão. Deu alguns passos adiante. Agora de frente com o seu desafeto, apontou a arma para ele, na altura do abdômen, e, sob uma calma que nunca houvera experimentado, indagou-lhe:

– Você se lembra de mim?

– Nunca o vi mais gordo… – Pilheriou o jovem, como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira de mau gosto.

– Já viu, sim. Eu sou aquele rapaz do assalto à porta daquele restaurante (e indicou, com um leve meneio de cabeça, a esquina da outra margem da avenida). Você quis me matar… lembra-se? Só que não conseguiu, seu monstro!

– Não tenho a menor ideia… – Com os olhos de estupefação, o cano do revólver agora a um palmo da testa, calou-se.

– Agora, marginalzinho de meia tigela, quem está no comando sou eu. – E… bang!

À medida que um estampido seco de tiro de revólver ecoava ao longe, um corpo tombava no piso cheio de sujidades da calçada. Sem pulsação, sem respiração, sem vida.

Logo, as diligências policiais revelaram tratar-se de um jovem auxiliar de enfermagem que seguia às pressas para o hospital em que cumpriria mais uma exigente jornada de luta incansável contra o coronavírus e sem qualquer registro que desabonasse a sua ilibada reputação. Perdera a vida para a violência urbana pelo simples fato de ter sido sósia de um marginal que, certamente, continuava praticando as suas perversidades contra pessoas inocentes e indefesas.

 

“A morte, que está de sentinela, em uma das mãos tem o relógio do tempo, na outra tem a foice fatal, e, com esta, de um golpe certeiro e inevitável, dá fim à tragédia, corre a cortina e desaparece.” (Matias Aires, em Reflexões sobre a vaidade dos homens/LXXIX).

 

Post scriptum:

LIVRE PENSAR. Algumas reflexões permito-me extrair do caso, cuja veracidade não me é dado asseverar. Coisas de quem se mete no universo da literatura, onde criar e inventar são permitidos – até mentir, segundo Ariano Suassuna, se for em favor da arte. Uma: Tudo pode mudar, até porque, sob a batuta do tempo, tudo em nosso derredor é mutável; só o homem, na essência, permanecerá o mesmo, apesar das naturais evoluções (ou involuções). Outra: A morte não consiste na antonímia da vida, até porque elas – vida e morte – a rigor não se contrastam, pois se pertencem; afinal, sob um ângulo, para que a morte exista, impõe-se que a vida tenha antes existido, e, sob outro, diametralmente oposto, se há vida, certamente haverá a morte; ou seja, uma é a confirmação da outra; ademais, sendo a vida o interlúdio que se limita, de um lado, pelo nascimento (prelúdio) e, de outro, pela morte (poslúdio), compõe-se, assim, a universal trilogia da existência humana. Outra mais: Se, conforme o pensamento shakesperiano, “o mundo inteiro é um palco”, onde se desenvolvem os dramas – autos, comédias, farsas, tragédias – humanos, a vida é uma viagem, com início, meio e fim; quanto a nós, bem, a nós são confiados, ao mesmo tempo, os graves e cruciais papéis de personagem e passageiro. Conclusão: Voei… agora aterrisso.

 

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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