O FIM DAS AMIZADES

Eu, diante dos argumentos que você sempre justifica para manter seu apoio ao inominável presidente, determino o fim da nossa amizade. Tudo que defendo como virtude você é contra. Não vejo mais motivo para que nossa relação tenha o nome de amizade. Se você não respeita o direito da maioria, impondo a truculência contra os mais fracos, eu desejo que você encontre nos seus pares aquilo que perdeu de mim.

Você, que é meu amigo de longas datas, que atravessou algumas turbulências na vida e nos mantivemos amigos; você, amigo recente, que pela identificação em alguma área da vida nos tornamos parceiros, saiba que nossas diferenças estão fazendo toda diferença na minha vida, hoje, no momento sócio-político em que estamos inseridos.

Saiba que, se você apoiou e ainda apoia um miliciano, eu sou contra a milícia;

Se você apoiou o negacionismo que causou a morte de mais de 600 mil pessoas, eu sou contra o negacionismo;

Se você acredita que seu presidente tem boas intenções, mesmo se aliando ao Centrão, perdoando criminosos e omitindo investigações contra seus aliados, especialmente os membros da família do presidente, eu quero vê-los na cadeia;

Se você apoiou e não se preocupa com os aumentos abusivos nas tarifas, nos impostos e nos preços do gás, da gasolina e da energia elétrica, prejudicando, sobretudo os mais pobres, saiba que você é de uma natureza excludente e perversa, pois os mais pobres são os mais atingidos;

Se você é a favor da política de alianças do presidente, que levou ao Ministério da Educação um evangélico corrupto, que, ao invés de praticar política educacional, transformou o MEC num balcão de negócios, através da propina e da corrupção deslavada, saiba que você é corresponsável pelos baixos salários dos professores e pelas péssimas condições de ensino, de que tanto reclama;

Se você é contra a política de cotas, porque acha que os negros, os indígenas e os pobres deveriam ter as mesmas condições de concorrência que os não vulneráveis e desconhece o contexto histórico da colonização, que negou alimento, saúde, educação, trabalho e dignidade aos pobres negros e indígenas, quando não raramente os matavam num processo de limpeza étnica e preconceito racial e social de feições cruéis, saiba que eu sou a favor de todas as políticas de inclusão e vejo na sua atitude um ato nazifascita semelhante ao que ocorreu na Europa;

Se você não liga para a universidade pública, para a pesquisa e para o desenvolvimento tecnológico do país, saiba que venho de universidade pública, trabalho como professor em uma universidade pública, lidero  um grupo de pesquisa e sou editor de uma Revista Acadêmica, junto com outros pesquisadores professores, técnicos e estudantes. Portanto, você está atrasando o país e colocando em risco toda uma cadeia produtiva que pode nos dar autossuficiência em ciência e tecnologia;

Se você é favor do armamento da sociedade e reclama dos governadores e prefeitos a violência galopante, mesmo ignorando que a violência aumentou assustadoramente neste período pós-bolsonaro, saiba que você é hipócrita ou alienado. E eu sou contra o armamento;

Se você foi a favor da Reforma da Previdência e da retirada dos direitos dos trabalhadores, tanto do setor privado como do setor público, saiba que você favoreceu a elite empresarial, os banqueiros e o agronegócio, enquanto os pobres se tornaram miseráveis e o endividamento da população está inviabilizando que as pessoas alcancem uma vida digna. Eu tenho certeza que você é um ser egoísta e se morrerem milhares de pessoas, outro tanto perderem o emprego, outros ficarem ao desabrigo, outros transitarem como zumbis entre os carros no sinal, alegando fome, nada mudará em sua vida mesquinha;

Eu, diante dos argumentos que você sempre justifica para manter seu apoio ao inominável presidente, afirmo que não tenho mais alegria na nossa amizade. Tudo que defendo como virtude você é contra. Não vejo mais motivo para que nossa relação prossiga da forma como está. Se você não respeita o direito da maioria, impondo a truculência contra os mais fracos, eu desejo que você encontre nos seus pares aquilo que perdeu de mim. 

 

Fonte da imagem: https://catracalivre.com.br/cidadania/como-discutir-politica-de-forma-saudavel/

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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