O CORPO DISSIMULADO DE PENÉLOPE CRUZ

O todo tem uma vocação incontrolável para transformar-se em parte.

O livro reduz-se, no trajeto da leitura, a capítulos, a partes do conjunto, ordenados no sumário ou no índice, unidades atomizadas, “quand même”. Esta decomposição, a atomização da totalidade em unidades, tira-lhe a força de uma desejável associação de conceitos; em compensação, fortalece a intenção de conceder autonomia a uma fração fragmentada do conjunto.

Esta contraposição intencional ou arbitrária entre o conjunto e as suas partes reduz ou amplia a visão do observador sobre a realidade contingente.

O corpo descansado de uma mulher sobre lençois em desalinho não sugere ao cúmplice, nas artes da mútua sedução, a visão reconstrutiva do cirurgião. Um observa e desfruta a cena sensual movido pelos impulsos essenciais da libido. Ao outro, surge o campo delicado no qual exercerá intervenção pontual, precisa e modeladora.

A pele macia e os pelos, crescidos com suave precocidade, prenunciam vales extensos, declives e contornos, profundidades carregadas de encantos e mistérios, mananciais úmidos, por onde se escondem súbitas precipitações e corre a seiva de envolventes desejos.

De perto, ao alcance da mão esperta, pressente-se o odor de ternas ervas adocicadas; da canela, o cheiro forte da especiaria; do cravo, o gosto sensível, picante, preso à língua inquieta, já amortecida por tanto e tamanho enlevo, e os anseios loucamente despertados.

Distanciando-se, já livre da colcha revolta, em sedutor desalinho, compraz-se o olhar perscrutador com a visão reveladora do conjunto, exposto e nu, de coxas vigorosas, relaxadas, o ventre recolhido, os pequenos seios despontando, vigorosos e rijos, e o colo desenhado pelas curvas serenas que descem e escondem-se delicadamente em meio a um redemoinho de encantamento e desejos apascentados.

A imagem persiste clara, em demorado branco e preto, com o olhar perdido e assustado de Penélope, que fia, com esperanças renovadas, faz, desfaz e recompõe obra interrompida à espera de Ulysses, o seu rei perdido, no mar adriático pungente de amores e tragédias, nos braços de sereias redundantes e sedutoras e que não será o mesmo, vencidas tantas lutas e tantas guerras. Ulysses volta aos braços de Penélope, mas não mais a enxerga próxima e confidente. Pressente o herói apenas o contorno delgado de um corpo que deixara de ser seu…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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