O combate à corrupção precisa começar em casa, por Luís Eduardo Barros

Uma porção significativa da sociedade brasileira vestiu-se de verde e amarelo e, cantando o Hino Nacional, encheu as ruas de diversas cidades brasileiras. O combate à corrupção e o apoio ao prosseguimento implacável da Lava Jato era a motivação básica de todos. Foram momentos de real patriotismo, isso é inegável, principalmente por que eram cidadãos livres que foram às ruas sem pagamento. Por livre e espontânea vontade de ver o País melhorar.

É uma iniciativa importante no incipiente processo de moralização da vida pública brasileira, sem dúvida, mas, no meu entender, é insuficiente. O combate à corrupção só será considerado para valer se começar na casa de cada um dos brasileiros. Isso por que, o combate à corrupção dos outros, só será levado à sério, se os cidadãos brasileiros demonstrarem que estão tão dispostos a eliminar a corrupção na vida pública, que aceitam a eliminar a corrupção na vida privada.

Entendemos indispensável, portanto, que cada brasileiro demonstre no dia a dia que está disposto a abandonar hábitos já seculares. O nível de movimentação financeira sem incidência de impostos, que muitos estimam a algo em torno de 30% do PIB nacional demonstra nosso baixo interesse em fazer a coisa certa. O apoio popular é irrestrito aos camelôs ou transportadores não licenciados que comercializam seus produtos e serviços à margem das leis e da tributação. É espantosa a estatística dos famosos “gatos” ou ligações clandestinas de água e energia elétrica, sem pagamento pelos usuários. E isto é corrupção, quer queiramos ou não! E é posto em prática, numa estimativa por baixo, por quase a metade de todos os brasileiros.

Isso precisa acabar, assim como a venda de votos pelos eleitores, pouco preocupados com a importância de seu voto. O pedido de emprego aos políticos e gestores públicos para um parente ou amigo. O estacionamento indevido na vaga de idosos ou deficientes, a fila dupla na frente das escolas, perceber uma remuneração acima do limite constitucional etc. Isso tudo também é corrupção, apenas com um valor menor ou uma motivação mais nobre do que a corrupção praticada por agentes públicos e sua contraparte privada.

Os políticos respeitam a voz do povo, isso é verdade. Mas, enquanto a sociedade que protesta contra os atos de alta corrupção dos políticos, continua a praticar a pequena corrupção do dia a dia, eles respeitam, mas não temem. Contudo, se perceberem que a sociedade brasileira está mudando seus hábitos e eliminando as práticas dessas pequenas corrupções, então terão certeza de que precisam também mudar. Aí esse processo de mudança será inegavelmente vitorioso. Pois, quem não aceita tirar proveito nem das pequenas coisas, será implacável com aqueles que tiram proveitos das grandes. O combate à corrupção precisa começar em casa.

Luís Eduardo Fontenelle Barros

Luís Eduardo Fontenelle Barros

Economista e consultor empresarial.

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