O Círculo Virtuoso da Opinião e da Mídia

You provide the prose-poems. I’ll provide the war”,

Kane, em resposta à afirmação de um repórter que

dizia não haver guerra em Cuba.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

O “Cidadão Kane”, a obra maior de Orson Welles, é considerada um dos pontos altos da filmografia de todos os tempos.

Kane personifica a figura de um grande empresário da imprensa (o jornalismo radiofônico ensaiava os primeiros passos) americana. O “boom” da indústria jornalística só veio ocorrer no entreguerras, com a expansão das redes nacionais de jornais pelas principais cidades americanas. Emissoras de rádio e de televisão entraram no poderoso circuito da informação como capital moderno, ainda que subsidiário de jornais e revistas. Levaria, entretanto, algumas décadas para assumirem a liderança dos canais de informação social, quando se tornaram, segundo a projeção macluhaniana, da “mídia. MacLuhan criou a síntese de uma complicada equação, “o meio é a mensagem”, e nesta redução feliz expôs as relações íntimas entre os meios de comunicação com a sociedade. É disso que se trata aqui, neste breve esboço de identificação de interações outras, aquelas que se se desenvolvem por entre o metabolismo que dá vida e poder à mídia.

Antes de o “new journalism” tomar corpo e se projetar sobre a literatura a sua irresistível influência, as tiragens das edições cresceram na medida que o jornalismo ampliava os seus espaços para acolher notícias e comentários políticos. O “new jornalism” (no Brasil, houve quem o batizasse de jornalismo literário) começa a ganhar expressão, influência e respeitabilidade pelos anos 1960. A explosão desse laboratório de experiências nada banais amplia as margens de convergência entre as características literárias do texto com a objetividade da notícia. Para Tom Wolfe, Truman Capote e Gay Talese ganhou vezo e requintes literários narrar a história como um acontecimento pessoal e não apenas como um fato. É dessa onda que a muitos parecia moda passageira, que flui a legitimidade literária e culta do jornalismo. Faltaria, entretanto, à “imprensa”, hoje, batizada “mídia”, mercê das águas da crisma, a credibilidade da notícia e do editorial questionada pelas relações astuciosas que. No comum das vezes, associa a liberdade de expressão aos meios que a alimentam. Os meios seriam, afinal, a mensagem?

A base de sustentação da imprensa, por essa época, era a receita proveniente da vendagem do jornal e da publicidade. A expansão da circulação passou, como previsível, a influir sobre o crescimento da publicidade, em volume e receita. Os preços do exemplar baixaram para 9 cents por capa como estratégia de indução do aumento da circulação e por via de consequência da receita decorrente da publicidade. Armou-se um ciclo cumulativo de causa e efeito, tanto maior a circulação, quanto mais efetiva a participação dos anúncios nos registros contábeis da empresa.

O governo tornar-se-ia cliente e usuário da imprensa um pouco mais tarde com as suas verbas para informação de “interesse público”, metáfora conveniente da propaganda dos feitos do governo.

No Brasil, não seria diferente. Chateaubriand, com os Associados, representam um percurso semelhante. Chateaubriand, o nosso cidadão Kane, fez escola e, por espertas vênias e aproximações sucessivas do governo, assegurou um fonte de recursos, segura e constante. De tal modo próspera tornar-se-ia essa imensa máquina de produzir a realidade e as maravilha dos sonhos, que, não demorou, novos Kane surgissem pais afora, jornalistas, de começo, empresários e políticos em seguida.

O rádio e a TV são eventos complementares, cuja projeção ultrapassaria, no futuro, a imprensa e o seu pioneirismo. Os jornais estão a ganhar, diante do impacto da evolução digital e do advento das redes sociais, um novo perfil. Perdem a materialidade das oficinas gráficas, porém ganham na redução dos custos operacionais, dos equipamentos, insumos e pessoal. O jornal digitalizou-se e deverá adaptar-se à nova linguagem como condição de sobrevivência.

O enorme aparato de uma empresa de mídia sofreu transformações organizacionais recentes, imprevisíveis há poucos anos. Foram-se o odor, a matéria prima de papel e tinta e a enorme massa de operários que emprestavam às redações e oficinas o ar retrô de uma fábrica. A fábrica transformou-se em um escritório no qual a realidade sofre a perícia dos analistas; a eles cabe certificar e dar validade aos fatos, com maior ou menor comedimento nessa delicada. É possível, em consequência, fixar a sustentação da mídia moderna, a exemplo do que ocorre com as empresas, com apoio em fontes de receita, permanentes umas, ocasionais e variáveis, outras. E como contrapartida, o zelo pelos requisitos de qualidade dos produtos postos no mercado

Hearst, a exemplo do personagem de Orson Welles, multiplicou-se no Brasil, redução nano do velho e poderoso cidadão Kane americano.

A TV e o rádio emprestaram asas às impressoras, e criaram o fenômeno da usinagem de fatos e opiniões, conhecida hoje pela expressão macluhaneana, “mídia”.

As redes sociais vieram a seu tempo com a Internet e ocuparam espaço insuspeitado e concorrencial, arrancando à mídia formal o monopólio que lhe cabia, por direito divino – o da veiculação da informação e da construção da verdade. Os novos canais motivaram vozes que não se faziam ouvir, a reação pesada dos opiniáticos, os que pensam possuir a clarividência que lhe concede o privilégio da verdade. E os imbecis de toda sorte, como descobriu Umberto Eco. A Internet exala um odor forte de autoritarismo, de ódio e de vingança verbalizada: é o totalitarismo ao alcance de todos, por linhas tortas. Canal alternativo, lançado na busca da livre manifestação e da liberdade de pensamento, as ondas da Internet abriram-se à navegação de piratas afoitos, e de corsários a soldo, tal qual Blake em seus “resets” destruidores, a serviço de Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra.

Tanta modernidade não haveria de perder-se sem consequências, inclusive consequências por muitos indesejáveis. Sem que os controladores da mídia, formal e informal, percebessem, os novos meios e a persistência das velhas mensagens produziram, do outro lado da corrente, um receptor mais inteligente e, sobretudo, desconfiado dos fatos que lhes são levados e de como são induzidos a acreditar neles. Já não vale a velha expressão de reiterada segurança: “deu no jornal”… Nada mais imponderável do que o que se ouve e vê na televisão. Diz-se à boca pequena, “nem o passado, no Brasil, merece confiança”…

A mídia pode não ser mais o terceiro poder, imagem que encobriu por muito tempo os interesses que a impulsionaram e revestiram, com a falsa impressão da verdade, o seu papel de pilar inabalável da democracia. Não perdeu, porém, a capacidade de polir divergências e articular convergências poderosas no governo e fora dele. Em nenhum outro lugar poderá ocorrer a transfiguração de vilões em heróis e mocinhos, e de mocinhos e heróis em vilões a serem execrados pela opinião pública. Nos cenários da fama, a glória de hoje há de ser o exílio de amanhã. As malas suspeitas de hoje, fugirão da lembrança cúmplice, amanhã.

A opinião modelada nesses laboratórios de síntese resulta de uma trabalho astucioso de convergências múltiplas.

A publicidade comercial é um das escoras de sustentação dos lucros, salários e do custeio operacional de uma indústria sofisticada e cara. A propaganda governamental passou a ter participação progressivamente mais relevante na receita da empresa. Como todo o processo de informação, a imprensa tornou-se eletrônica, digital, protegida pelas leis e pelo código penal, e considerada por todos os que dela se servem em prol da verdade ou com o propósito de a demolir.

Nesse círculo de causalidade e efeito, é possível aventar a possibilidade de que patrocinadores e anunciantes (publicidade comercial e propaganda governamental) possam desfrutar da influência preponderante na formulação da opinião da empresa midiática. A intercorrência de atuação de outras fontes (partidos políticos e grupos de “influencers” e “lobbies”) ampliam o círculo sem criarem, entretanto, antagonismos internos que não possam ser controlados.

Afinal, a democracia tem fôlegos de sete gatos. Desses impasses aparentes ela retira aparentemente as suas forças.

Como duvidar do compromisso essencial da mídia com a democracia?

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

Mais do autor

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.